O segundo estrangeiro a capitanear o Sporting, Iordanov fê-lo numa altura importante, coincidente com o fim do jejum de 18 anos sem um campeonato. Era um exemplo de perseverança, polivalência e força de vontade.
2016-04-22

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1991

Chegou da Bulgária para fazer mais de 200 jogos pelo Sporting, alinhando como avançado, médio ou defesa e tornando-se mesmo capitão de equipa e ultrapassando os 50 golos no campeonato. Marcou os dois golos com que os leões ganharam a Taça de Portugal em 1995, a pôr fim a um jejum que, no que respeita aos dois principais troféus do futebol português, fazia 13 anos nessa Primavera. Fez quatro épocas no plantel leonino depois de lhe ser diagnosticada esclerose múltipla, num misto de entrega, dedicação e necessidade de continuar ativo. E aquilo por que é mais lembrado pelos adeptos sportinguistas é por ter amarrado um cachecol ao topo da estátua do Marquês de Pombal nos festejos do título de campeão de 2000. Se não a tivesse já em sua posse, Iordanov teria ganho nesse dia a alcunha de “leão da Bulgária”.

Ivaylo Iordanov começou por ser um prodígio em Samokov, a sua cidade natal, que fica ligeiramente a sul de Sofia. Ainda não tinha feito 15 anos e já jogava nos seniores do Rilski Sportist local, nos escalões secundários. Por lá se manteve até aos 21, quando se transferiu para o Lokomotiv Gorna, que já disputava a I Divisão búlgara. E após um primeiro ano de adaptação, no segundo substituiu Hristo Stoichkov – entretanto transferido para o Barcelona – como melhor marcador do campeonato, ajudando o Lokomotiv a conseguir um tranquilo oitavo lugar na tabela. Os 21 golos que marcara na prova levaram Krasimir Borissov, selecionador interino da Bulgária, a chamá-lo para um jogo com o Brasil em Uberaba, a 29 de Maio de 1991 (derrota por 3-0), no qual alinhou pela primeira vez pela equipa nacional do seu país. Os dois fatores conjugados e somados àquilo que os sportinguistas já tinham visto em meia época de Balakov levaram a que fosse acolhido com muita expectativa quando, a 13 de Junho de 1991, Sousa Cintra interrompeu um meeting de atletismo que decorria em Alvalade para apresentar o novo avançado do futebol.

A estreia não podia ter-lhe corrido melhor. A 25 de Agosto de 1991, à segunda jornada, foi titular na receção ao Famalicão e, à entrada para a segunda parte, marcou um golaço: ultrapassou um defesa perto da linha de meio-campo, graças à velocidade com que atacou a bola, aproveitou o espaço livre para correr até à área, pela esquerda, e lá chegado evitou outro adversário ao mudar de direção, antes de bater o guardião Luís Vasco com um remate seco e rasteiro. Naquele lance estavam à vista quase todas as suas qualidades: agressividade, velocidade e poder de remate. Iordanov nunca foi um criativo, um driblador, mas trabalhava como poucos num relvado e exibia ainda uma coragem quase sem limites, que se revelava na forma como fazia tantos golos de cabeça. Iordanov fechou a primeira época no Sporting com dez golos, um dos quais na estreia europeia: um remate de ângulo quase impossível, na vitória por 1-0 frente ao Dinamo Bucareste, em Alvalade, a 18 de Setembro de 1991. Não chegaria para passar a eliminatória, porém, uma vez que os leões foram batidos por 2-0 na Roménia, sem Iordanov em campo.

