Oito vezes campeão nacional em onze épocas no Benfica, José Augusto é ainda, com Coluna, o único a ter estado nas cinco finais europeias dos encarnados na década de 60. E já não enganava quando jogava no Barreirense.
2016-04-13

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1955

Uma das maiores figuras da história do Benfica, respondeu sempre presente quando se tratou de elevar bem alto o nome do clube, tanto a nível nacional como europeu. Em onze anos de águia ao peito, foi oito vezes campeão nacional e forma, com Coluna, o par de homens que esteve em todas as finais europeias dos encarnados na década de 60, as duas ganhas mas também as três perdidas. Com um físico de ferro, hegou a ser considerado pelo “L’Équipe” o melhor extremo-direito da Europa, o “Garrincha português”, na pena de Gabriel Hanot, mas o veloz barreirense era mais do que um extremo. Tinha golos nas botas e, sobretudo, na cabeça, porque desenhava trajetórias de corrida que tanto favoreciam a sua capacidade inigualável de cruzar e servir os avançados-de-centro como a própria chegada à área, onde fazia valer um remate seco e certeiro, mas também o poder de impulsão que lhe sobrara do início de carreira no basquetebol.

Filho da arte, de Alexandre Almeida, jogador do Barreirense nos anos 30, José Augusto foi-se dividindo entre o futebol e o basquetebol. Só aos 17 anos optou em definitivo pelos relvados, onde viria a atingir um nível de excelência. Chamado à seleção nacional de juniores que em 1955 jogou o Torneio Internacional da FIFA, em Itália, entrou de rompante na equipa sénior do Barreirense logo após o Verão. Estreou-se no campeonato a 16 de Outubro de 1955, num empate caseiro contra o Caldas (1-1), mas foi à segunda partida, no dia 30, que nele começaram a centrar-se as atenções gerais. O adversário era o Sporting, em cuja baliza estava o também barreirense Carlos Gomes, guarda-redes da seleção nacional. Numa roda de amigos, no Barreiro, Gomes, conhecido por defender muito e falar ainda mais, terá garantido que não ia sofrer golos contra o Barreirense, mas a verdade é que voltou para casa com duas bolas por explicar, ambas marcadas pelo jovem que despontava na equipa do romeno Josip Fabian: os leões chegaram ao 2-0, mas primeiro numa recarga a Correia e depois num cabeceamento após cruzamento de Vasques, José Augusto fez um empate que só foi desfeito pelo outro Vasques (o do Sporting) a 15 minutos do fim. O Barreirense perdeu, mas os leões ficaram com o rapaz debaixo de olho.

Nessa primeira época, José Augusto foi logo o melhor marcador do Barreirense, com nove golos no campeonato (que a equipa acabou num belo sexto lugar) e mais três na Taça de Portugal, na primeira eliminatória, frente ao Portalegrense, no que foi o seu primeiro hat-trick como sénior. À primeira temporada de sucesso somou uma segunda com 13 golos no campeonato, incluindo um hat-trick à CUF, no dérbi da cidade, e mais um golo a Carlos Gomes, na vitória sobre o Sporting (2-1), na penúltima jornada, que se revelou fundamental para a manutenção da equipa de Fabian. E fez mais cinco golos na Taça de Portugal, na qual, já orientado por José João, o Barreirense chegou às meias-finais, sendo afastado apenas pelo Benfica. O sucesso do jovem avançado não era fruto do acaso, como se provou pelos seus doze golos na sétima posição de 1957/58, incluindo mais um hat-trick, desta vez ao Caldas, e o golo da ordem ao Sporting, ainda que desta vez numa derrota por 7-1 em Alvalade. Na Taça de Portugal, a equipa do espanhol Lorenzo Ausina voltou a ser afastada apenas pelo Benfica, e nas meias-finais, mas desta vez José Augusto ainda marcou aos encarnados, valendo um golo seu uma vitória por 1-0 no D. Manuel de Melo que a equipa lisboeta reverteria em casa. Estava lançado: a 7 de Maio de 1958 estreou-se na seleção nacional, lançado por José Maria Antunes na derrota tangencial de Portugal ante a Inglaterra, em Wembley (2-1).

