Cresceu à sombra do pai, mas enganam-se os que pensam que isso lhe trouxe facilidades. Porque as comparações eram inevitáveis e porque o parentesco não lhe dava garantias de jogar. Às vezes, bem pelo contrário.
2016-04-25

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1974

Trazia com ele o peso do nome de família – e isso nem sempre facilita as coisas. Mário Wilson era filho de Mário Wilson, antigo craque de Sporting e Académica e um dos treinadores mais notáveis dos tempos em que ele tentava afirmar-se como jogador de I Divisão. Mário Wilson, o filho, era um médio de fino recorte técnico, daqueles que fazia o que queria com a bola. O problema é que nem sempre queria: faltava-lhe a chispa que marca os grandes competidores e que era um dos atributos do pai. Dele pode dizer-se hoje que passou ao lado de uma grande carreira. É que mesmo tendo chegado a passar três épocas no Benfica, depois de dois anos de destaque no Atlético, não chegou a ganhar um único título.

Formado entre o Belenenses e a Académica, andando, no fundo, atrás da carreira de treinador do pai, o jovem Mário assinou o primeiro contrato de sénior com o Leixões, clube que apostava nos jovens naquele início da década de 70. No plantel dos “bebés” às ordens de António Teixeira estavam também Frasco, Vítor Oliveira, Henrique Calisto, Porfírio, José Manuel, Cacheira, Fidalgo ou Arlindo, tudo gente na casa dos 20 anos. Wilson não teve impacto imediato: estreou-se a 4 de Novembro de 1973, entrando a 10 minutos do fim para o lugar de Montóia num empate a duas bolas frente ao Boavista, no Bessa. Foi entrando na equipa aos poucos e Teixeira terá tentado um jogo psicológico na primeira vez que fez dele titular. Aconteceu a 27 de Janeiro de 1974, numa visita a Guimarães, sendo o Vitória treinado por Mário Wilson, o pai. As coisas, contudo, não correram bem e, ao intervalo, com 4-0 no placard a favor dos minhotos, o Wilson filho já não voltou para a segunda parte, cedendo o lugar a Neca. Só voltou a jogar mais uma vez até final da época, na derrota caseira frente ao Oriental (1-3), a 31 de Março, voltando a sair ao intervalo.

O Leixões acabou por conseguir a permanência na I Divisão, através da Liguilha, mas Mário Wilson rumou a sul, assinando pelo Académica, que na sequência da revolução de 25 de Abril – o dia do 20º aniversário do médio – vivia um período conturbado que a levou a encarar a hipótese de extinção e a mudar de “género”, passando a chamar-se Académico. Tanta confusão não beneficiava quem precisava de afirmação e, ainda por cima, não era super-competitivo. A época, na qual voltou a não jogar muito, ainda assim, permitiu a Mário Wilson fzer uma desfeita ao pai: a 20 de Outubro de 1974, depois d saltar do banco a substituir Rogério, marcou o seu primeiro golo na I Divisão ao mesmo V. Guimarães que lhe assinalara a estreia. Foi um remate de longe que, não colocando em causa a vitória dos minhotos, deve ter enchido de orgulho o treinador adversário, o Mário Wilson pai. Mesmo tendo jogado mais tempo – foi cinco vezes titular – Wilson não guardará memórias muito gratificantes desta primeira passagem pela Académica, que perdeu sempre que ele entrou no onze. Deixou o clube empenhado na Liguilha, na qual os estudantes acabaram por assegurar a manutenção, e assinou pelo Atlético, onde viveu os dois melhores anos da sua carreira e se tornou cobiçado pelos grandes.

Titular indiscutível na equipa de Carlos Silva, começou logo por fazer as assistências para os dois golos que a equipa alcantarense marcou nas primeiras jornadas. Aproveitaram-nas Luís Horta (frente ao Sp. Braga, na Tapadinha) e Amaral (com a CUF, no Lavradio), mas não o Atlético, que apesar desses golos inaugurais acabou por perder ambos os jogos por 2-1. À terceira jornada, quem visitava Alcântara era o Sporting. Mário Wilson voltou a estar envolvido nos golos do Atlético, que perdeu a posibilidade de ganhar o jogo no relvado porque, a nove minutos do fim, quando ia bater uma grande penalidade, o público afeto aos leões invadiu o campo, revoltado com a arbitragem de Amândio Silva. A FPF acabou por conceder a vitória no jogo ao Atlético, que vivia muito à conta da inspiração de Mário Wilson, que acabou a prova com um golo (na vitória por 3-1 frente ao Beira Mar) e oito assistências, perdendo, ainda assim, os dois jogos contra o Benfica, que o pai conduziria ao título de campeão nacional. Uma segunda época ainda mais produtiva, com cinco golos no campeonato e mais um na Taça de Portugal, não impediu a descida de divisão do Atlético. Mário Wilson voltou a marcar um golo à equipa do pai, que entretanto tinha sido substituído por John Mortimore na Luz e se mudara para o Boavista, num jogo que tem muito por contar: Jose Caraballo tinha sido demitido de treinador do Atlético e, enquanto não chegava Artur Santos, o treinador que tentou evitar a despromoção, a equipa foi entregue a uma comissão de quatro jogadores, composta por Franque, Nelo Vingada, Norton de Matos e Mário Wilson. Esta comissão fez apenas um jogo, que foi a visita ao Bessa, da qual o Atlético saiu vergado por um esclarecedor 6-2. Wilson marcou o segundo golo, convertendo um penalti cometido por Carolino sobre ele próprio, quando já só faltavam três minutos para acabar o jogo.