Um ano mais tarde, a 17 de Outubro de 1992, Iordanov soube pela primeira vez o que era marcar um golo num dérbi contra o Benfica. No jogo que começou com um tento de Balakov, logo no primeiro minuto, fez ele mesmo o 2-0, de cabeça, após livre lateral do compatriota. O Sporting ganhou pela primeira vez ao Benfica no campeonato desde os 7-1 de 1986, mas o avançado búlgaro não esteve com a equipa até ao fim, uma vez que também foi pela primeira vez expulso em Portugal. Apesar de ter conhecido uma época menos produtiva em termos goleadores – marcou apenas cinco vezes, uma delas na Taça de Portugal, contra a Académica – Iordanov chegou por fim à titularidade na seleção num jogo a sério: a 2 de Dezembro de 1992, Dimitar Penev deu-lhe um lugar no onze que venceu Israel, na qualificação para o Mundial de 1994. Com uma nuance: apesar de vestir a camisola 11, ia jogar a meio-campo, que no ataque estavam Kostadinov, Stoichkov e Ljubo Penev. Iordanov começava aí a dar sinais de que não se limitava a ser um ponta-de-lança, pois aquilo que podia dar à equipa ia muito para lá disso. Não era uma das estrelas daquela seleção búlgara mas, mesmo tendo desaparecido das escolhas de Carlos Queiroz na ponta final dessa época – o último jogo que fez foi a derrota por 6-3 contra o Benfica, na qual os leões perderam o campeonato, a quatro jornadas do fim – marcou na mesma bilhete para a fase final do Mundial dos Estados Unidos. Na fase final, foi-se ficando pelo banco, alinhando apenas os últimos 15 minutos da derrota (0-3) com a Nigéria, até que Penev se viu sem Ivanov. A busca de uma alternativa desembocou no utilitário do costume: Iordanov estreou-se como defesa-central, fez um passe magistral para o golo de Stoichkov e a Bulgária eliminou o México a caminho dos quartos-de-final. Os búlgaros chegariam ainda às meias-finais, tornando-se a equipa surpresa da competição. E Iordanov voltou dos EUA mais rico e experiente.

O problema é que o jogo voluntarioso de Iordanov o levava a lesionar-se com alguma regularidade. Após o Mundial, foi somando aparições dispersas, mas sempre sem grande continuidade, na equipa do Sporting. Chegou à super-forma em Abril de 1995, porém. No dia 2, obteve o primeiro hat-trick com a camisola leonina, contribuindo para um 4-0 sobre o U. Madeira. Viria ainda a bisar frente à U. Leiria e a marcar na vitória do Sporting frente ao Benfica na Luz (2-1, no jogo que ficou célebre por causa da expulsão de Caniggia). No final, foi tudo um aquecimento para a tarde de 10 de Junho, em que dois golos de Iordanov valeram ao Sporting a vitória na final da Taça de Portugal sobre o Marítimo (2-0), lançando os adeptos leoninos numa celebração própria de quem não ganhava nenhum dos dois maiores troféus nacionais desde a dobradinha de 1982. Iordanov, que três dias antes tinha sido titular como centro-campista na vitória da Bulgária frente à Alemanha, a contar para a qualificação do Euro’96, entrava de férias com a moral em alta. Só que um gravíssimo acidente automóvel, na Bulgária, nesse Verão, voltou a puxá-lo para a zona cinzenta. A ponto de se colocar em dúvida se alguma vez poderia sequer voltar a jogar futebol. Voltou em Dezembro, entrando para o lugar de Paulo Alves ao intervalo de um jogo com o Felgueiras que os leões já iam ganhando por 3-0. E aos cinco golos que fez no campeonato (incluindo novo bis ao Marítimo) juntou mais a Boavista e Campomaiorense a caminho da final da Taça de Portugal.

