Chegou do Fluminense para fazer golos no FC Porto. E fê-los sempre, mostrando um requinte técnico e uma habilidade ao alcance de poucos. Mesmo assim, nunca foi aposta firme: passou pelo Varzim e acabou a jogar como defesa-central no Farense.
2016-04-29

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1963

Avançado com faro de golo e requinte técnico, Valdir chegou a Portugal recomendado por boas atuações no Fluminense, mas só disparou quando nas Antas apareceu Otto Glória. O excelente rendimento no FC Porto, porém, não lhe proporcionou longa carreira no clube, que por aqueles tempos vivia grandes convulsões, sempre à procura de novidades que lhe permitissem a partilha da hegemonia com os grandes de Lisboa. À medida que ia baixando a exigência, o brasileiro foi baixando também no terreno, chegando a ser médio defensivo e defesa central no Farense de Manuel de Oliveira, antes de encerrar a carreira, já na segunda metade dos anos 70, em clubes algarvios dos escalões inferiores.

Valdir estreou-se pelo Fluminense, lançado por Zezé Moreira, no campeonato carioca de 1962. Quando o treinador – que anos mais tarde chegaria a Portugal para orientar o Belenenses – saiu para o Chile, foi perdendo espaço no onze. Antes disso, porém, já tinha deixado boa impressão, motivando o interesse do FC Porto, que aproveitou uma digressão à América do Sul, em Agosto, para o contratar. “Ganhei a loteria sem comprar bilhete”, comentou na altura o atacante franzino e veloz, que era capaz de marcar de todas as maneiras e se juntou à comitiva portista em Caracas, na Venezuela. A digressão, porém, correu mal do ponto de vista dos resultados e, sem uma única vitória, gerou-se algum mal-estar entre a direção e o treinador, Jeno Kalmar. Valdir estreou-se oficialmente com a camisola azul e branca ainda sob as ordens do húngaro, num jogo que podia ser visto como demasiado fácil: a 22 de Setembro de 1963 fez o sexto golo de uma clara vitória dos portistas sobre os Leões de Santarém (7-0), da primeira ronda da Taça de Portugal. Esteve nas duas partidas contra o Atlético Madrid, que deram a eliminação na Taça das Feiras, e voltou a marcar na segunda ronda da Taça de Portugal, contra o Leixões, mas magoou-se por alturas da suspensão do treinador e da entrada de Artur Baeta para o seu lugar.

Otto Glória, que no início do ano treinara o Vasco da Gama e conhecia bem Valdir dos jogos no Maracanã, chegou ao Porto em meados de Novembro para pegar na equipa e, logo que pôde, chamou-o para fazer parte do onze. E Valdir respondeu. A estreia no campeonato não podia ter-lhe corrido melhor: a 8 de Dezembro de 1963 apareceu numa visita ao Barreirense, que os azuis e brancos ganharam por 3-1, levando apenas um minuto a obter o seu primeiro golo na prova, após passe de Hernâni. Ainda faria mais um golo nessa tarde, bem como nas três jornadas que se seguiram, permitindo que o FC Porto virase o ano no grupo de segundos classificados, a apenas dois pontos do Benfica, que liderava. No final da época, apesar de uma quebra do seu goleador brasileiro, o FC Porto foi mesmo segundo, chegando também à final da Taça de Portugal. Aí, numa retumbante derrota por 6-2 contra o Benfica, porém, Valdir nem jogou. A irregularidade, aliás, marcou sempre a carreira de Valdir nas Antas. Em 1964/65, somou 16 golos (quatro deles na Taça de Portugal e dois na Taça das Taças, a Lyon e TSV 1860 Munique) e conseguiu grandes atuações, marcando, por exemplo, oito golos em três jogos seguidos, em Janeiro – hat-tricks ao Seixal e ao Lusitano e bis ao V. Guimarães – mas depois da derrota em casa com o Sporting, a 7 de Fevereiro, desapareceu das escolhas de Otto Glória, que mesmo assim levou a equipa a repetir a segunda posição antes de sair para o Sporting e se ocupar da seleção portuguesa.

