Figura marcante do Benfica dos anos 70 e 80, foi oito vezes campeão, só lhe faltando jogar com a seleção uma grande prova internacional. Fê-lo depois, como selecionador, no Europeu de 2000.
2016-04-20

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1968

É difícil achar um nome que marque de forma tão omnipresente a história do Benfica nos anos 70 e 80 como o de Humberto Coelho. Só começou a usar regularmente a braçadeira de capitão quando se aproximava dos 30 anos e já tinha experimentado duas épocas no Paris St. Germain, mas mesmo antes disso já era ele quem impunha lá de trás a voz de comando à equipa. Líder no campo, era um defesa-central com extraordinária leitura de jogo e condições físicas de eleição, que lhe permitiam, por exemplo, ser o dominador do espaço aéreo, tanto a defender como a atacar, função para a qual Jimmy Hagan lhe descobriu condições ímpares. Acabou cedo, vítima da uma recuperação feita à pressa para poder cumprir o sonho que lhe faltou (jogar a fase final de uma grande competição internacional com a seleção), mas ainda assim levou para casa oito títulos de campeão nacional e a distinção como jogador português mais internacional do seu tempo.

Originário de uma família remediada da Cedofeita, Humberto adorava tanto o futebol como os pais o aconselhavam a fugir dele. Em casa, queriam que ele estudasse e ele foi fazendo a vontade aos mais velhos, mas os seus sonhos envolviam uma bola de futebol e muitos golos de cabeça. Começou a jogar na escola, juntou-se ao Arsenal do Bessa, clube mais ou menos clandestino de onde ganhou balanço para, aos 13 anos, treinar à experiência no Leixões. Agradou, queriam que ele ficasse, mas a mãe negou-lhe a autorização. O futuro estava nos livros. Só quando a família mudou para Ramalde, um ano depois, Humberto foi autorizado a jogar de forma federada. Envergou a camisola do clube local, o Ramaldense, durante dois anos, chamando a atenção dos olheiros dos tubarões. Artur Baeta, detetor de talentos do FC Porto, recomendou a sua contratação, mas os dragões não cumpriram as exigências financeiras do Ramaldense e acabou por ser o Benfica, que o descobrira por intermédio de Ângelo Martins, a conseguir o promissor defesa-central. Pagaram os encarnados 40 contos ao Ramaldense, deram mais 25 ao jogador e conseguiram que ele se mudasse para Lisboa, onde passou a viver no Lar do jogador e a alinhar pela equipa de juniores.

Humberto estreou-se na equipa de juniores do Benfica em Outubro de 1966, chegando no ano seguinte à seleção nacional da categoria. Capitão da equipa de juniores do Benfica que ganhou o campeonato nacional de 1968 e um dos jogadores em destaque na seleção que, nessa primavera, jogou o Europeu, foi de imediato integrado no plantel principal. Em Agosto, Otto Glória levou-o na digressão ao Brasil com que o Benfica abriu a temporada, fazendo-o jogar como titular logo no dia 8, frente ao Remo, em Belém. Humberto saiu-se bem, como igualmente bem se saiu da marcação a Pelé, no jogo com o Santos, pelo que foi sem espanto que começou o campeonato como titular. A 8 de Setembro de 1968, ainda com 18 anos, estreou-se no campeonato com uma vitória caseira frente ao Belenenses, por 4-1. E o mais espantoso é que, logo na primeira época, foi titular nos 40 jogos oficiais do Benfica, saindo apenas por 45 minutos na partida da Taça de Portugal contra o U. Almeirim, cedendo o lugar a Jaime Graça, ao intervalo, quando o resultado já estava em 6-0. Fez por inteiro a campanha europeia – estreia a 18 de Setembro, com um empate a zero frente ao Valur, na Islândia – e ajudou bastante a equipa a ganhar o campeonato, dois pontos à frente do FC Porto, e a Taça de Portugal, com uma vitória por 2-1 sobre a Académica, na final.

