O Zé da Música deixou nos relvados portugueses a imagem de durão que transportava dos barcos de pesca que sempre o acompanharam ao longo da vida. Mas foi a ele que lhe partiram duas vezes as pernas.
2016-04-18

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1983

Zé Maria nunca foi homem de ter os pés assentes na terra: o mar chamava sempre por ele. Foi no mar que se fez homem e foi pelo mar que a sua carreira de futebolista demorou tanto a arrancar, pois as ausências permanentes na faina fizeram com que só aos 26 anos tenha chegado à I Divisão. Ao mar voltou depois de onze épocas como profissional, mostrando a polivalência que sempre tinha exibido nos relvados. Jogador de raça, daqueles que ainda hoje simboliza o que é ser varzinista, viu colarem-lhe a fama de caceteiro, mas sempre se gabou de nunca ter magoado ninguém. Foi a ele, aliás, que lhe partiram as pernas por duas vezes.

Não foi fácil a infância de Zé Maria, o Zé da Música, como lhe chamavam por ser filho do Manuel da Música, um apaixonado pelas bandas filarmónicas. Ainda miúdo, andava à sardinha nos gasoleiros, os primeiros barcos a trocar a vela pelo motor, e chegava por vezes do mar já com o sol no firmamento. Nessas manhãs, em que comia um pão e seguia para a escola, chegava a adormecer frente à professora, pelo que não espantou que só tenha completado a quarta-classe à noite, com 14 anos. A perder não ficou só a escola. Por esses tempos, Zé Maria, que vivia na Póvoa mesmo em frente ao mar, ainda foi prestar provas ao Varzim. Até agradou, mas as constantes faltas aos treinos, por causa da pesca, impediram-no de se firmar e limitaram-no aos torneios de futebol de salão, que jogava por gozo com a camisola do Desportivo da Póvoa. O futebol federado, para ele, começou só aos 18 anos, na União Desportiva de Fajozes, pequena coletividade de Vila do Conde, onde jogava como avançado e fazia os seus golos, o que levou o presidente do clube, sportinguista confesso, a chamar-lhe Yazalde.

Dois anos no Fajozes levaram-no ao Castelo da Maia, onde uma época lhe bastou para chamar a atenção do Famalicão, para onde foi levado por Leonardo, ex-jogador do Varzim e do Famalicão. Assinou o primeiro contrato profissional com 24 anos, para alinhar na equipa famalicense que, sob o comando de Santana, andava pela Zona Norte da II Divisão. Foi marcando os seus golos, incluindo um na vitória do Famalicão sobre o Varzim, em 1982, no Torneio da Póvoa, que desde logo motivou o convite de Lídio Marques para assinar pelo clube da terra. Aceitou de imediato e, a dois meses do fim da época, avisou Fernando Tomé, o treinador que por necessidade o transformara de avançado em médio de combate. O problema foi quando a informação chegou aos ouvidos do clube, que não lhe pagou os salários desses últimos meses. Zé Maria colocou a carreira à frente de tudo e integrou, mesmo assim, com entusiasmo o plantel liderado por José Torres. Estreou-se na I Divisão a 28 de Agosto de 1983, logo na primeira jornada, numa derrota por 2-0 em Guimarães, e marcou o primeiro golo a 4 de Março do ano seguinte, no dérbi local: correspondeu a um passe de Vitoriano e fez o único tento de uma vitória por 1-0 sobre o Rio Ave. Nasceu aí o mito segundo o qual sempre que fazia um golo e se pendurava nas redes a festejar com os adeptos Zé Maria lhes dizia que tinha pago as quotas. Mais tarde o médio veio a dizer que tudo não passava de uma brincadeira inventada por André, à data seu colega de equipa.

