Era um avançado goleador até os treinadores terem percebido que a sua leitura de jogo podia ser muito mais últil a jogar mais atrás. No Olhanense e no Sp. Covilhã chegou a internacional, mas não ganhou um único título.
2016-05-01

1 de 10
1944

Apareceu a jogar como avançado-centro ou, no limite, interior, ajudando a fazer do Olhanense uma força viva do futebol nacional na década de 40, mas logo nessa altura se dizia que era muito mais do que um goleador. Cabrita gostava de ver o jogo noutra perspetiva, de participar em todas as suas fases, porque tinha uma mente futebolística daquelas que sabia quase sempre escolher o que era a melhor solução para o coletivo. Era evidente que ia dar treinador, mas por aqueles tempos, em que ainda podia ser útil em campo, limitava-se a juntar clarividência e abnegação às suas armas, o que fez dele um médio de grande categoria no Sp. Covilhã dos anos 50. Foi internacional, mas ficou a faltar-lhe um título, de que esteve perto ao perder as duas finais da Taça de Portugal que veio a jogar, uma pelo Olhanense e outra pelo Sp. Covilhã.

Natural de Lagos, Cabrita começou a jogar futebol a sério com 16 anos, integrado desde logo na equipa do Esperança que disputava o regional algarvio. Tinha físico e jeito para meter a bola nas balizas adversárias, o que lhe valeu a chamada a uma seleção local e a atenção do Olhanense, total dominador do futebol da região. O Esperança de Lagos pediu um conto e quinhentos pela carta de desobrigação do seu melhor jogador, o Olhanense pagou e, com 19 anos, Cabrita já vestia de negro e vermelho na I Divisão. Estreou-se a 14 de Fevereiro de 1943, com uma pesada derrota por 5-1 frente ao Sporting, mas o treinador, o austro-húngaro Desidério Herczcka, manteve a confiança no rapaz e não mais o retirou do onze até final de uma temporada que o Olhanense terminou num honroso quinto lugar. Cabrita respondeu com golos. Marcou logo na segunda partida, uma vitória por 5-2 contra a Académica, a 21 de Fevereiro, e terminou o campeonato com 10 golos, neles incluído um hat-trick ao Unidos de Lisboa (4-3 para o Olhanense).

Se na temporada de estreia ainda dividiu a honra de ser o melhor marcador da equipa com Salvador – com menos jogos, no entanto – na segunda disparou e tornou-se mesmo a grande referência goleadora de um Olhanense que voltou a terminar a Liga em quinto lugar. Totalista no campeonato, Cabrita marcou 17 golos – mais um na Taça de Portugal, insuficiente para ultrapassar o U. Coimbra, no entanto – incluindo mais dois hat-tricks, a V. Setúbal e Académica. Viria a revelar-se muito mais parcimonioso na terceira época – só quatro golos no campeonato, ainda que três deles a Benfica, FC Porto e Sporting –, curiosamente aquela que ficou marcada pela sua primeira chamada à seleção nacional. A 11 de Março de 1945, antes mesmo de completar 22 anos, foi chamado por Salvador do Carmo e atuou como interior-esquerdo num particular contra a Espanha, no Estádio Nacional. Cabrita jogou com umas botas novas, porque não tinham deixado entrar José Mendes, o treinador do Olhanense, que tinha por missão ir levar-lhe as dele, já moldadas ao pé, e acabou com os pés em sangue, motivando a admiração dos colegas de equipa e a ira do selecionador, que lhe chamou “ingénuo”. Tenha sido por isso ou por outra razão qualquer, no jogo de retribuição, em Maio, na Corunha, o quinteto atacante de Portugal teve apenas uma alteração, que foi a troca de Cabrita pelo portista Gomes da Costa. E o algarvio só voltaria à seleção cinco anos depois.

Cabrita não deixou que isso o afetasse e foi uma das figuras na campanha que levou o Olhanense à final da Taça de Portugal, no final dessa época. Fez cinco golos nas eliminações da CUF e do Atlético e, mesmo não marcando, esteve presente nas duas partidas da meia-final contra o V. Setúbal e na final, perdida por 1-0 contra o Sporting, a 1 de Julho de 1945, com um golo de Jesus Correia a 4 minutos do fim. Depois de ter estado tão perto da glória, o Olhanense arrancou para um grande campeonato em 1945/46. Cabrita repetiu os 17 golos de há dois anos, mas desta vez os algarvios aproveitaram-nos melhor, terminando a temporada em quarto lugar, apenas atrás dos três grandes de Lisboa. Um póquer à Oliveirense, logo na jornada inaugural, e um hat-trick ao Elvas foram as maiores proezas individuais de um avançado que ainda assim não foi capaz de ajudar a impedir a eliminação da Taça de Portugal logo à primeira eliminatória, aos pés do modesto Famalicão, da II Divisão. Nem de voltar à seleção.