A 18 de Maio, semanas depois de ter participado na vitória frente ao FC Porto, na finalíssima da Supertaça (3-0 em Paris), lá estava Iordanov de novo no Jamor, desta vez para defrontar o Benfica. A final ficou marcada pela morte de um adepto leonino, vítima do disparo de um very-light vindo da zona de seguidores do Benfica na altura do primeiro golo encarnado. O Benfica ganhou por 3-1 e Iordanov saiu ao intervalo, quando Octávio Machado quis dar uma volta à equipa com a entrada do repentista José Dominguez. Perante a derrota desportiva e a tragédia humana, o melhor foi mesmo começar a pensar no Euro’96. Iordanov fez o primeiro golo pela seleção num jogo de preparação, contra os Emiratos Árabes Unidos, a 2 de Junho, mas na fase final Penev voltou a utilizá-lo a meio-campo. Longe do fulgor de 1994, contudo, os búlgaros foram afastados logo na fase de grupos e, de regresso a Portugal, Iordanov tinha à sua espera um novo treinador, o belga Robert Waseige, que olhou para ele e deu um novo veredito: defesa-central. Octávio Machado, que depressa regressou para o lugar de treinador, devolveu-o ao ataque, mas Hristo Bonev, novo selecionador búlgaro, aproveitou a deixa, passando Iordanov a jogar como central na seleção também. A época nacional acabou com o Sporting em segundo lugar – apenas a segunda vez que os leões o conseguiam desde a chegada do polivalente búlgaro – mas, mais uma vez, assim que as coisas pareciam começar a andar bem, aconteceu um revés. No aquecimento para um jogo contra a Rússia, no início do Outono de 1997, Iordanov sentiu falta de força numa perna. Já não jogou, voltou a Portugal para fazer exames e foi de lágrimas nos olhos que Fernando Ferreira, médico do Sporting naquela altura, lhe comunicou que sofria de esclerose múltipla, doença terrível e incapacitante que ataca o sistema nervoso central. Com 29 anos, Iordanov deu mais uma vez mostra daquilo que é feito: conseguiu convencer os médicos do Sporting e da Federação Búlgara a travar os tratamentos de forma a que pudesse continuar a jogar. E, mesmo com dificuldades, fez mais quatro campeonatos.

A 22 de Novembro de 1997, Iordanov jogou pela primeira vez desde que se sabia da doença: entrou para o lugar de Hadji, a 25 minutos do fim de um jogo em casa com o E. Amadora que os leões não foram capazes de ganhar. A 6 de Dezembro, tendo substituído Simão à entrada da última meia-hora de uma partida em Alvalade com o Campomaiorense, levou apenas meia-dúzia de minutos até fazer um golo que desbloqueava o resultado. Só voltaria a fazer mais um até final da temporada, passando praticamente ao lado da estreia leonina na Liga dos Campeões – só um minuto, frente ao Lierse. Mesmo assim, Bonev levou-o ao Mundial de França, onde foi titular em dois dos três jogos de uma geração búlgara que começava a ficar gasta. Iordanov, no entanto, não se deixava abater nem pela doença. Prova disso é que em 1998/99 terá feito a sua melhor época de leão ao peito: igualou a primeira época em total de jogos na Liga (29) e superou o seu melhor registo goleador, chegando aos 13, incluindo um bis ao Benfica na Luz, onde tinha o hábito de marcar. Além de ser uma solução para os problemas no campo, era capitão de equipa – função herdada de Oceano – e uma referência para os muitos jovens na equipa comandada por Mirko Jozic, cujo quarto lugar final era já visto como promessa de um futuro sorridente.

Esse futuro veio a tempo para Iordanov, com a conquista do título de campeão nacional de 1999/00. O seu contributo em campo já não foi extraordinário, mas ainda marcou um golo, a 23 de Outubro de 1999, num 2-0 contra o Sp. Braga em Alvalade. Iordanov foi jogando com alguma regularidade até Janeiro de 2000, altura em que desapareceu das escolhas de Augusto Inácio. Ainda assim, era o capitão da interrupção do jejum de títulos nacionais – que já ia em 18 anos – e foi dos mais efusivos nas celebrações. Na memória de muitos está a subida ao topo da estátua do Marquês de Pombal, numa plataforma elevatória, para lá deixar um cachecol alusivo à conquista. O título nacional foi, para Iordanov, como que um suspiro de alívio. Sentindo que já podia parar, viu Stoycho Mladenov dar-lhe a última internacionalização contra a Bélgica, a 16 de Agosto de 2000, e ainda fez dois jogos pelo Sporting nesse campeonato, despedindo-se da Liga portuguesa a 21 de Outubro, ao substituir Bino nos últimos 12 minutos de uma derrota caseira contra o FC Porto (0-1). Passou então a integrar a equipa técnica da equipa B leonina, até se afastar do clube por causa de um diferendo que só foi resolvido em 2010, quando um tribunal decretou a realização de uma festa de homenagem que o jogador reclamava como parte do seu último contrato.

Iordanov vive atualmente na Bulgária, onde explora negócios ligados com os transportes e é uma das caras mais relevantes na luta contra a esclerose múltipla.