Yustrich dizia que Jaburu tinha "o futebol dentro dele". À chegada ao FC Porto, o avançado brasileiro mostrou-o bem. Mas depois entrou num processo de auto-destruição que acabou com o futebolista e com o homem.
2016-04-19

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1955

É a história mil vezes repetida, do futebolista grande com cabeça pequena. Este chamava-se Jaburu e, enquanto teve a conduzi-lo a rédea forte de Dorival Yustrich, antes de deixar que as noitadas e a cachaça o derrubassem, teve no FC Porto e no futebol português um efeito retumbante. Foi estrela em Portugal e, extraordinariamente, em Espanha, o que conseguiu mesmo sem jogar, no Celta de Vigo. De volta ao lado sul da fronteira, ainda enganou a retirada durante alguns anos no Leixões, acabando por morrer na miséria, atropelado nas mesmas ruas do Rio de Janeiro de que fez o seu lar nos últimos anos de vida e por onde se arrastava com uma caixa de sapatos contendo os recortes de jornal dos tempos de glória.

À chegada a Portugal, perguntaram-lhe porque lhe chamavam Jaburu e Jorge Mattos respondeu. Ou alguém o fez por ele, tão elaborada foi a explicação: “O jaburu é uma ave pernalta e sorumbática, que tem uma atitude descontraída e melancólica. Como eu”. Jaburu era isso mesmo. Tinha 1,85m, estatura muito elevada para a época, e além de ser bom nos ares chutava forte com os dois pés e era um atacante possante e difícil de derrubar. Tinha começado a jogar nas categorias de base do Fluminense e passara brevemente pelo Olaria antes de ser contratado para o América Mineiro, cujo treinador era Dorival Yustrich, por cinco mil cruzeiros. Em Belo Horizonte, começou a marcar golos épicos, daqueles que faziam a manchete dos jornais. Os grandes clubes do Rio de Janeiro mostraram interesse na sua contratação, mas quem levou a melhor foi o FC Porto, que pouco antes tinha ido buscar Yustrich. Convencido da categoria do seu centro-avante no América, o treinador pediu a sua contratação mal chegou às Antas. As negociações começaram em finais de Junho e concluíram-se a 10 de Agosto, com o clube português a pagar 700 mil cruzeiros ao América e mais 100 mil ao jogador, em luvas.

Jaburu estreou-se a 25 de Setembro de 1955, num jogo em casa com o Belenenses, que os dragões empataram a uma bola, sendo desde logo apelidado pelos mais otimistas de “novo Matateu”. Ao segundo jogo, a 2 de Outubro, mostrou tudo ao que vinha: sete minutos lhe bastaram para, em recarga a remate de Perdigão, inaugurar o marcador na vitória por 4-0 frente à CUF; mais tarde na partida, foi expulso pelo árbitro, Hermínio Soares. Jaburu era as duas coisas: grande avançado, mas também incorrigível indisciplinado. Dorival Yustrich, porém, conseguia domá-lo. Era mesmo o único que conseguia fazê-lo, de acordo com palavras de Gastão, outro brasileiro que chegou de Minas Gerais nessa época. E com a rédea curta do irascível treinador, que ficou conhecido como “Homão”, Jaburu foi uma das armas principais para a reconquista do título nacional pelo FC Porto, após 16 anos de jejum. Marcou 22 golos no campeonato, incluindo um hat-trick ao Lusitano de Évora e bis ao Atlético, ao Caldas, ao V. Setúbal, ao Sp. Braga e ao Barreirense. De todas as equipas concorrentes, só Belenenses e Torreense não foram castigados pelo goleador portista, que marcou ao Benfica e ao Sporting nas Antas. Na Taça de Portugal, somou mais sete golos, incluindo um póquer nos 13-1 ao Portimonense, participando – ainda que sem marcar – na final, ganha por 2-0 ao Torreense.