A ascensão meteórica aos píncaros da fama não ficou completa sem a estreia na seleção nacional, que Humberto fez a 27 de Outubro de 1968, lançado por José Maria Antunes no lugar de Rui Rodrigues, a 34 minutos do fim da vitória por 3-0 sobre a Roménia com que Portugal começava a atacar a qualificação para o Mundial de 1970. A seleção haveria de falhar esse objetivo – e tantos outros, ao longo da carreira de Humberto Coelho – mas o defesa que no coração dos benfiquistas já era comparado a Germano crescia a olhos vistos no plano clubístico. Na segunda época o Benfica perdeu a Liga para o Sporting – e Humberto só falhou um jogo, por lesão contraída em Setúbal, em Novembro de 1969, que o impediu também de estar nos 3-0 ao Celtic e na eliminação da Taça dos Campeões por moeda ao ar – mas ganhou aos leões na final da Taça de Portugal. No final dessa época, Humberto obteve o primeiro golo como sénior: fê-lo a Albertosi, em Lisboa, com a camisola da seleção, numa derrota por 2-1 contra a Itália, em Lisboa, a 10 de Maio de 1970. Fosse por isso ou porque em Inglaterra era normal os defesas-centrais aparecerem na frente, nas bolas paradas, Jimmy Hagan, o treinador que apareceu na Luz para substituir José Augusto em 1970, começou a incentivar as subidas do defesa portuense até à área adversária. E Humberto respondeu com golos. A 8 de Novembro de 1970 marcou o primeiro no campeonato, desbloqueando, a 14 minutos do fim, um jogo com o Barreirense no qual o 0-0 persistia teimosamente. Viria a fazer mais dois até final da época, na qual o Benfica voltou a ser campeão nacional, mas perdeu desta vez a final da Taça de Portugal, frente ao Sporting (1-4 na final).

O Benfica de Hagan era uma máquina dificilmente contrariável naquele Portugal de início da década de 70. Outra vez campeão e vencedor da Taça de Portugal em 1972, foi a base da seleção nacional que haveria de chegar à final da MiniCopa, no Brasil. Humberto, exemplar durante a competição, começou a ser reconhecido internacionalmente. O estilo mandão, a classe a sair a jogar, a frequência com que fazia golos – marcou mesmo dois, ao Irão e ao Chile – valeram-lhe o epíteto de “Beckenbauer português”. E a notabilíssima época de 1972/73, a tal em que o Benfica somou 23 vitórias nas primeiras 23 jornadas, fez ainda mais pelo seu reconhecimento, não só como patrão da defesa mas também como arma ofensiva. Foi disso exemplo o jogo em casa com o FC Porto, a 5 de Novembro de 1972: a perder por 2-0, Hagan mandou Humberto para avançado nos últimos 15 minutos, e este respondeu com a participação nos golos que valeram o empate e marcando ele mesmo o da vitória (3-2), aos 88’, de cabeça, após cruzamento de Simões. Ao todo, Humberto fez sete golos nesse campeonato, acabando como melhor marcador da equipa depois de Eusébio, Nené e Artur Jorge. Até final da carreira, corressem as coisas melhor ou pior à equipa, nunca mais deixou de estar entre os marcadores mais frequentes.

Humberto acabaria, no entanto, por estar indiretamente ligado à interrupção da hegemonia do Benfica, quando foi um dos que não cumpriu uma ordem de Jimmy Hagan no treino que antecedeu a festa de homenagem a Eusébio, em Setembro de 1973. O treinador inglês, disciplinador máximo, decretou que os três jogadores que não tinham feito as corridas como ele queria (Humberto, Toni e Nelinho) seriam desconvocados do jogo, mas estes queixaram-se ao presidente, Borges Coutinho, que os mandou equipar na mesma. Quando percebeu, Hagan não esteve com meias medidas: foi-se embora. Era o início de uma crise que acabou com Fernando Cabrita à frente da equipa desde a terceira jornada e com o Benfica a falhar mais uma vez o tetracampeonato, perdido para o Sporting. Humberto ainda fez cinco golos na Liga – entre eles um ao Sporting na vitória por 5-3 em Alvalade e o seu primeiro bis, ao Montijo – mas pela primeira vez acabava uma época sem ganhar nada. Tudo mudaria na época seguinte, com a contratação de Milorad Pavic. O Benfica foi outra vez campeão, Humberto fez oito golos na Liga, juntou-lhes mais dois na Taça das Taças e, aproveitando a nova realidade que se sucedeu ao 25 de Abril, começou a pensar em emigrar. A 6 de Maio de 1975 soube-se a notícia: por 10 mil contos, o Benfica transferia Humberto para o Paris St. Germain, emergente clube francês que queria aglutinar apoio na vasta comunidade portuguesa.

