Era o craque com o qual João Rocha esperava deixar marcas no Sporting, mas a sua irreverência fez com que durasse menos de um ano em Alvalade. O futebol de Dé tinha mais a ver com a realidade brasileira.
2016-04-16

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1969

Foi uma das primeiras apostas de João Rocha, quando chegou cheio de espírito empreendedor ao Sporting. O presidente foi ao Brasil e, por 300 contos, trouxe uma das maiores promessas do futebol carioca. Não sabia era que na embalagem também estava a trazer um dos mais irreverentes atacantes que o futebol brasileiro alguma vez conheceu. Em pouco menos de um ano em Portugal, Dé ganhou um campeonato e uma Taça de Portugal e incompatibilizou-se com dois treinadores. Era a história da vida dele.

Quando, em Fevereiro de 1974, João Rocha regressou do Brasil com Dé, sabia que estava a trazer um jogador habilidoso, malandro no campo, daqueles que conhecia mil truques para chegar ao golo. Atuando como falso ponta-esquerda, Domingos Elias (a alcunha, Dé, nasceu das iniciais dos seus dois nomes próprios) era uma das razões para o sucesso de Roberto Dinamite no Vasco da Gama. Era internacional olímpico, admitia-se que estava à porta da seleção A do Brasil e a sua contratação pelo Sporting deveria ter muito impacto no futebol nacional. Como teve. E nem sempre pelos melhores motivos. No campo, Dé ainda foi a tempo de render: estreou-se menos de um mês depois, a 2 de Março de 1974, lançado por Mário Lino em vez de Yazalde, a 23 minutos do fim de uma goleada em casa à CUF (6-0). No final desse mês, a 31 de Março, assinalou a primeira vez que foi titular com um golo, de penalti, na derrota por 5-3 com o Benfica, que nem assim se chegou aos leões e os impediu de se sagrarem campeões nacionais. Dé jogou de início nas últimas cinco rondas da prova, marcando dois golos – o segundo num sucesso por 3-1 no terreno da Académica. E juntou-lhes mais dois golos na vitória na Taça de Portugal, a valerem um 2-1 ao Belenenses, nos oitavos-de-final.

No jogo decisivo, a vitória por 2-1 sobre o Benfica, após prolongamento, esteve em campo nos 120 minutos, mas pouco depois se percebeu que não era compatível com Osvaldo Silva, o treinador interino que dirigiu os leões por causa da rotura com Mário Lino. Assim que foi tornada pública a contratação de Alfredo Di Stefano para treinar a equipa, Dé foi dos que bateu palmas: “Ainda bem. Se ficasse Osvaldo Silva pegava o primeiro avião e voltava ao Brasil”, disse o jogador, que acusava a antiga glória leonina de perseguir os seus compatriotas brasileiros. Só que Di Stefano não durou muito. Entre problemas burocráticos e a falta de vontade em pegar na equipa saiu logo após a primeira jornada do novo campeonato, uma derrota em Olhão. Dé voltou a aplaudir a medida, pois acusava Di Stefano de ser “pouco democrático”. E a democracia, naquele verão de 1974, era coisa para ser levada muito a sério em Portugal. O brasileiro, mesmo assim, foi titular nos primeiros 13 jogos da época leonina – onze no campeonato, com Osvaldo Silva de novo interinamente aos comandos, e dois na Taça dos Campeões, com empate e derrota face aos franceses do St. Etiènne. Marcou mais dois golos, a valerem as vitórias sobre a Académica em Alvalade (1-0) e o Sp. Espinho no Campo da Avenida (1-0), saindo do clube após este jogo, a 1 de Dezembro de 1974, no qual foi substituído por Marinho a 18 minutos do fim.

Após este curto período lusitano, Dé regressou ao Brasil, onde o seu futebol e o seu feitio muito irreverente faziam mais sentido. Natural da Paraíba do Sul, no estado do Rio de Janeiro, tinha começado a jogar no Riachuelo EC, clube local onde o seu pai era encarregado do campo. SA sua habilidade levara-o aos juvenis do Olaria, de onde saiu em final de 1966, depois de marcar três golos num empate a quatro contra o Bangu. No Moça Bonita, os cartolas estavam a tentar rejuvenescer a equipa que até tinha sido campeã carioca e Dé foi um dos jovens que ajudaram a consegui-lo. Em 1971 passou para o Vasco da Gama, onde ficou conhecido pelos golos, pelos penaltis cavados, mas também pela forma como tirava o juízo a qualquer opositor. Às vezes também lhe tocava a ele, como quando, num Vasco-Bangu, foi expulso e roubou o cartão vermelho ao árbitro, com a ideia de o rasgar – como o cartão era plastificado, não conseguiu e optou por levá-lo com ele para os balneários, dizendo ao juiz, que queria recuperá-lo, algo como: “você deu-mo, agora é meu”. Ficou famoso também um incidente com Otto Glória, à data treinador do Vasco, que tentava explicar em cartões a movimentação que queria para a equipa quando Dé derrubou um copo cheio de água em cima do material de preleção. “Você está louco, Dé?”, perguntou Otto. “Não. Só queria saber o que fazemos se chover e o campo ficar pesado”, respondeu o jogador.

De regresso ao Brasil, Dé voltou ao Vasco da Gama, onde conseguiu ser campeão carioca em 1977. Passou ainda pelo América, o seu clube do coração, e pelo Botafogo, onde ainda hoje é reverenciado, tendo sido há pouco tempo alvo de uma homenagem. Passou no futebol da Arábia Saudita, com a conquista da Taça do Rei, tendo ainda jogado outra vez no Bangu, no Bonsucesso, no Rio Branco e na Ferroviária, antes de se tornar treinador, com passagem por alguns clubes grandes. Ainda assim, reconhece que o seu caráter não se coaduna muito com as exigências do futebol profissional. “Sou o melhor treinador de futebol de base do Mundo, mas no futebol profissional tem de ser tudo muito subtil e isso não é para mim”, disse numa entrevista recente, quando já era comentador de futebol da SBT. Sem subtilezas, portanto.