Apesar de ter sido o melhor marcador na época do FC Porto, Valdir caiu um pouco no esquecimento com a chegada de Manuel António, da Académica, em 1965. Na sua terceira época nas Antas fez apenas dois jogos no campeonato, ambos em Janeiro, quando o ex-academista não esteve disponível, e nem um bis no primeiro desses desafios (um 3-1 ao Beira Mar) levou a que Flávio Costa lhe desse continuidade. No fim da época teve de encarar a hipótese de um empréstimo e acabou por sair para o Varzim. Ai protagonizou uma estreia retumbante: depois de falhar o jogo da primeira jornada, contra o FC Porto, que era dono do seu passe, a 25 de Setembro fez os três golos com que os poveiros bateram a Sanjoanense (3-1), em jogo da segunda ronda. Com sete golos no campeonato, mais dois na Taça de Portugal, foi o melhor marcador do Varzim e, no final da época, estavca de regresso às Antas, onde o treinador era agora José Maria Pedroto. E é aqui que as coisas se tornam estranhas. Apesar de um rendimento fora de série, Valdir acabou por ser dispensado. No campeonato só fez sete jogos, em Janeiro e Fevereiro, mas pontuou-os com ouros tantos golos, incluindo um bis ao Benfica (derrota por 2-3) e um hat-trick nos 9-0 ao Tirsense. Juntou-lhes cinco golos em três jogos da Taça de Portugal – incluindo um póquer ao Sp. Covilhã, nos oitavos-de-final – cuja final não jogou, festejando na mesma o sucesso sobre o V. Setúbal (2-1), pois deu-lhe o único troféu da carreira. E obteve ainda um bis no único jogo europeu da temporada, a vitória por 3-1 sobre os escoceses do Hibernians, nas Antas. Apesar destes 14 golos em 11 jogos, Valdir acabou po sair do FC Porto no final da época.

Seguiu outra vez para o Varzim, cujo treinador era Monteiro da Costa, grande figura da história do FC Porto. Ali, porém, passou boa parte da época na sombra de Nelson, o avançado preferido do treinador. Ainda fez quatro golos – três deles nas últimas quatro jornadas, permitindo que o Varzim subisse de 12º para nono lugar na tabela – mas continuava a enfrentar longos períodos de ausência, fruto de alguma propensão para as lesões. Não foi o caso em 1969/70, quando, tendo Nelson saído para o Sporting, se tornou o avançado de referência no Varzim de Joaquim Meirim, equipa-sensação que foi ganhar ao FC Porto às Antas (1-0) e que empatou os dois jogos com o Sporting, que haveria de ser campeão nacional. Findo o campeonato, porém, decidiu rumar a sul, onde o esparava um contrato com o Farense. Ali chegado, Manuel de Oliveira decidiu transformá-lo em médio de cariz mais defensivo. Ainda fez dois golos, o último dos quais a 6 de Dezembro de 1970, numa vitória por 2-0 sobre o V. Guimarães, mas a sua função passou a ser muito mais a de os evitar. Foi como médio-centro e até, em 1972/73, como defesa-central, que passou as duas últimas épocas na I Divisão, prova da qual se despediu aos 32 anos, a 4 de Junho de 1973, num empate do Farense em Matosinhos, contra o Leixões (1-1).

Antes de pendurar as chuteiras, porém, Valdir ainda fez um longo périplo pelos escalões secundários. Apareceu estranhamente no Silves, em 1973/74, na III Divisão, ajudando depois o Esperança de Lagos a subir pela primeira vez à II Divisão (em 1975) e falhando por pouco a promoção à I Divisão do Salgueiros (segundo lugar da Zona Norte, em 1976). O regreso ao Algarve permitiu-lhe jogar mais uma época no Farense (na II Divisão) e duas no Lusitano de Vila Real de Santo António, aqui celebrando, já como treinador-jogador, o título de campeão distrital.