Contam-se pelos dedos de uma mão os timorenses que conseguiram fazer carreira no futebol em Portugal. Nenhum teve o impacto de Pincho, um médio ofensivo que se impôs no Belenenses da década de 70.
2015-12-25

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1975

A distância de Dili a Lisboa é enorme. São mais de 14 mil os quilómetros a separar a capital timorense da maior cidade portuguesa. E foram os 14 mil quilómetros que Pincho teve de percorrer para se tornar uma referência quando se fala em futebolistas timorenses. Não foi o único, mas contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que chegaram dos antípodas e conseguiram impor-se no futebol nacional, deixando a tal ideia de uma nação onde o sol nunca se punha que era tão do agrado do antigo regime. Em quatro épocas vestido de azul, este médio goleador deu um contributo importante para o que era o Belenenses de meados da década de 70. E ainda se lembra de um golo salvador.

José da Costa Guilherme era filho de um portuense, mas foi a Lisboa que chegou em Maio de 1973. Chamavam-lhe Pincho desde miúdo, porque era irrequieto, e vinha treinar à experiência no Belenenses que Alejandro Scopelli conduzia ao primeiro lugar entre os que se opunham a uma clara superioridade do Benfica, que acabou esse campeonato com 18 pontos de avanço sobre o segundo. O que mostrou nesses primeiros tempos agradou e o jovem timorense de 22 anos acabou por ficar. Tinha ainda muito que aprender acerca do futebol em Portugal, pelo que se seguiu o necessário período de adaptação. Scopelli só o estreou na primeira equipa em ambiente competitivo cinco meses depois, a 28 de Outubro, quando ao intervalo de um jogo com o Barreirense, no Restelo, o fez entrar para o lugar de Quinito. E essa até foi uma aparição esporádica, pois Pincho não voltou senão em finais de Março, dessa vez para terminar um jogo com o Beira Mar no lugar de Godinho. Ao terceiro jogo, porém, fez um golo: a 5 de Maio, saltou do banco para desfazer o empate num jogo com o Farense, que o Belenenses acabou por ganhar por 3-1. Scopelli gostou, deu-lhe a titularidade nas últimas duas jornadas e Pincho respondeu com mais um golo, desta vez nos 3-0 ao Montijo.

O timorense prometia para a segunda época, que o Belenenses enfrentou com Peres Bandeira aos comandos. Não a começou como titular: só em Dezembro o técnico passou a incluí-lo com regularidade nas suas escolhas, ainda a tempo de o ver marcar seis golos no campeonato, um deles numa memorável vitória sobre o FC Porto nas Antas, a 26 de Janeiro de 1975. Os azuis acabaram esse campeonato em sexto lugar, mas conseguiram melhorar em 1975/76, onde foram terceiros. Já sem uma tão grande participação de Pincho, que nessa época se limitou a fazer 15 jogos e não marcou nenhum golo. O Belenenses estava, porém, no início do declínio que veio a conduzi-lo à II Divisão no início da década seguinte. Em 1976/77, comandada por Carlos Silva, a equipa não saía dos últimos lugares da tabela. À entrada para a penúltima jornada, os azuis tinham apenas dois pontos de avanço sobre a linha-de-água e dois jogos para se salvarem: a receção ao Atlético e a visita ao Sporting no último dia. Mandava a prudência que a questão ficasse despachada no dérbi da zona ocidental de Lisboa, mas a 25 minutos do fim mantinha-se o empate a uma bola. Severiano Correia, que nesse dia se estreava como técnico dos azuis, fez entrar Pincho para o lugar de Álvaro e o timorense marcou o golo da salvação que o 2-1 final significou.

A derrota do Montijo em Guimarães, ao mesmo tempo, assegurou a manutenção dos azuis entre os grandes, mas aquele haveria de ser o último golo de Pincho pelo Belenenses. No Verão de 1977 seguiu para o Paços de Ferreira, onde fez a primeira de cinco épocas na II Divisão: alinhou ainda no Recreio de Águeda, dois anos no Sp. Covilhã e um no Benfica de Castelo Branco. Fechou o périplo por Portugal em 1983, vestindo a camisola do Comércio e Indústria de Setúbal, na III Divisão. Dali seguiu para a Austrália: jogou no Crescent Star, um clube de turcos, em Sydney, e nos Lusitanos, que lhe abriram as perspetivas de ser treinador da seleção portuguesa daquela cidade. É em Sydney que vive hoje, mantendo ainda assim a ligação ao futebol português, que acompanha sempre que pode, à distância, como adepto.