Chegou do Flamengo como esperança benfiquista para o golo, mas só ficou dois anos na Luz. V. Guimarães, Sp. Braga e V. Setúbal preencheram-lhe a carreira de primeira, mas ele jogou até aos 44 anos, no distrital de Lisboa.
2016-04-26

1 de 14
1984

No Brasil, os avançados parecem nascer debaixo das pedras. Há um miúdo que faz uns golos bonitos e logo se decreta que está ali no novo Pelé, o novo Zico. Mas poucos podem gabar-se de ter usado a camisa nove do Flamengo. Chiquinho teve essa honra durante quase dois anos, com o visto bom de dois futuros selecionadores, Zagallo e Lazaroni. É verdade que acabou vítima da sensação a seguir a ele e acabou transferido para Portugal, mas se virmos as coisas pelo lado bom foi aqui que fez a sua vida, que foi campeão, que jogou até aos 44 anos, acabando a sagrar-se campeão distrital de Lisboa como… defesa-central.

A história de Chiquinho começa em Taquaritinga, cidade dos subúrbios de Ribeirão Preto, no estado de São Paulo. Cresceu numa modesta casa, que os pais, Carrilho e Dilce, não podiam pagar mais, mas isso não lhe arrefeceu a paixão pelo futebol. Pelo contrário: via na bola a hipótese de dar uma vida melhor aos pais e aos irmãos. Ainda júnior do Atlético de Taquaritinga, em 1981, destacou-se a tal ponto num jogo de uma seleção local contra o Palmeiras, que do Verdão quiseram vê-lo em ação. Não vingou em São Paulo, mas depressa deu o salto para um dos maiores clubes da região, o Botafogo de Ribeirão Preto. Ali chegou em 1982, participando ainda em alguns jogos do Paulistão, mas foi no ano seguinte, com o brilho na Copa São Paulo – ao lado de Raí – e uma utilização mais consistente entre os seniores que mais se falou dele. E quando, em 1984, fez valer o seu pique e o sentido de oportunidade para acabar o campeonato paulista como melhor marcador, ex-aequo com o poderoso Serginho Chulapa, os grandes clubes batalharam por ele. Ganhou o Flamengo, onde Mário Zagallo aprovou a sua contratação, por 350 milhões de cruzeiros. E Chiquinho pôde dar a casa melhor à família.

Na Gávea, sentiu sempre enormes dificuldades para se afirmar. Vindo do interior, Chiquinho era um rapaz tímido, que acusava a pressão de estar naquele tão grande clube e de tanto se esperar dele. Quando começavam a aparecer as primeiras vaias, ia-se abaixo. Um dia, após um jogo com o América que não lhe terá corrido bem, escondeu-se atrás dos carros no parque de estacionamento para não ter de enfrentar os jornalistas, valendo-lhe o apoio do massagista, que o encontrou e lhe disse que tinha de ser forte naquelas situações. Sebastião Lazaroni, que sucedera a Joubert Meira como treinador do “Mengo”, dava-lhe força: “Você vai deixar de ser Chiquinho e passar a ser o Chicão!” Não aconteceu. Pelo menos ali. Chiquinho ainda iniciou a campanha que levou o Flamengo a ganhar o Carioca de 1986, mas a meio da prova foi transferido para o Benfica, onde chegou para colmatar a descida de rendimento de Manniche e para dar esperança aos adeptos, que tinnham visto o FC Porto ganhar os últimos dois campeonatos.

Os primeiros passos de Chiquinho em Portugal confirmavam o estatuto de craque do Flamengo. Na estreia, a 24 de Agosto de 1986, frente ao FC Porto, em Braga (porque as Antas estavam em obras), entrou a 18 minutos do fim para o lugar de Wando e fez logo o golo do empate final (2-2), com um remate de pé esquerdo, à meia-volta, na sequência de um lançamento lateral de Diamantino. Aliás, mesmo sendo algumas vezes suplente, Chiquinho ia sempre marcando golos, contrariando a ideia de que os brasileiros precisavam de período de adaptação: até finals de Outubro, em oito jogos (dos quais apenas quatro como titular), já tinha feito cinco golos. Marcou também, por exemplo, na estreia europeia, a 17 de Setembro, na Luz, contra os noruegueses do Lilleström, num jogo que os encarnados ganharam por 2-0. O rimo goleador de Chiquinho foi diminuindo, até porque a dada altura da temporada John Mortimore o mudou de segundo ponta-de-lança para ponta-esquerda. Mesmo assim, ainda fez uma série de golos fundamentais na dobradinha do Benfica. No campeonato, aliás, tinha mesmo queda para os golos decisivos, como o que marcou em Guimarães (vitória por 2-1), frente ao Belenenses no Restelo (1-1), ou na Luz contra o Sporting (2-1). Na final da Taça de Portugal, também contra os leões, não repetiu a graça, pois saiu lesionado antes do intervalo (o Benfica ganhou por 2-1), mas tinha feito cinco golos na caminhada, três ao Torreense (6-1, nos oitavos de final) e dois ao Cartaxo (7-0 nos 1/16 de final).

