Irmão de um futebolista do V. Setúbal e pai de outro, que saiu dali para o Sporting, João Tomé nunca teve a alegria de jogar pelo clube do coração. Mas fê-lo, e a grande nível, no Sp. Covilhã, que por ele bateu recordes de transferências.
2016-05-03

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1949

A família Tomé tinha o futebol no sangue. Adriano, o irmão mais velho, chegara a vestir a camisola do Vitória. João, onze anos mais novo, aspirava lá chegar também, mas nunca teve essa alegria. Só a viveu por intermédio do filho, Fernando, uma das maiores figuras da história do clube, que chegou a ser campeão nacional no Sporting e a vestir a camisola da seleção. Ainda assim, mesmo com esse desgosto, João Tomé teve uma carreira preenchida, que o levou a sete anos de grande nível no Sp. Covilhã e a ser a transferência mais cara do futebol português em 1948: 130 contos, foi quanto os serranos pagaram por este interior e extremo esquerdo de boa técnica e sempre atreito aos golos nas balizas adversárias.

A viagem até à Covilhã foi, para Tomé, longa e tortuosa. Cresceu a ver o irmão, Adriano, a jogar com o verde-e-branco do V. Setúbal, que nessa altura, porém, andava sobretudo na II Divisão. A ele, quando chegou a sénior, coube-lhe outro verde e branco, o do Sporting da Barrosinha, pequena coletividade da zona de Alcácer do Sal. Por lá esteve até que, aos 20 anos, passou a jogar no União Argentino, de Setúbal, contribuindo para o segundo lugar que o clube amarelo e vermelho alcançou da Série 13 da II Divisão, apenas atrás da CUF. Parecia começar a encarreirar quando a tropa o levou para Coimbra. Ali, manteve a atividade de futebolista, jogando uma época na II Divisão pelo Lusitânia e chamando a atenção dos responsáveis do Académico do Porto, que o levaram a rumar ainda mais a norte. O destino, contudo, era ainda o segundo escalão. Duas épocas no Porto foram, ainda assim, suficientes para que na Covilhã apostassem nele com firmeza. Aos 24 anos, feitos meses antes, naquele ano de 1948, o Sp. Covilhã desembolsou 130 contos pela carta liberatória do criativo de Setúbal, visto como fundamental para que a equipa se aguentasse na I Divisão, à qual acabara de ascender.

João Tomé estreou-se com estrondo no campeonato: a 19 de Setembro de 1948, não só foi titular como, em recarga a um remate de Carlos Ferreira, marcou o quarto golo na vitória do Sp. Covilhã frente ao Boavista, por 4-0. Desapareceu das escolhas de Szabó em Outubro, provavelmente por causa de alguma lesão, mas quando reapareceu, após o Ano Novo, vinha imparável. A 30 de Janeiro de 1949, na primeira vez que defrontou o V. Setúbal, marcou dois golos, ajudando na vitória serrana por 6-2 que tirou a equipa a sair do último lugar da tabela – ao qual desceram os sadinos. Titular até final do campeonato, Tomé ainda fez mais três golos, um deles a Barrigana (FC Porto) e outro a Dores (que jogou em vez de Azevedo na baliza do Sporting, quando os leões saíram da Covilhã vergados a uma pesada derrota por 6-2). No fim da época – na qual marcou ainda mais três vezes, na Taça de Portugal, uma por cada eliminatória superada pelo Sp. Covilhã, até à derrota contra o Atlético, nas meias-finais – tanto a sua equipa como o V. Setúbal celebraram a manutenção, pelo que a João Tomé não sobraram remorsos pelas maldades feitas ao Vitória.

Totalista em 1949/50, João Tomé terá feito aí a sua melhor época de sempre. Acabou-a com 12 golos e como principal municiador do francês Simoniy, o avançado-centro contratado ao Rouen. O Sp. Covilhã terminou o campeonato num excelente sexto lugar, tendo Tomé marcado aos cinco primeiros – nesse ano, por esta ordem, Benfica, Sporting, Atlético, Belenenses e FC Porto. Aliás, a tendência de Tomé para marcar aos grandes era bem evidente. Em Janeiro de 1951, bisou (e fez a assistência para o outro golo) na vitória do Sp. Covilhã frente a um Benfica muito abaixo do que se vira no ano anterior. E em Abril, na Taça de Portugal, voltou a marcar dois golos na baliza encarnada, num épico empate a cinco bolas que, mesmo assim, significou a eliminação dos serranos, que tinham perdido a primeira mão no Campo Grande. A repetição do sexto lugar na classificação vinha deixar bem claro que o Sp. Covilhã era já uma das forças a ter em conta no futebol nacional. E nem a lesão de longa duração de Tomé, após um empate a zero em Braga, em Outubro de 1951, impediu a equipa de Szabó de chegar à terceira sexta posição consecutiva. Tomé, esse, só fez três jogos nesse campeonato, regressando à equipa apenas em Maio, na Taça de Portugal, para nova eliminação frente ao Benfica, desta vez nos quartos-de-final.

Nunca mais voltou a ter a mesma regularidade, após esse longo afastamento. Em 1952/53 foi alternando jogos bons com as ausências no onze de Szabó, mas marcou ainda assim alguns golos, entre eles mais um ao V. Setúbal, ainda que numa derrota por 5-1 no Campo dos Arcos. E quando ele voltou ao nível habitual, a equipa da Covilhã agradeceu: outra vez com Tomé como totalista, o Sp. Covilhã subiu do décimo para o sétimo lugar na tabela. Três dos sete golos de Tomé nesse campeonato voltaram a entrar na baliza do Benfica, contra o qual o jogador setubalense fazia quase sempre bons jogos. O bis na baliza de Bastos, a 25 de Abril de 1954, pouco mais de uma semana antes de fazer 30 anos, foi mesmo o último do jogador na I Divisão e valeu um empate a duas bolas no Santos Pinto. Tomé ainda ficaria mais um ano na Covilhã, celebrando a manutenção a uma jornada do fim, mesmo com uma derrota frente ao Sporting (0-4), porque o Boavista e o V. Guimarães perderam no mesmo dia frente ao Barreirense e ao Atlético. A 24 de Abril de 1955 fez a última das suas 131 partidas no campeonato, num empate a dois golos com o FC Porto, em casa. O último golo tinha-o feito a 16 de Janeiro de 1955, após passe de Cabrita, numa vitória caseira frente à Académica, por 3-2.

Finda a época, Tomé regressou a casa. Passou um ano no Sp. Barrosinha e outro no Moura, antes de abraçar a tarefa de jogador-treinador no Mineiro Aljustrelense, durante dois anos, na III Divisão. Deixou o futebol ativo em 1959, dedicando-se depois a ver crescer o filho Fernando, que seis anos depois já jogava nos seniores do Vitória. O tal clube do coração que João Tomé nunca conseguiu representar.