No final da época que ficou marcada pela primeira dobradinha da história do clube, Yustrich fez funcionar o seu instinto de auto-destruição: numa digressão ao Brasil e à Venezuela, desautorizou o presidente e, chamando-lhe estúpido e cavalo, ameaçou mandar o tesoureiro pela janela do hotel. Foi despedido e para o seu lugar chegou Flávio Costa, ex-selecionador brasileiro no Mundial de 1950. À chegada, ouvindo contar que o seu antecessor tinha muitas vezes que ir buscar Jaburu ao Tamariz, a casa mais “in” da noite portuense por aqueles tempos, disse que não estava disponível para ser a “ama seca” do goleador e recomendou de imediato que ele fosse transferido. Mas Jaburu ficou e ainda apresentou um rendimento muito razoável. Bisou logo na primeira jornada, no jogo com o Barreirense, esteve na estreia portista na Taça dos Campeões Europeus (fazendo um golo na derrota por 3-2 em Bilbau, contra o Athletic) e ainda marcou ao Benfica e assinou um hat-trick contra o Sp. Covilhã no campeonato. A 24 de Fevereiro, na 23ª jornada, ainda estabeleceu o empate (3-3) contra o Belenenses, minutos antes de se fazer expulsar, juntamente com o defesa adversário Carlos Silva, por agressões mútuas. Os dragões acabaram por perder o desafio (3-4) e ver o Benfica ultrapassá-los na liderança da Liga. Faltavam três jogos e, sem Jaburu, castigado, o FC Porto deixou mais um ponto num empate em casa (0-0) com o Atlético, último classificado, permitindo que o Benfica se sagrasse campeão. O goleador brasileiro voltou apenas na Taça de Portugal, mas depois de quatro golos nos dois jogos com o Arroios, ficou em branco na eliminação face ao Sp. Covilhã, nos oitavos-de-final.

Quando, finda a época, Yustrich regressou, qual D. Sebastião, pensou-se que Jaburu ia descolar outra vez. Mas logo à terceira ronda o jogador brasileiro voltou a perder a cabeça: agrediu Forneri, do Torreense, e deu início a um longo período de ausência. Ainda regressou a tempo de fazer um “hat-trick” contra o Oriental, a 26 de Janeiro, num jogo que mantinha os dragões no topo da tabela, com um ponto de avanço do Sporting. Após a partida, no entanto, o Mundo desabou: Yustrich acertou um valente soco em Hernâni, uma das estrelas da equipa, que não aceitava o regime que o treinador queria impor no clube, e os dois foram suspensos. O treinador acabou por ser mais uma vez afastado e o clube perdeu a Liga, que acabou com os mesmos pontos do Sporting, mas desvantagem no confronto direto e na diferença de golos. Já com Otto Bumbel aos comandos, os dragões ganharam a Taça de Portugal, mas Jaburu já não jogou nesta competição, pois a ideia dos responsáveis portistas era vendê-lo ao Celta de Vigo. Em Outubro de 1958 completou-se a transferência, que valeu 950 mil pesetas aos cofres portistas e uma valente dor de cabeça ao clube galego.

Em Vigo, Jaburu não chegou a fazer um único jogo. Abandonou o primeiro treino, a 9 de Outubro, queixando-se de dores nas costas. Intrigados, os responsáveis galegos levaram o jogador a um especialista em Santiago de Compostela, que lhe diagnosticou bronquite e um problema grave na cervical. Foi por essa altura que o jogador chegou a assinar uma declaração, notarialmente reconhecida, segundo a qual já estava lesionado quando o FC Porto o vendeu. Com base nesse documento, o Celta queixou-se à Federação Espanhola e tentou anular a transferência. Só que Jaburu veio depois dizer que a declaração tinha sido um engano. A novela meteu exames médicos feitos face aos médicos da Federação, em Madrid e queixas continuadas do futebolista, que em Janeiro de 1959 foi suspenso pelo clube e impedido de frequentar as suas instalações. Em Abril, a Federação libertou-o do vínculo com o Celta e ele acabou por fazer o único jogo em Espanha com a camisola do… Deportivo da Corunha: foi em finais de Maio e Jaburu foi mesmo a estrela de um jogo de homenagem a um antigo craque do Depor. O Celta acabou por descer de divisão e o presidente caiu sem que a sua maior aposta fizesse um único minuto em campo. Mesmo assim, Jaburu tinha uma “peña” – grupo de adeptos – com o seu nome. Razão? Era visita frequente dos bares na Ribeira de Bouzas, onde ia fazer malabarismos com uma bola para encantar os transeuntes.

