É o homem dos seis golos ao Apoel, no resultado que ainda é recorde das provas europeias de clubes. Um avançado ágil que além do Sporting jogou também no Benfica e nos dois clubes do Barreiro.
2016-04-28

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1959

Pode não ter tido uma carreira tão preenchida como a sua qualidade provavelmente teria justificado, mas continua a deter um recorde que o torna incontornável na história das provas da UEFA: a 13 de Novembro de 1963 fez seis dos 16 golos com que o Sporting goleou o Apoel Nicósia (16-1), de Chipre, em partida da Taça dos Vencedores das Taças. Tanto o resultado final como a contribuição de Mascarenhas são ainda máximo europeu, tendo sido escolhidos para a posteridade como um dos destaques da campanha que levou o Sporting até à conquista do troféu na finalíssima de Antuérpia.

O que muita gente não sabe é que, quando chegou a Portugal, oriundo de Vila Salazar, hoje N’Dalatando, cidade na província angolana do Kwanza Norte, Mascarenhas, que mais tarde se tornou figura do Sporting, veio para jogar no Benfica. Chegou, fez a necessária adaptação e, em Novembro, uma expulsão de Mendes num jogo com o FC Porto deu-lhe a necessária oportunidade. Face ao castigo do titular, na partida seguinte Otto Glória deu uma chance ao veloz, ágil e oportunista avançado angolano. A 30 de Novembro de 1958, entrou no onze do Benfica que ia enfrentar o V. Setúbal, na Luz, como interior direito, demorando apenas 44 minutos a fazer a Justino o primeiro golo da sua conta pessoal. O Benfica ganhou por 3-0 e Mascarenhas manteve a vaga na visita ao Lusitano, mas o 0-0 em Évora e o regresso de Mendes significou que a porta se fechou para ele. O Benfica acabou esse campeonato em segundo lugar e até ganhou a Taça de Portugal, mas aí já não houve oportunidades para Mascarenhas, que no final da época foi incluído como moeda de troca na transferência de José Augusto do Barreirense para a Luz.

Um ano na II Divisão, com a conquista do título nacional do escalão, permitiu-lhe o regresso rápido ao futebol de primeira água. A equipa do Barreirense, no entanto, não estava à altura do desafio e acabou por descer de novo, acabando o campeonato em último lugar e muito longe do penúltimo. Apesar da despromoção, Mascarenhas destacou-se com dez golos, entre os quais dois bis ao Sp. Braga e um terceiro ao Sporting, a 12 de Março de 1961. Os leões deslocavam-se ao Barreiro já com menos três pontos que o Benfica, que liderava, pelo que a luta pelo título passava pela necessidade de vencerem o Barreirense, que só somava seis pontos em 20 jornadas. Só que essa tarde foi de Mascarenhas, que bateu por duas vezes o guardião Aníbal na vitória da equipa da margem sul, por 3-1, levando ao despedimento do treinador leonino, o argentino Alfredo González, e à entrada para o seu lugar de Otto Glória, o tal que o dispensara na Luz. A vitória não serviu de nada – o Barreirense não voltou sequer a pontuar até final da época – e Mascarenhas veio a contar mais tarde que nesse dia chorou, porque o Sporting já era o seu clube do coração.