Mesmo descendo de divisão, Wilson teve o convite para jogar no Benfica de Mortimore. Ali, porém, a competição por um lugar era enorme, mas nem por isso o jovem deixou de estar quase sempre presente, numa primeira época na qual foi convocado para 27 dos 30 jogos de campeonato. Não jogou muito – apenas sete vezes na Liga, uma delas na última meia hora de uma vitória em Guimarães (1-0) frente à equipa do pai – mas viveu experiências únicas, como a estreia europeia, em Moscovo, a 28 de Setembro de 1977, no jogo que ficou famoso por Bento ter marcado um e defendido dois penaltis no desempate que se sucedeu a um duplo 0-0. Ou o primeiro dérbi, a 5 de Março de 1978, em Alvalade, para a Taça de Portugal: entrou a 20 minutos do fim para o lugar de Cavungi, já com um 3-0 a favor do Sporting que os encarnados não conseguiram inverter, limitando-se a fazer um golo até final. Os 13 jogos que fez nessa época pelo Benfica, entre campeonato, Taça de Portugal e Taça dos Campeões Europeus – e nos quais marcou um golo, à CUF, nos 8-0 da Taça de Portugal – levaram-no a pensar que podia ter uma palavra a dizer no Benfica. Mas a segunda época foi pior, com apenas três jogos no campeonato, um deles os 3-2 em casa ao V. Guimarães do pai, aos quais acrescentou um na Taça de Portugal e outro na Taça UEFA.

E enganaram-se os que pensavam que só porque, no Verão de 1979, Mário Wilson (pai) voltava para liderar o Benfica o filho ia ver mais ação. Pelo contrário. Mário Wilson jogou apenas 27 minutos do campeonato, entrando para o lugar de Toni a 23 de Fevereiro de 1980, numa altura em que cinco golos de vantagem sobre o Beira Mar permitiram ao pai-treinador essa liberdade. E, apesar de ter estado no banco o derbi contra o Sporting, da Taça de Portugal, não chegou a jogar um minuto que fosse na vitória benfiquista na Taça de Portugal, alcançada na final contra o FC Porto (1-0). Não foi, por isso, estranho que no fim do contrato o Benfica o tenha libertado. Mário Wilson seguiu então para Coimbra, onde a Académica o recebeu de braços abertos. Ali voltou a ser importante, fez mesmo o primeiro bis da sua carreira – num 6-1 ao Neves, na Taça de Portugal – mas nem com a chegada do pai ao banco a Académica evitou a descida de divisão. Seguiram-se dois anos a lutar pelo regresso, caindo sempre na última barreira, que era a Liguilha. E no primeiro com muita polémica, pois a Académica só ficou atrás do Ginásio de Alcobaça na Zona Centro da II Divisão porque a FPF reverteu uma decisão de mandar repetir uma partida com a AD Guarda, tirando assim um ponto aos estudantes.

O futebol de Mário Wilson, porém, era demasiado fino para os pelados que ainda eram comuns na II Divisão. No Verão de 1983 seguiu, por isso, para o Farense, seduzido pelo projeto de Fernando Barata para a recuperação da importância do clube. Em Faro viveu as duas últimas épocas no futebol de topo. Na primeira, falhou apenas dois jogos, marcando um golo ao Benfica, ainda que num jogo que os algarvios acabaram golados (2-7). Na segunda voltou a marcar, fazendo aquele que acabou por ser o seu último golo no campeonato, numa vitória por 3-1 frente ao V. Guimarães, a 2 de Dezembro de 1984, jogo no qual acabou por sair lesionado. Despediu-se da I Divisão a 2 de Junho de 1985, com uma derrota por 3-1 em Vidal Pinheiro, frente ao Salgueiros, que acabou por ditar a descida de escalão dos algarvios e a permanência dos salgueiristas. Mário Wilson ainda jogou uma época no Estoril, na Zona Sul da II Divisão, antes de regressar ao Algarve, para ser campeão do terceiro escalão com a camisola do Louletano. Pendurou as chuteiras em 1989, ao serviço do Almacilense, clube onde iniciou a carreira de técnico e para onde levou imediatamente Jorge Jesus, de quem tinha sido colega de apartamento nos tempos do Farense e de quem foi depois o último treinador.

Como treinador, Mário Wilson não teve uma carreira destacada, dirigindo apenas equipas de escalões secundários, como o Ferreirense ou o U. Almeirim. Cedo o percebeu e enveredou por isso por outras áreas para conduzir a sua vida, sendo proprietário de um ginásio e de uma escola de futebol na zona de Oeiras, onde reside. O filho, Bruno Wilson, promete seguir as pisadas futebolísticas do pai e do avê e, depois de ter feito a formação no Sporting, joga atualmente na equipa B do Sp. Braga.