Década e meia sempre com a camisola do Barreirense deu-lhe para tudo. Para fazer mais de 200 jogos na I Divisão, ser três vezes campeão da segunda e chegar outras três à meia-final da Taça de Portugal.
2016-04-21

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1950

Cresceu a ouvir falar das proezas do irmão Joaquim, já que sendo 19 anos mais novo não teria grande memória vivida da tarde de 1938 em que ele fez onze dos 16 golos com que o Barreirense bateu o Amora, num jogo do regional de Setúbal. Meia dúzia de anos mais tarde, lá estava Silvino a envergar a mesma camisola às listas brancas e vermelhas que estava destinada aos melhores do Barreiro e que foi a única que vestiu em toda a sua vida de futebolista. Mas ao invés do irmão, não tinha o golo como objetivo – a sua missão era evitá-los. A jogar em qualquer dos três postos da defesa ou até como médio, impôs a sua lei durante década e meia, sempre com o mesmo emblema, acumulando mais de 200 jogos na I Divisão e a braçadeira de capitão quando a despromoção de 1964 o impeliu a pendurar as chuteiras.

Silvino chegou à equipa principal do Barreirense quando esta lutava para regressar à I Divisão. Em 1949/50, ainda júnior, quase se limitou a ver os mais velhos esbarrarem na oposição do Oriental: o Barreirense liderava a Zona Sul até à última jornada, quando uma derrota por 7-1 em Marvila inverteu posições e mandou os grenás lisboetas para cima. Mas na primeira época de sénior em pleno, Silvino festejou a subida na Zona Sul da II Divisão, mesmo com uma derrota no último dia, frente ao Almada (0-1). E a festa pôde ser completa, porque o Barreirense se sagrou depois campeão nacional da II Divisão, reforçando a legitimidade do regresso ao escalão principal. A 23 de Setembro de 1951, Silvino estreava-se na I Divisão, com um empate (3-3) contra o Estoril, no Campo do Rossio. Logo na primeira época fez valer a sua polivalência, pois tanto podia ser defesa-direito, como esquerdo ou central e alinhava até, se necessário fosse, como médio. Esteve logo em 17 dos 26 jogos do campeonato e podia mesmo ter-se estreado a marcar: a 16 de Dezembro, no jogo contra o Sporting, em Alvalade, foi chamado a converter uma grande penalidade, mas vacilou e permitiu a defesa de Carlos Gomes. No fim, fez pouca diferença, pois o Barreirense perdeu por claros 8-0, fazendo com que a coroa de glória da época de estreia de Silvino tenha sido a vitória sobre o FC Porto (2-0, a 27 de Janeiro, no Rossio) ou a chegada às meias-finais da Taça de Portugal, em cuja primeira mão a equipa chegou a bater o Benfica por 2-1. Os 0-5 da segunda mão, porém, impediram a presença na final.

Totalista nessa campanha da Taça de Portugal, Silvino manteve o estatuto com a chegada de Artur Quaresma ao comando da equipa. Titular nas primeiras 14 jornadas do campeonato, só em finais de Janeiro, após um empate a zero na Covilhã, o já veterano Carlos Silva lhe tirou o lugar no onze, supostamente devido a lesão. Silvino ainda voltou a tempo, porém, de jogar as três últimas rondas na histórica quinta posição dos barreirenses. E em 1953/54 foi titular quase a tempo inteiro, falhando apenas a partida da primeira ronda (derrota por 2-0 em Braga). Apesar do mais modesto nono lugar final, o Barreirense pôde nessa época gabar-se de não ter perdido uma única vez no D. Manuel de Melo, onde Sporting e Benfica não foram além de um empate (ambos por 1-1) e o FC Porto e o Belenenses perderam mesmo (2-0 e 2-1, respetivamente). O FC Porto foi, de resto, um adversário do qual Silvino guardou gratas memórias: foi o primeiro grande ao qual ganhou e, além disso, foi na baliza portista que fez o seu único golo no campeonato. Aconteceu a 13 de Fevereiro de 1955: Silvino bateu Barrigana, mas a equipa da margem sul do Tejo acabou na mesma por perder com os azuis e brancos, por 3-1.