Seja como for, no início da época de 1959/60 Jaburu estava de volta ao Porto, mas para jogar no Leixões, cujo treinador era José Valle, o homem que se ocupara do FC Porto entre a saída de Yustrich e a chegada de Bumbel. Estreou-se com a nova camisola a 27 de Setembro, na vitória por 3-1 sobre a CUF, na qual fez as duas assistências para os golos decisivos, e a 11 de Outubro marcava o primeiro golo. A vítima? Armando, o guarda-redes que naquele dia defendia as redes do FC Porto, e que foi incapaz de impedir o goleador brasileiro de marcar o 2-2 final. Jaburu ainda fez onze golos nesse campeonato, com um póquer ao Sp. Covilhã, a 3 de Janeiro de 1960, a ajudá-lo a ser o melhor marcador no oitavo lugar final dos leixonenses. A segunda época já não lhe correu tão bem do ponto de vista pessoal – só dois golos, o último dos quais a 21 de Janeiro de 1961, na vitória por 2-0 contra o Belenenses – mas foi coroada com o seu último título coletivo: a Taça de Portugal, que o Leixões ganhou surpreendentemente ao FC Porto, nas Antas. Nesse dia 9 de Julho, porém, Jaburu não jogou: tinha-se lesionado algumas semanas antes, nos quartos-de-final, contra o U. Madeira.

Filipo Nuñez, o argentino que levou a equipa ao triunfo na Taça, ficou para a época seguinte, na qual começaram verdadeiramente os problemas de Jaburu. Ainda esteve, em inícios de Setembro, na derrota por 6-2 contra o La Chaux de Fonds, na estreia europeia dos leixonenses, e depois, a 24 de Setembro de 1961, na derrota caseira contra o Benfica (1-2) com que a equipa abriu o campeonato. Foi a sua última aparição com a camisola do Leixões. Em inícios de Outubro já não marcou presença nos épicos 5-0 com que o Leixões bateu os suíços e assegurou a continuidade na Taça das Taças. O goleador tinha cedido à cachaça e chegou mesmo a ser detido, como indigente. Expatriado para o Rio de Janeiro, com intervenção da embaixada brasileira, nunca mais conseguiu endireitar a vida. Aquele que um dia Dorival Yustrich dizia ter “o futebol dentro dele como Stadivarius tinha a música quando fez os seus violinos” estava agora um caco. “Tem 30 anos mas parece ter 70”, dizia quem o via.

Jaburu, que chegou a ser engraxador de sapatos às portas do Maracanã, só se alegrava quando desfilava, como passista, na escola de samba da Madureira que tanto amava. Ainda partilhou com a mãe uma casa comprada pelo irmão, que tinha tido menos talento como futebolista (jogou, ainda assim, no Fluminense) mas mais cabeça, mas sem dinheiro para pagar a luz e o gás, preferia viver na rua, por onde se arrastava com uma caixa de sapatos contendo recortes de jornais com as suas proezas de outros tempos. Acabou por morrer em Copacabana, em data que não ficou registada pela imprensa. Foi também Yustrich quem contou que estava a jantar a alguns metros, quando alguém irrompeu pela porta do restaurante a dizer que tinha morrido atropelado, em forte estado de embriaguez, um antigo jogador de futebol. “Um negro muito grande. Era o Jaburu”. O treinador diz que não conteve as lágrimas.