Nasceu no Benfica, onde foi bicampeão a jogar pouco, e viveu sobretudo no U. Tomar, onde chegou a capitão de equipa. Guarda os dois emblemas no coração.
2016-04-30

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1966

O físico não era de futebolista. Camolas era baixote, meio atarracado, chegava mesmo a parecer  gordito. E no entanto não foi isso que o impediu de vingar no futebol português. Camolas teve um azar, que foi o de aparecer no meio de uma geração dourada no Benfica, que por essa altura ganhava três campeonatos em cada quatro. E se isso lhe permitiu ser duas vezes campeão nacional, também o impediu de se afirmar na Luz. Foi, depois disso, um jogador de todo o país, tornando-se referência por onde quer que passasse, desde o Varzim ao União de Tomar.

Natural de Palmela, Camolas chegou ao Benfica em 1964, para integrar a equipa de juniores. Em 1966, no rescaldo do Mundial, Ferbando Riera quis tê-lo na equipa sénior, mas só na retaguarda de Eusébio e Torres, e até um nível abaixo de Nelson. Estreou-se a 4 de Novembro de 1966, num jogo da Taça de Portugal frente à Ovarense, que o Benfica ganhou por 3-0: os encarnados já tinham ganho a primeira mão, em Ovar, por 6-0, e na segunda o treinador chileno deu descanso a vários titulares. Camolas ainda fez uma assistência para o terceiro golo, marcado por Vieira, e por isso mesmo teve direito a reprise no dia 20 do mesmo mês, em Braga, desta vez para o campeonato: faltou Torres e Riera lembrou-se dele para acompanhar Eusébio. Só que a derrota por 4-0, em tarde mágica de Perrichon e Adão, levou a que fosse sacrificado na sequência do jogo. Camolas passou o resto da época nas reservas, mas ainda assim foi campeão nacional. Tal como viria a sê-lo de novo em 1967/68, a época em que exorcizou o fantasma de Braga: Riera voltou a chamá-lo para jogar em vez de Torres na visita ao Minho e desta vez o Benfica ganhou por 1-0.

Nem os quatro golos marcados por Camolas nos dois jogos que fez na edição da Taça de Portugal dessa sua segunda época – dois bis contra o Montijo, na primeira eliminatória, a 8 e 15 de Outubro – o levaram a conseguir ficar no clube do coração, pelo qual ainda hoje sofre, na sua residência, no Pinhal Novo. Riera foi substituído por Fernando Cabrita em Novembro e o palmelense não jogou mais até sair, para o Varzim. Na Póvoa, com Monteiro da Costa, Camolas passou a acumular minutos sobre minutos em campo, tornando-se sempre um dos mais regulares das equipas de que fazia parte. Logo na primeira época fora da Luz, foi totalista no campeonato, marcando o primeiro golo na prova precisamente na baliza do Benfica. Aconteceu a 13 de Outubro de 1968 e o jovem avançado bateu Nascimento – que nesse dia substituiu José Henrique na baliza – em recarga a um primeiro remate de Rico, roubando os primeiros pontos ao Benfica nesse campeonato fruto de um empate a uma bola. Camolas fechou a Liga como melhor marcador do Varzim, celebrando 13 golos, entre eles os bis ao U. Tomar e ao V. Guimarães e mais um de perfil elevado, a assegurar o empate frente ao FC Porto.

A boa época feita a Norte permitiu-lhe regressar à zona de Lisboa, para jogar no Belenenses, que ainda vivia um pouco no limbo entre a ideia de ser grande e resultados que o apontavam para o meio da tabela. No Restelo, o palmelão nem começou como titular, mas um golo ao FC Porto, depois de sair do banco, a assegurar um empate a uma bola logo na primeira jornada valeu-lhe a confiança de Mário Wilson até se magoar, no início do Inverno. Passou por isso algum tempo fora das luzes da ribalta, só voltando a ouvir falar-se dele em Junho, quando bisou num empate frente ao Sporting (2-2), que nem assim assegurou a passagem do Belenenses à final da Taça de Portugal (os leões tinham ganho por 4-2 na primeira mão). Como a segunda época também não lhe correu muito bem, Camolas acabou por deixar o Restelo e assinar por aquele que se tornou o clube da sua vida: o U. Tomar, único emblema que rivaliza no seu coração com o amor que sempre teve ao Benfica. Em oito épocas em Tomar, acabou por tornar-se capitão e figura incontornável da equipa, cuja descida de divisão não foi capaz de evitar em 1973 e 1976. Os golos, esses, foram sempre pingando a um ritmo regular. Logo na primeira época, com Fernando Cabrita aos comandos, dividiu com Bolota a honra de ser melhor marcador, com sete tentos, tendo voltado a marcar ao FC Porto (empate a um golo nas Antas) e a bisar ao V. Guimarães, o adversário frente ao qual lhe corriam melhor os jogos. O 12º lugar final da equipa nabantina permitiu-lhe regressar na época seguinte, onde as coisas, porém, já não correram tão bem: com seis golos de Camolas, um deles a valer um empate caseiro com o Sporting, o União de Tomar foi último da tabela e caiu para a II Divisão.

Campeão nacional da II Divisão depois de vencer a Zona Sul, o U. Tomar regresou em 1974 ao escalão principal. Ainda se aguentou, à justa, na primeira época, mas acabou por descer na segunda, curiosamente aquela em que o rendimento de Camolas foi mais elevado. Doze golos no campeonato (mais dois na Taça de Portugal) não chegaram para evitar o 14º lugar do U. Tomar, tendo o avançado de Palmela feito a sua despedida do principal escalão do futebol nacional com sentimentos divididos: a 30 de Maio de 1976, marcou a Joaquim Torres, no empate dos nabantinos em Setúbal (2-2), mas o empate do Beira Mar contra o Sp. Braga e a vitória do Leixões ante a CUF levaram à queda da equipa ribatejana para a II Divisão, até ao dia de hoje sem regresso. Camolas ainda passou mais três anos no U. Tomar, sempre na Zona Centro da II Divisão, assinando de seguida pelo Benfica de Castelo Branco, que ajudou a subir da terceira à segunda. Jogou ainda no Alcains, no Escalos de Cima e no Palmelense, já no distrital de Setúbal, antes de um AVC sofrido no emprego, a Renault, em Setúbal, o ter atirado para uma cadeira de rodas com 46 anos.