Antes de chegar a Alvalade, porém, o angolano ainda passou mais uma época na II Divisão, outra vez premiada com o título de campeão nacional do escalão. No Verão de 1962, cumpriu o sonho de assinar pelo Sporting, o que fez no mesmo dia de Osvaldo Silva, também ele um rejeitado do FC Porto. Os dois foram festejar juntos, mal podendo adivinhar que viriam a estar juntos em noites de glória europeia da sua nova equipa. Mascarenhas estreou-se de leão ao peito a 12 de Agosto, em Elche, num jogo particular contra os franceses do Strasbourg, fazendo logo ali o golo solitário da vitória sportinguista (1-0). Oficialmente, a estreia foi a 23 de Setembro, em casa contra a Oliveirense, em jogo da Taça de Portugal: e bisou, na vitória do Sporting por 4-1. Os primeiros jogos prometiam muito: outro bis ao Shelbourne, na estreia na Taça dos Campeões (5-1), outro ainda na visita à Oliveirense (4-0) e um hat-trick nos 9-0 ao Cova da Piedade, na segunda ronda da Taça de Portugal. Só que veio o campeonato e Mascarenhas fechou a loja. Titular como avançado-centro nas duas primeiras jornadas, ficou em branco em ambas, acabando por ser um dos homens que Juca sacrificou após a derrota (0-1) contra o Leixões, em Matosinhos. Figueiredo tomou conta da posição e Mascarenhas só voltou a jogar no campeonato já em Maio, o que pressupõe de deva ter estado lesionado. Reapareceu nas duas últimas jornadas, como interior direito. Os seus números modestos no primeiro campeonato de verde-e-branco não tiveram seguimento na extraordinária carreira que fez na Taça de Portugal, que recomeçou depois do fim da Liga. Ao todo, Mascarenhas fez 17 golos nos 11 jogos que levaram os leões à conquista do troféu, incluindo um no último minuto da final, ganha por 4-0 ao V. Guimarães. Foi, assim, o melhor marcador da equipa no primeiro troféu conquistado.

Os números de Mascarenhas melhoraram na segunda época pelo Sporting. Titular com muito mais frequência, tanto para o brasileiro Gentil Cardoso, como para o português Anselmo Fernandez, que o substituiu e Março, ainda fez nove golos no campeonato, incluindo um bis ao Varzim. Juntou-lhes mais dois na Taça de Portugal – ao Alhandra – mas foi na Taça das Taças que fez história, terminando a prova como melhor marcador leonino na épica conquista do troféu. Mascarenhas marcou por três vezes à Atalanta (duas no jogo de desempate, em Barcelona, que acabou com 3-1 para o Sporting), sete vezes ao Apoel (seis nos 16-1 de Alvalade) e ainda abriu o marcador na final de Bruxelas, ante o MTK Budapeste. Como esse jogo acabou empatado (3-3), houve lugar a finalíssima, jogada em Atuérpia e decidida a favor dos leões (1-0) pelo canto direto de Morais. A nova época, porém, foi má para o angolano, que jogou muito pouco. Envergou pela última vez a camisola do Sporting a 30 de Junho de 1965, num jogo de desempate das meias-finais da Taça de Portugal que os leões perderam para o V. Setúbal (0-2), no Restelo.

Dispensado no final da época, regressou ao Barreiro, onde passou mais dois anos na I Divisão. Ainda foi um os melhores marcadores do Barreirense em 1966/67 – com oito golos, o primeiro dos quais numa derrota por 3-1 com o Sporting, a 3 de Outubro) – mas a descida de divisão impeliu-o a mudar de cores e a assinar pela CUF. No novo clube, porém, nunca teve grande continuidade. Fez o último golo na I Divisão no dia de Ano Novo de 1967, a valer uma vitória em casa face ao V. Setúbal (1-0), vindo a despedir-se a 16 de Abril, duas semanas antes de completar 30 anos, com uma derrota por 2-1 com o Benfica, no Estádio Alfredo da Silva. Até encerrar a carreira, Mascarenhas ainda jogou no Peniche, que ajudou a lutar até ao fim pela subida às I Divisão, em 1968, bem como no Riopele e no Paços de Ferreira, não se coibindo sequer de se mostrar em campos da III Divisão. Depois de pendurar as chuteiras, tornou-se funcionário do departamento de relações públicas do Sporting, de onde se reformou em 2008, quando um AVC o deixou dependente de uma cadeira de rodas. Veio a falecer em 2015, aos 78 anos, tendo antes disso subido ao relvado de Alvalade como um dos homenageados na celebração do centenário do Sporting.