Perna longa e velocidade na esquerda eram os atributos de Dino, um "furacão" que passou no Santos antes de vingar em Portugal com as camisolas de Nacional e Beira Mar.
2016-05-04

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1986

Como todos os atacantes brasileiros que se prezem, Dino ficou conhecido pela alcunha. Como corria rápido, sobretudo nas arrancadas pela banda esquerda, e as suas pernas longas eram tão atípicas, ficou o “Furacão”. Dino Furacão teve tardes de glória no Brasil, tanto no Bahia como no Santos, mas só em Portugal conseguiu a estabilidade de que precisava para passar de fenómeno atmosférico a realidade constante, tornando-se uma das figuras da história recente do Beira Mar.

Filho de Florisvaldo Barreto, lateral-esquerdo que foi campeão brasileiro pelo Bahia em 1959, Dino cresceu como atacante nos dentes de leite do Bahia, mas nunca descurou os estudos, chegando mesmo a interromper a atividade de futebolista para se formar em contabilidade. Chegou, ainda assim, à equipa principal a tempo de se sagrar bicampeão baiano e de motivar o interesse de clubes de São Paulo. Passou pelo XV de Jaú e pelo São Bento de Sorocaba antes de chegar a Vila Belmiro, como integrante da equipa do Santos que venceu a primeira volta do Paulistão de 1986, acabando depois eliminada na meia-final pelo Inter de Limeira. Dino era nessa altura o reserva de Serginho Chulapa, que chegara do Corinthians, mas ainda viveu um período dourado, perto do final do ano, com oito golos em quatro jogos, incluindo um histórico póquer ao Náutico, a 28 de Setembro de 1986, que faz dele, ainda hoje, o recordista de golos num só jogo em toda a história do Santos no Brasileirão.

Apesar do final de ano promissor, Dino acabou por regressar ao São Bento, onde esteve numa das extremidades do recorde de Zetti, guarda-redes do Palmeiras que em 1987 passou mais de 1300 minutos sem sofrer golos: tinha sofrido um de Dino, em Abril, e só voltou a ser batido por Luís Pereira, meses depois. Por essa altura, no entanto, já Dino estava a fazer as malas para vir jogar em Portugal. O destino era o Nacional da Madeira, equipa da II Divisão era liderada por Paulo Autuori, que fazia o seu primeiro ano como responsável principal, depois de ter sido adjunto de Marinho Peres. Dino vinha um pouco desconfiado, pois não sabia o que vinha encontrar. Só começou a jogar ao fim de um mês e meio, fruto de problemas com a documentação, mas acabou na mesma por ser um dos goleadores dos madeirenses, que acabaram a Zona Sul em segundo lugar, apenas atrás do E. Amadora, e mesmo assim subiram ao escalão principal, porque nessa temporada a FPF tinha fixado o contingente de subidas e descidas numas inexplicáveis seis equipas.

A estreia de Dino na I Divisão verificou-se logo na primeira jornada do campeonato seguinte, um empate a zero em Chaves, a 21 de Agosto de 1988. O primeiro golo fê-lo a 4 de Setembro, a fixar outro empate, desta vez a quatro, frente ao V. Setúbal no Estádio dos Barreiros. O décimo lugar final, com dez golos de Dino – incluindo um bis ao Chaves, em Janeiro – não teve correspondência na nova época, em que o Nacional teve de batalhar mais para fugir à despromoção e Dino não foi além dos três golos. Mesmo assim, no Verão de 1990 transferiu-se para o Beira Mar. Em Aveiro, demorou a impor o seu futebol: só se tornou titular indiscutível a partir do Ano Novo, quando fez dois golos na vitória da equipa liderada por Vítor Urbano em Faro, por 3-2. A partir daí passou a ser peça chave, muito graças à forma como dava profundidade à equipa pelas alas, onde fazia uso da passada larga. Titular na final da Taça de Portugal que os aveirenses jogaram em Junho de 1991, frente ao FC Porto, e que só se resolveu no prolongamento a favor dos dragões (1-3), serviu-se desse jogo como trampolim para a nova época, na qual o Beira Mar voltou a ficar tranquilamente a meio da tabela.

Por essa altura, Dino já tinha perdido a frequência goleadora, mas era uma gazua que sabia como poucos abrir espaços para a entrada dos homens vindos do meio-campo, como Sousa ou o egípcio Abdelghany. Participou, ainda que sem marcar, nas vitórias frente ao Sporting (1-0) e ao Benfica (2-1), em 1991/92, mas já foi ele a assumir em nome próprio interferência na luta pelo título seguinte. Primeiro, marcou ao Sporting, em Novembro, em veloz contra-ataque na sequência de um canto a favor dos leões, permitindo um empate a uma bola em Aveiro. Mas o que fez mesmo com que se falasse dele foi o último dos sete golos que marcou nesse campeonato. A 16 de Maio de 1993 fez, a quatro minutos do fim de um jogo com o Benfica, em Aveiro, o golo da vitória do Beira Mar por 1-0. O Benfica, que liderava o campeonato, com um ponto de avanço do FC Porto, permitiu nessa tarde a ultrapassagem, pois no mesmo dia o FC Porto ganhava em Chaves (2-1) e arrancava para a liderança. Aquela que provavelmente foi a melhor equipa que o Benfica teve na década – na passagem de Futre, ainda com Paulo Sousa e Pacheco e já com João Pinto e Rui Costa – perdia o campeonato com um golo de Dino.

Dino ficou mais uma época em Aveiro, mas em 1993/94 o Beira Mar já teve alguma dificuldade em assegurar a manutenção. No Verão de 1994, já com 33 anos, assinou pelo V. Setúbal, que tinha perdido os seus dois principais goleadores, o nigeriano Yekini, para o Olympiakos, e o moçambicano Chiquinho Conde, para o Sporting. O resultado não foi brilhante, pois o Vitória acabou a Liga na última posição e foi despromovido. Dino ainda seguiu para Chaves, cujo treinador era Vítor Urbano, que o conhecia bem dos tempos do Beira Mar. Em Trás-os-Montes ainda marcou nas duas rondas inaugurais, frente ao Felgueiras e ao Leça – último golo, a 27 de Agosto de 1995 – mas a demissão do técnico, após a derrota em casa frente ao Marítimo, a 5 de Novembro, significou que o futebol de I Divisão acabou ali também para ele. Dino regressou a Salvador, onde chegou a ser treinador das camadas jovens do Bahia, o clube onde começou, mas depressa se cansou, fruto da enorme desorganização que grassa no futebol brasileiro. Atualmente é professor de educação física no Colégio Salesiano de Salvador e professor do curso de pedagogia na Faculade Maurício de Nassau.