Um dia fez dois golos ao V. Guimarães e nos jornais chamaram-lhe o "Cruijff de Marvila". A alcunha já dura há 40 anos e acompanhou este ex-jogador da CUF e da Académica para lá do Oriental, no Estoril e no Sacavenense.
2016-04-14

1 de 11
1967

Quim tinha um ritual para o regresso a casa, no Barreiro, após os treinos no Oriental, em Lisboa. No barco em que atravessava o Tejo, aproveitava para ler o jornal desportivo e para se manter a par das notícias. Naquele dia, ao abrir as páginas gigantes de A Bola, deparou com o que lhe pareciam ser duas fotos dele mesmo, com uma particularidade: numa das fotos estava equipado à Barcelona. O título enchia-lhe o coração: “O Cruijff de Marvila”. As fotos, no entanto, não retratavam ambas o avançado cuja carreira estava por aqueles tempos a renascer na Azinhaga dos Alfinetes, sob a orientação de Pedro Gomes. Numa delas estava Johan Cruijff, o genuíno; na outra a principal arma ofensiva do Oriental. As semelhanças físicas e fisionómicas eram tão evidentes que a alcunha não só pegou como resistiu anos a fio, até bem depois de Quim ter passado a jogar no Estoril ou no Sacavenense, onde veio a encerrar a carreira, aos 37 anos.

Quim começara a aventura futebolística muito antes, na CUF. A equipa era forte e, na primeira época de sénior, nem calçou: limitava-se a ver jogar os mais velhos. A estreia, de fogo, aconteceu a 15 de Janeiro de 1967, nas Antas, contra o FC Porto, em partida da Taça de Portugal. A dupla técnica formada por João Mário e Anselmo Fernández, o homem que levara o Sporting a ganhar a Taça das Taças anos antes, lançou-o numa derrota por 3-2 em que os do Barreiro acabaram reduzidos a nove, por expulsão de Durand, a meia-hora do fim, e lesão de Garroa, aos 85’. Quim já não jogou a segunda mão, no Barreiro, mas a 12 de Fevereiro de 1967 via pela primeira vez a ação numa partida de campeonato: 0-2 no Lavradio com a Académica. Manteve a titularidade na partida seguinte, em Aveiro, mas a derrota contra o Beira Mar (mais uma vez 0-2) e a substituição dos treinadores por João Faia fizeram com que voltasse a plano secundário. No final da época saiu para a Académica, com a ideia nos estudos, mas em Coimbra a equipa de Mário Wilson era ainda mais forte e não fez um minuto em toda a temporada.

Quim mostrou-se apenas na digressão a África com a qual os estudantes encerraram a temporada, já no Verão de 1968, porque alguns dos titulares ficaram na metrópole, com exames para fazer. Isso deu-lhe alento para encarar a nova época, na qual esteve mesmo na estreia europeia da Briosa. A 9 de Outubro, depois de ter perdido por 1-0 em Lyon, a equipa de Mário Wilson ganhou aos franceses em Coimbra pelo mesmo resultado, forçando o prolongamento. Aos 5’ do tempo regulamentar, Quim fez a estreia oficial pela Académica, substituindo Peres, na tentativa de procurar o golo que permitisse o apuramento. Não o conseguiu, o jogo acabou com a eliminação dos portugueses, imagine-se, por moeda ao ar, mas Quim deixou boa imagem. Até ao final do ano, entrou duas vezes no final dos jogos para o lugar de Artur Jorge e, na primeira partida de 1969, inverteu mesmo os papéis, sendo titular na receção à Sanjoanense (vitória por 2-0) e depois na visita ao Leixões (1-1). E cometeu nessa altura um erro: acreditando que se entrasse imediatamente para o serviço militar evitaria a mobilização para a guerra de África, pediu transferência para o Famalicão, sendo ali colocado num quartel. Não só perdeu a carreira futebolística, como meses depois estava mesmo a seguir para África, incluído nas fileiras do exército português.

Em Luanda, jogou durante dois anos no Sporting local, tendo chegado a alinhar na seleção da então província portuguesa sob as ordens de Fernando Peyroteo. Mas a carreira futebolística de Quim só voltaria a arrancar no regresso a Portugal, para jogar no Oriental. Foi uma das figuras da equipa que em 1973 conseguiu subir à I Divisão, através da Liguilha, e depois das férias estava de regresso ao convívio dos grandes. A 23 de Setembro de 1973, aos 26 anos, fazia, de penalti, o primeiro golo no campeonato, a pontuar a primeira vitória do Oriental nesta edição da prova, um 1-0 sobre o V. Guimarães. Seguiram-se mais oito, mas podiam ter sido mais, não tivesse Quim deixado de bater os penaltis da equipa depois de falhar um frente a Damas, num jogo em casa contra o Sporting. No ativo do Cruijff de Marvila figuraram um bis ao Leixões (dois golos de rajada no primeiro quarto-de-hora, a construir a base de uma vitória por 3-2) e ainda dois golos especiais: no 1-0 ao Barreirense, em Novembro, e no 3-2 à CUF, na última jornada, a garantir a manutenção da equipa de Pedro Gomes.

Quim jogava já sobre a esquerda do meio-campo quando a Marvila chegou um novo treinador, Carlos Silva. Ainda fez seis golos nesse campeonato, incluindo um bis ao V. Guimarães, mas isso já não chegou para impedir a despromoção do Oriental, que nem na Liguilha se salvou. Quim não foi um dos despromovidos, no entanto, pois foi recuperado para o Estoril de António Medeiros, que acabara de subir ao escalão principal. Ali fez quase toda a época como titular – só falhou a visita a Guimarães, por lesão contraída na ponta final da receção ao Benfica, em Março – mas marcou apenas um golo. Ainda assim um golo fundamental, pois valeu a vitória por 1-0 sobre o Sp. Braga, a 18 de Janeiro de 1976. Ele não podia sabê-lo, mas aquele seria o seu último golo na I Divisão. Muito menos utilizado na nova temporada – Óscar e Torres ganharam espaço no meio-campo e Quim passou a surgir como alternativa a Cepeda, na esquerda do ataque – ainda aguentou mais outra, vendo até crescer a utilização, no regresso ao meio-campo. A 16 de Outubro de 1977 foi expulso pela primeira – e única – vez no campeonato, por Albino Rodrigues, a sete minutos do fim de uma derrota por 4-1 contra o Sporting em Alvalade. Jogou pela última vez na Liga 4 de Junho de 1978, numa vitória por 2-1 em Braga que garantia, a uma jornada do fim, a permanência do Estoril na I Divisão.

Desta vez, porém, seria ele a baixar um patamar. Aos 31 anos, assinou pelo Sacavenense, clube que ainda representou por mais seis épocas na Zona Sul da II Divisão, chegando a conseguir dois quartos lugares e a ocupar-se da equipa de forma esporádica, como treinador interino, em 1981. Três anos depois, com a descida à III Divisão, resolveu pendurar as chuteiras. Já tinha 37 anos e uma vida para lá do futebol.