Nem passando a alinhar mais como médio, como aconteceu com a chegada ao Barreiro de Josef Fabian para, em 1955/56, desempenhar a função de treinador-jogador, Silvino passou a encontrar-se mais frequentemente com o golo. Nem nessa época, nem na seguinte, na qual dois períodos de ausência prolongada lhe retiraram a continuidade que desejaria no campeonato, mas onde foi de novo totalista na meritória campanha do Barreirense – já liderado por José João – na Taça de Portugal. Boavista, Vianense e Académica ficaram pelo caminho, caindo a equipa do Barreiro nas meias-finais contra o Benfica (0-1 e 0-4) pela segunda vez no passado recente. Aliás, a história repetiu-se um ano depois. Após o sétimo lugar no campeonato, o Barreirense do espanhol Lorenzo Ausina começou por afastar o Lusitano de Évora e o Salgueiros da Taça de Portugal – sempre com Silvino, que nessa época só falhou duas das 32 partidas oficiais da equipa – antes de ser eliminado, outra vez na meia-final e outra vez contra o Benfica (1-0 e 0-3). Ao contrário do que sucedera em 1952 e 1957, contudo, desta vez os encarnados não ergueram o troféu na final.

Os tempos de estabilidade do Barreirense na I Divisão, porém, estavam a chegar ao fim. Em 1959, a equipa liderada por Oscar Tellechea acabou o campeonato em antepenúltimo lugar e desceu de divisão. Silvino foi titular até inícios de Janeiro – altura em que o Barreirense era 10º, três pontos à frente da linha de água – mas depois foi desaparecendo das escolhas do treinador. Ainda apareceu em Março, mas as derrotas com o FC Porto e o V. Setúbal sentenciaram a despromoção. Foi, afinal, o ponto de partida para mais um título de campeão nacional da II Divisão, assegurado depois de vencer a Zona Sul e de bater o Salgueiros, na final, por 2-1. A equipa, porém, não se mostrou preparada para o regresso e acabou por ser última destacada no campeonato seguinte, com apenas oito pontos em 26 jogos, dois deles numa surpreendente vitória (3-1) sobre o Sporting, em meados de Março. Silvino já se fixara definitivamente como defesa-central, assumindo a função de capitão de equipa em lugar de Correia na terceira passagem pela II Divisão. E, em 1962, sagrou-se pela terceira vez campeão nacional daquele escalão, depois de vencer na final nacional o Feirense, por 2-0.

As coisas, porém, não voltaram a ser fáceis. Em Maio de 1963, Silvino foi do inferno ao céu em poucos dias. Primeiro, a derrota por 8-1 contra o Benfica, a deixar a equipa em zona de descida e a lançar dúvidas sobre o coletivo dirigido por Miguel Vinueza. Vinha aí um dérbi fundamental contra a CUF: quem perdesse, ou descia direto ou jogava a Liguilha, dependendo do resultado do Atlético, que à mesma hora jogava em Guimarães. O treinador espanhol trocou apenas dois titulares – Silvino manteve-se no centro da defesa, com a braçadeira de capitão – e o Barreirense ganhou por 3-0, conseguindo a salvação in-extremis. Mas não por muito tempo. Liderada por Josef Szabó, primeiro, e a partir de finais de Janeiro por António Pinto, o Barreirense acabou mesmo por ser último no campeonato de 1963/64. Silvino, que estivera fora do onze em finais de Março, nos jogos com Belenenses e V. Guimarães, ainda voltou para a épica vitória (1-0) sobre o Sporting, a duas jornadas do fim. Havia esperança, com a linha de água a três pontos e a Liguilha a um. Uma semana depois, em Évora, a derrota por 1-0 com o Lusitano deitou tudo a perder, pelo que o jogo com a CUF, no último dia, já não teve a carga simbólica do da temporada anterior. Desta vez ganharam os verdes, por 1-0, pelo que a 19 de Abril de 1964, dois dias antes de fazer 33 anos, Silvino punha ali termo a uma carreira com mais de 200 jogos de I Divisão. Veio a falecer 40 anos depois, três dias depois de completar 73 anos, quando já era reformado da Câmara Municipal do Barreiro.