Em França, Humberto foi vítima de uma equipa que nunca foi tão forte como lhe prometiam. Ia ganhar bom dinheiro, mas faltavam-lhe as vitórias. O 14º lugar na primeira época deu lugar à troca de treinador e à entrada do jugoslavo Velibor Vasovic, com quem o português nunca teve grande relação. Afetado por uma lesão no joelho, Humberto ia jogando menos, o que em inícios de 1977 levou o PSG a pensar abater o seu elevado salário à folha de vencimentos. Chegou-se à frente o Palmeiras, mas Humberto não queria ir para o Brasil e terá pedido uma fortuna para inviabilizar o negócio. O que conseguiu. Em Março de 1977 é anunciado o seu regresso ao Benfica e, como já não vinha a tempo de ser inscrito em Portugal, o defesa ainda foi fazer uma perninha até Agosto no campeonato dos Estados Unidos, a NASL tão em voga naquela altura. Ao lado de Eusébio, Toni, Abel e Diamantino Costa, fez uns meses no Las Vegas QuickSilver antes de reentrar no campeonato português pela pota do Benfica de John Mortimore. Duas semanas depois de se despedir de Las Vegas, com uma derrota em casa com o Dallas Tornado, estava a jogar em Alvalade pelo Benfica, num empate a uma bola contra o Sporting com que se iniciou o campeonato. Nom dois anos com Mortimore, porém, Humberto não conseguiu ajudar o Benfica a contrariar a hegemonis do FC Porto de Pedroto.

O jejum de títulos, que para Humberto já durava desde que se sagrara campeão com Pavic, em 1975, só foi interrompido na final da Taça de Portugal de 1980. Humberto já sucedera a Toni como capitão de equipa quando o Benfica comandado por Mário Wilson bateu o FC Porto, por 1-0, na final da Taça de Portugal de 1980. E continuou a ostentar a braçadeira na época seguinte, na qual, liderados pelo húngaro Lajos Baroti, os encarnados conseguiram a tripla nacional: campeões nacionais, vencedores da Taça de Portugal, com uma vitória por 3-1 sobre o FC Porto na final, e ganhadores da Supertaça, com um empate e uma vitória frente ao Sporting. Na Taça das Taças, o Benfica chegou às meias-finais, de onde foi afastado pelo Carl Zeiss, da RDA. Ao todo, Humberto, que na época anterior tinha feito 12 golos e o primeiro “hat-trick” da carreira (num 4-1 ao Estoril, a 7 de Outubro de 1979), fechou a conta pessoal com mais sete tentos (quatro na Liga, dois na Taça das Taças e um na Taça de Portugal).

O sucesso de Baroti, contudo, não se prolongou. Esbarrou no Sporting de Allison, dominador total da época de 1981/82. Só que depois surgiu Eriksson na Luz. Aos 32 anos, Humberto parecia viver uma segunda juventude. Falhando apenas um jogo na reconquista do título – o empate a uma bola em Alcobaça, em Dezembro – fez toda a campanha europeia, que culminou com a presença na final da Taça UEFA, perdida na Luz com um empate frente ao Anderlecht, a 18 de Maio de 1983. Semanas antes, a 27 de Abril, estivera com a seleção nacional no desastre de Moscovo: uma derrota por 5-0 com a URSS que deixava a equipa com poucas chances de chegar à fase final do Europeu de 1984. Otto Glória saiu da seleção e deu lugar à Comissão Técnica liderada por Fernando Cabrita, mas o defesa-central, que por estes tempos era o mais internacional dos jogadores portugueses e, por inerência, capitão de equipa, apareceu em Setembro na primeira convocatória da nova época, para um jogo em casa com a Finlândia. Estava em forma: a 28 de Agosto, marcara na vitória do Benfica sobre o V. Setúbal (3-2) e a 11 de Setembro estivera nos 4-1 com que os encarnados ganharam no Estoril. Nos treinos para esse jogo com a Finlândia, porém, Humberto lesionou-se com gravidade num joelho, vendo-se forçado a encarar uma longa ausência.

Portugal ainda ganhou os três jogos que faltavam e qualificou-se para a fase final do Europeu. Com o sonho de liderar a seleção numa grande competição, Humberto fez tudo para antecipar prazos de recuperação. Terá feito até demais, pois a verdade é que nunca mais voltou a fazer um jogo oficial, ficando a tal vitória sobre o Estoril como a sua data de despedida da I Divisão. Foi depois treinador, no Salgueiros e no Sp. Braga, golfista diletante e empresário de sucesso na criação da moda das escolas de futebol, antes de, para supresa geral, ser escolhido por Gilberto Madaíl para suceder a Artur Jorge em 1997 como selecionador nacional. Foi a forma de cumprir o tal sonho: Humberto Coelho qualificou a equipa para o Europeu de 2000, conduzindo-a às meias-finais nos relvados da Bélgica e da Holanda. Hoje é vice-presidente federativo com o pelouro das seleções nacionais, onde pode aplicar a vastíssima experiência que tantos anos no futebol de mais alto nível lhe deram.