Cabrita fazia uma carreira sólida, numa segunda linha de internacionais do futebol nacional, mas sem disparar em direção à notoriedade. Uma lesão grave, em finais de 1947, roubou-lhe três meses da época de 1947/48, na qual o Olhanense já teve alguma dificuldade em assegurar a manutenção na I Divisão. As coisas melhoraram em 1948/49, mas com a maturidade dos 27 anos Cabrita voltou a ser o jogador desequilibrador que tinha sido no início da carreira. Em 1949/50 voltou a ser totalista no campeonato e a chegar aos dois dígitos no total de golos – fez onze, incluindo um bis ao Sp. Covilhã e um hat-trick à Académica –, o que lhe valeu o regresso à seleção e o interesse por ele no estrangeiro. Salvador do Carmo chamou-o para os jogos com a Espanha que, em Abril, visavam apurar uma das equipas para a fase final do campeonato do Mundo e Cabrita, desta vez a jogar como avançado-centro, até fez o golo português na derrota em Chamartin (1-5). Terminada a época, o Sevilha quis contratá-lo, oferecendo 100 mil pesetas de luvas. Cabrita, contudo, pediu… o dobro. O que levou a que tivesse ficado em Olhão para a nona época consecutiva. E, olhando para trás, várias vezes deve ter desejado não o ter feito, porque o que aí vinha era a infelicidade de uma descida de divisão e de um conflito com o clube.

Cabrita não falhou um minuto na época do Olhanense, mas a equipa algarvia acabou a Liga em 14º e último lugar, a um ponto do V. Guimarães, que na última jornada se superiorizou, empatando com o Sp. Braga enquanto os algarvios perdiam com o Sporting. A carreira na Taça de Portugal foi curta – apenas duas derrotas com o FC Porto – pelo que em Junho de 1951 Cabrita acedeu a jogar com a camisola do Belenenses um particular contra o Flamengo, do Brasil. Lesionou-se e apareceu a jogar diminuído a partida decisiva para a permanência na I Divisão, contra o Salgueiros, que tinha sido o segundo colocado na fase final do campeonato do escalão secundário. Finda a partida com a derrota e a consequente despromoção, alguns dirigentes do Olhanense apontaram o dedo acusador ao seu melhor jogador, que nesse momento decidiu bater com a porta e mudar de vida. Emigrou então para França, onde foi representar o Angers, da II Liga. Ali, onde foi confrontado com as exigências do profissionalismo mais a sério, aprendeu mais sobre o jogo. E um dia, num jogo com o Nantes, o treinador pediu-lhe que jogasse a segunda parte na marcação ao holandês van Green, temível avançado que estava a arruinar a estratégia da equipa. Cabrita acedeu e secou por completo a estrela dos canários. Quando regressou a Portugal, em 1953, para jogar no Sp. Covilhã, já não era o avançado goleador mas sim um médio que compreendia o jogo e o mastigava para deleite dos seus colegas mais à frente ou mais atrás.

Apesar dos 30 anos, ainda jogou durante seis épocas no Sp. Covilhã, fazendo parte da melhor equipa que os serranos alguma vez tiveram no escalão principal. A sua regularidade era a toda a prova: nas quatro épocas que mediaram até à despromoção, em 1957, falhou apenas um jogo, um empate a zero frente ao Barreirense, a 6 de Dezembro de 1953, por causa de uma lesão contraída ao serviço da seleção, à qual a sua nova identidade futebolística lhe permitira regressar. Foi num desafio contra a Áustria, que tinha despachado Portugal por 9-0 em Viena, muito à conta de um avançado temível, que dava pelo nome de Ocwirck. Salvador do Carmo destacou Cabrita para a marcação a Ocwirck, que foi uma nulidade no empate a zero no Estádio Nacional, mas o jogador português acabou por se lesionar e dar a oportunidade de estreia na seleção a Germano, que lhe completou a missão. Neste período de quatro anos, Cabrita foi uma das forças mais importantes na quinta posição do Sp. Covilhã, em 1955/56, mas não impediu a queda no segundo escalão logo na temporada seguinte. Findo esse campeonato, porém, como que para dizer que a despromoção era uma injustiça, o Sp. Covilhã chegou à final da Taça de Portugal, eliminando o U. Montemor, o Lusitano de Évora, o FC Porto e o V. Setúbal antes de perder a decisão, com o Benfica, por 3-1.

Fosse como fosse, o que esperava o já veterano médio algarvio era uma época na II Divisão. Cumpriu-a, ajudou o Sp. Covilhã a regressar ao escalão principal, fazendo depois o seu último campeonato em 1958/59. Ainda fez um golo, a 16 de Janeiro de 1959, num empate (2-2) com a CUF, despedindo-se a 22 de Março, numa vitória caseira frente ao V. Guimarães (3-1), que confirmava o oitavo lugar final dos serranos. Aos 36 anos, Fernando Cabrita, que já tinha tido uma experiência de treinador no Unhais da Serra, enquanto jogava pelo Sp. Covilhã, regressou ao Algarve, onde fez uma época como treinador-jogador do Portimonense, na II Divisão. Um ano depois estava na estrutura técnica do Benfica, como adjunto de Bela Guttmann e responsável pelas reservas. Ao longo de mais de 30 anos como treinador, chegou a dirigir os encarnados em 1967/68 e 1973/74, a comandar várias equipas com menos aspirações na I Divisão (U. Tomar, Beira Mar, Rio Ave, Académico de Viseu ou Penafiel), a emigrar para Marrocos (onde comandou o Raja de Casablanca) e a ser selecionador nacional, entre 1983 e 1984. Com a equipa praticamente eliminada do Europeu, foi ele quem juntou os cacos e liderou a comissão técnica que levou a seleção até França, atingindo as meias-finais da prova. Fernando Cabrita veio a falecer, com problemas respiratórios, no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, com 91 anos.