A chegada de Ebbe Skovdahl para substituir Mortimore não foi boa notícia para Chiquinho, que ainda por cima começou a segunda época diminuído. O primeiro golo da temporada fê-lo no último jogo do treinador dinamarquês, antes de este ser substituído por Toni, a 27 de Novembro. Após esse empate caseiro com o Farense (2-2), a vida do Benfica mudou. Chiquinho viveu uma época mais discreta do que a anterior, mas ainda fez um golo importante, de cabeça, na vitória caseira contra o Anderlecht (2-0), nos quartos-de-final da Taça dos Campeões. Haveria de ser titular na final, perdida nos penaltis contra o PSV Eindhoven, após um frustrante 0-0, mas no fim da época entrou como moeda de troca na transferência de Ademir do V. Guimarães para o Benfica. No Minho, voltou a ser ponta-de-lança e isso permitiu-lhe até melhorar a marca goleadora: fechou a época com onze golos no campeonato, tornando-se o melhor marcador no nono lugar do Vitória. E ganhou pela primeira vez a Supertaça, ainda que à terceira tentativa: titular nas duas partidas frente ao FC Porto, não marcou, porém, em nenhum deles. O Vitória melhorou bastante em 1989/90, com o regresso de Paulo Autuori, ex-adjunto de Marinho Peres, agora paracomandar a equipa. E Chiquinho voltou a ser fundamental no quarto lugar final, sendo o homem mais utilizado e o melhor marcador, outra vez com um total goleador nos dois dígitos: aos dez golos no campeonato juntou mais dois na Taça de Portugal, um deles na meia-final ingloriamente perdida em casa contra o Estrela da Amadora, após prolongamento.

A confusão em que se tornou a época de 1990/91, no V. Guimarães, não favoreceu Chiquinho, que ao terceiro treinador (João Alves, depois de Autuori e de Pedro Rocha) perdeu a titularidade. Ainda foi o melhor macador da equipa, mas isso não impediu o clube de o deixar sair no final da época. Bem devem ter-se arrependido os responsáveis vimaranenses, porque o brasileiro assinou pelo rival local, o Sp. Braga, e fez a melhor época da carreira, com 15 golos que lhe perimitiram ser o terceiro melhor marcador do campeonato, apenas atrás de Ricky Owubokiri e Cadete. Destaque para o bis na vitória frente ao V. Guimarães (2-1), no Estadio 1º de Maio, ou para o “hat-trick” no Adelino Ribeiro Novo, uma semana antes, num mês de Janeiro de 1992 que não podia ter-lhe corrido melhor. Passando nessa altura a ser conhecido como Chiquinho Carlos – porque em Braga teve a companhia do moçambicano Chiquinho, desde então chamado Chiquinho Conde – essa época foi uma espécie de canto do cisne para o avançado brasileiro. Na época em que fez 30 anos, o seu total de golos baixou para sete, ainda que incluindo um ao Benfica, no Estádio da Luz, num jogo que o Sp. Braga perdeu por 2-1. E no fim da temporada foi atrás de Chiquinho Conde para o V. Setúbal, onde fez as duas últimas temporadas na I Divisão, ainda que sem grande preponderância. Fez o último golo no campeonato, num empate caseiro contra o Farense (1-1), a 23 de Outubro de 1994, despedindo-se do campeonato noutro empate, em Aveiro, frente ao Beira Mar (1-1), a 21 de Maio de 1995, numa altura em que o Vitória já tinha perdido todas as esperanças de se manter entre os grandes.

Com 32 anos, Chiquinho ainda fez uma época muito razoável em Viseu, com cinco golos, a ajudar o Académico local a situar-se a meio da tabela da II Divisão de Honra. Mas em 1996/97 já não foi capaz de acompanhar a equipa: fez apenas quatro jogos incompletos, com um total de 82 minutos em campo, e começou a pensar-se em retirada. Chiquinho, contudo, decidiu baixar um patamar. Passou uma época com o Atlético, na II Divisão B, e ainda fez seis golos. Todos na primeira metade da temporada, contudo. O que levou a nova descida, desta vez para representar o Mafra, na III Divisão. Após três épocas a meio da tabela da Série E, decidiu finalmente em parar. Estava com 38 anos e passou a entreter-se com uns jogos de amigos, nos quais participavam também os presidentes do Mafra e do Igreja Nova, modesta coletividade da zona de Pêro Pinheiro, que jogava na II Divisão distrital de Lisboa. Conversa puxa conversa, eis que Chiquinho aceitou jogar pelo Igreja Nova por seis meses. Só para dar uma ajuda. Acontece que os seis meses se transformaram em quase seis anos. À quarta época, já com 42 anos e a jogar como defesa-central, Chiquinho viveu a alegria de subir à Divisão de Honra do distrital lisboeta. E dois anos depois, novo sucesso, com o título de campeão distrital e o acesso à III Divisão nacional. Aí, Chiquinho parou mesmo. Tinha 44 anos e entregou-se à tarefa de treinador, tendo sido adjunto de vários técnicos que entretanto passaram pelo Mafra, atualmente a lutar para permanecer na II Liga.