José Carlos era um defesa central à antiga, tanto no plano futebolístico como na forma discreta como encarava a profissão. Podia ter ido mais longe se a guerra em África não lhe tivesse roubado três anos de carreira.
2015-12-27

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1967

José Carlos era um defesa central à antiga, daqueles que se preocupava sobretudo em não deixar brilhar o avançado-centro adversário. Nunca foi de grandes aventuras atacantes, mas quem o orientava no V. Guimarães sabia que ali estava um valor seguro e fiável. Não teve muita sorte no futebol, sobretudo porque o serviço militar e a guerra em África lhe roubaram mais de três épocas no que podia ter sido o seu período áureo, mas ainda se retirou com muitas histórias para contar, tanto em Portugal como na sua passagem pelo futebol dos Estados Unidos, quando a moda era os portugueses irem lá passar o Verão.

Chegado do Âncora Praia aos 19 anos, José Carlos já seria, possivelmente, como jovem, o homem relativamente tímido e discreto que é hoje. Não fez, por isso, grandes ondas e ficou pela reserva numa equipa que tinha como defesas-centrais os consagrados Manuel Pinto (vindo do Benfica há uns anos) e Joaquim Jorge (emprestado pelo FC Porto). O treinador francês Jean Luciano, também ele chegado nesse ano para substituir o argentino Jose Valle, só se lembrou do miúdo a 20 de Fevereiro de 1966, quando lhe deu a vaga de Pinto, que há algumas semanas estava lesionado. José Carlos estreou-se num empate a duas bolas com a CUF, no Barreiro, e manteve o lugar por mais duas semanas, uma delas porque o jogo era com o FC Porto e, na qualidade de emprestado, Joaquim Jorge não podia jogar. Ao todo, esteve em quatro jogos na primeira época, mas só ganhou o último, um 3-1 ao Lusitano de Évora que serviu para confirmar a quarta posição final do Vitória, a apenas um ponto do FC Porto.

A verdade é que as coisas não mudaram muito no segundo ano de José Carlos. Luciano continuava a apostar em Pinto e Joaquim Jorge e o jovem de Vila Praia de Âncora fez apenas um jogo no campeonato: a derrota por 4-1 com o FC Porto nas Antas. Juntou-lhe duas partidas da Taça de Portugal, também elas perdidas, contra o Sp. Braga, marcando a eliminação nos oitavos de final. Só com a chegada a Guimarães de Juca, em 1967, é que José Carlos começou a jogar mais. Nem sempre como defesa-central, mas ainda assim o suficiente para se perceber que era um valor com qual o Vitória podia contar. Começou o campeonato como titular, num jogo na Luz contra o Benfica que os encarnados só ganharam (2-1) com um golo de fora da área, aos 88’, e foi-se mantendo nas escolhas do treinador até Fevereiro. Pelo caminho, dois golos: na véspera de Natal de 1967 marcou na vitória por 2-1 frente ao FC Porto, em Guimarães, com um remate de longe; no último dia do ano, fez em nome próprio o golo da vitória na Póvoa de Varzim (1-0). Estava lançado… não fosse a tropa.

Entre os 90 minutos que fez na vitória frente ao Belenenses, por 1-0, a 18 de Fevereiro de 1968, e outro sucesso pelo mesmo resultado, frente à mesma equipa, mas em Guimarães, a 17 de Outubro de 1971, não se ouviu falar de José Carlos no que ao futebol diz respeito. Esteve na tropa, primeiro em Portugal e depois na guerra colonial, em Moçambique. Quando voltou, já aos 24 anos, tinha na equipa o irmão mais novo, Ibraím, e Mário Wilson como treinador do Vitória, clube que continuou a representar ao abrigo da Lei de Opção. Substituiu o já trintão Joaquim Jorge no centro da defesa vitoriana e, até final da época, só falhou um jogo – a derrota por 3-0 com o Sporting em Alvalade. Fez o terceiro e último golo da sua carreira ao Beira Mar, a 16 de Abril, mostrando assim que a longa ausência não lhe tinha retirado qualidades.

O V. Guimarães era então o tradicional sexto classificado do campeonato, atrás dos então quatro grandes (os três de hoje, mais o Belenenses) e do V. Setúbal, que vivia período de grande fulgor. Foi em sexto lugar que acabou o campeonato de 1972, bem como o de 1973, no qual José Carlos voltou a falhar apenas um jogo – a deslocação a Tomar, porque na anterior tinha sido expulso nas Antas, no seguimento de uma confusão com o argentino Herédia. Em 1973/74, época marcada por mais um sexto lugar do Vitória de Mário Wilson, José Carlos viu uma lesão tirar-lhe dois meses de competição e o mercado livre, na sequência do 25 de Abril, levar-lhe o mano Ibraím, que assinou pelo Benfica. A chegada a Guimarães de Rui Rodrigues, um dos jogadores prediletos de Mário Wilson, e que o Benfica aceitou libertar na sequência da transferência de Ibraím para a Luz, acabou por tirar a José Carlos o espaço que tinha na equipa titular. Na época de 1974/75 foi menos utilizado, mas era o futuro que estava a escrever-se: foi muito à conta dos conhecimentos que fez na altura que Ibraím foi mais tarde jogar para os Estados Unidos, onde chegou a ter a companhia do mano mais velho.

José Carlos ainda fez 18 jogos na Liga de 1975/76, com Fernando Caiado ao leme da equipa, mas despediu-se da Liga portuguesa a 26 de Janeiro de 1976, com um empate a zero frente ao Sporting, no Minho. O destino foi a NASL, a endinheirada Liga norte-americana onde na altura alguns jogadores portugueses iam fazer temporadas em busca de dólares. José Carlos foi com o irmão, Ibraím, mas também Moia, Eurico e Calado para os Rochester Lancers, com os quais se estreou logo na onda de abertura do campeonato de 1976, uma vitória por 3-2 en San Diego, contra os Jaws. Fez 18 jogos e ainda marcou um golo, aos Phialdelphia Atoms, ajudando a equipa a chegar aos play-offs. Encerrado o campeonato, o central minhoto ainda voltou ao Vitória, mas já não chegou a jogar no campeonato. Encerrou a carreira na II Divisão, no Vianense, no dia em que partiu uma perna. Ainda foi treinador, mas acabou por emigrar para Angola, onde se dedicou à profissão de cartografista durante mais de duas décadas, até à reforma. Vive hoje em Vila Praia de Âncora, onde vibra com os resultados do V. Guimarães. “Não ligo aos outros”, explica.