Totalista na Liga logo à primeira temporada, Zé Maria só falhou um dos 36 jogos do Varzim nessa época. E para ele, que nunca foi batido pelo Rio Ave, foi um jogo fatal, pois os varzinistas perderam por 1-0, com golo de Quim, e caíram da Taça de Portugal nos oitavos-de-final, vendo o Rio Ave chegar à final, com o FC Porto. O oitavo lugar na Liga, porém, deixava boas perspetivas para a segunda temporada de Zé Maria no Varzim. José Alberto Torres tomou o lugar de José Torres à frente da equipa e o médio continuou a ser aposta firme, atuando como titular nas primeiras 15 jornadas e fazendo até três golos, entre eles um bis no empate (2-2) frente ao Salgueiros, em Vidal Pinheiro. A 5 de Janeiro de 1985, quando já se falava no interesse do Sporting no combativo médio poveiro, na repetição de um jogo com o Benfica que tinha sido interrompido quando uma garrafa lançada da bancada acertou na cabeça de um fiscal-de-linha, Zé Maria protagonizou um choque com Veloso e partiu a perna direita. Nas quinze jornadas até final, sem ele, o Varzim não voltou a ganhar e não fez mais do que seis pontos, vindos de seis empates, acabando por ser despromovido à II Divisão.

Complicações surgidas após a primeira intervenção cirúrgica levaram Zé Maria a regressar à mesa de operações, só lhe permitindo o regresso aos relvados na época seguinte. Aí, comandados por Henrique Calisto, os poveiros ficaram em segundo lugar da Zona Norte, conseguindo a subida de divisão através da Liguilha, com uma vitória por 2-1 sobre o U. Madeira numa tarde de chuva diluviana. E logo no ano de regresso, Zé Maria ajudou o Varzim a retirar pontos aos três grandes, com três empates (0-0 com o FC Porto nas Antas, 1-1 com o Sporting e 0-0 com o Benfica na Póvoa). A meio do campeonato, o Varzim andou mesmo em lugares europeus, mas o facto de ter obtido apenas uma vitória em toda a segunda volta impediu a equipa de conseguir mais do que o sétimo lugar final. Ainda assim muito bom. Pior foi o resultado final da época de 1987/88: um 17º lugar que fez o clube cair de novo no escalão secundário, mesmo tendo ganho ao Sporting em Alvalade e empatado as duas partidas com o Benfica. Em fim de contrato, Zé Maria decidiu comprometer-se com o Tirsense. Não porque lhe pagassem mais em Santo Tirso, mas porque ao Varzim chegara entretanto para ser presidente Domingos Lopes de Castro, homem que o jogador conhecia dos tempos de Famalicão e a quem nunca perdoara o facto de não lhe terem pago os últimos meses de contrato.

No Tirsense, ajudou a equipa a subir à I Divisão logo na primeira temporada, com um incontestado primeiro lugar na Zona Norte (o Varzim foi sexto…) e regressou ao escalão principal. Aí, voltou a fazer uma boa primeira época, pontuada com o nono lugar da equipa comandada por Neca. Ainda viu um cartão vermelho, por acumulação, no empate caseiro com o Benfica (1-1), a 23 de Dezembro de 1989, e marcou aquele que haveria de ser o seu último golo na competição, numa vitória por 3-0 sobre o U. Madeira, a 11 de Fevereiro de 1990. À segunda época entre os grandes, voltou a ter azar: um ano exato sobre a expulsão contra o Benfica, a 23 de Dezembro de 1990, partiu a perna esquerda logo aos 13’ de um desafio com o V. Guimarães e voltou para a enfermaria. A recuperação demorou desta vez menos tempo e ainda regressou à equipa a 30 de Março, para jogar em vez de Jorge nos últimos 15 minutos de uma derrota em casa com o Chaves (0-2). Seria a despedida. O Tirsense estava ainda a meio da tabela, em nono lugar, mas sem ele, caiu nas últimas nove partidas para um 16º lugar que o atirou para a II Divisão de Honra. Zé Maria, porém, optou por regressar ao Varzim, que por essa altura jogava a II Divisão B, ali tendo alinhado nos dois últimos anos enquanto profissional.

Aos 36 anos, regressou ao mar. Enquanto esteve nos Açores ainda enganou o bichinho da bola com alguns jogos no Atlético do Faial, mas também isso se acabou quando rumou a paragens mais distantes. Foi a pesca, afinal, que permitiu ao Zé da Música conhecer o Mundo, da costa africana às zonas mais distantes da América do Sul. Sempre sabendo o que é ser do Varzim.