Os golos de José Augusto, mas também a sua resiliência – desde que se impôs como titular no Barreirense, com o tal bis ao Sporting, a 30 de Outubro de 1955, até deixar o clube, em Março de 1959, falhou apenas uma partida, uma derrota em Setúbal em Outubro de 1956 – fizeram com que fosse cobiçado pelos grandes. Sporting, Benfica, FC Porto e até a Fiorentina, de Itália, cujos responsáveis tinham ficado maravilhados com ele após um jogo entre seleções militares dos dois países, perguntaram ao Barreirense quando queria para libertar o jovem jogador. Mas do Barreiro a resposta foi dura: mil contos! Era muito dinheiro e José Augusto ficou. Em 1958/59 voltou a fazer uma época ao seu nível, com 13 golos, mas nem assim a equipa liderada pelo argentino Oscar Tellechea evitou a despromoção, através da Liguilha. Seria um crime obrigar um talento como José Augusto a jogar na II Divisão, pelo que o Barreirense acedeu a fazer negócio. O jogador, grato ao Benfica, porque os encarnados tinham feito duas partidas amigáveis no Barreiro para angariar fundos que auxiliassem o pai a combater a doença, preferia a Luz, mas de lá não se chegavam à frente, pelo que esteve com um pé no FC Porto. Foi Manuel da Luz Afonso, à data diretor do departamento de futebol do Benfica, quem o desviou em Santa Apolónia, quando ele já se dirigia de malas feitas para o Norte. E José Augusto acabou por assinar pelo Benfica, recebendo o Barreirense 350 contos e mais três jogadores, entre os quais Mascarenhas, que viria a cobrir-se de glória anos mais tarde no Sporting.

Ao primeiro jogo no novo clube, José Augusto teve pela frente um adversário conhecido: Carlos Gomes, que defendia as redes do Oviedo, adversário do Benfica numa partida amigável. A 20 de Setembro de 1959, estreava-se oficialmente com a camisola do Benfica, com duas assistências para golos de Santana e Águas num 4-1 ao V. Setúbal. Uma semana depois, em Braga, fez o primeiro golo no novo clube, encerrando a contagem numa vitória por 3-0 com uma bela finalização de calcanhar. Bela Guttmann não prescindiu do novo recruta numa única partida desse campeonato, que o Benfica ganhou, tendo José Augusto encerrado a época com 19 golos na Liga e mais oito na Taça de Portugal, prova na qual os encarnados caíram nas meias-finais, afastados pelo Sporting. A tendência para marcar aos leões não se confirmou nesse duplo confronto da competição a eliminar, mas já tinha sido confirmada no campeonato, pois foi ele o autor do golo que valeu o empate a uma bola em Alvalade e bisou nos 4-3, que a duas jornadas do fim praticamente garantia ao Benfica o título nacional. Aquele era também o ponto de partida para o Benfica europeu. Com sete golos de José Augusto, incluindo os bis ao Ujpest e ao Aahrus que o extremo ainda hoje recorda [ver outro texto], os encarnados chegaram à final da Taça dos Campeões, ganha ao Barcelona, por 3-2, em Berna. Nesse dia 31 de Maio de 1961, José Augusto jogava a primeira de cinco finais da Taça dos Campeões Europeus, ganhando-a, tal como voltou a ganhar o campeonato nacional, três semanas depois, e com a sua melhor marca goleadora de sempre: 24 golos.

A chegada ao onze do Benfica de Eusébio, pela mesma altura que a equipa ganhava a sua primeira Taça dos Campeões, veio retirar presença goleadora a José Augusto, que em 1961/62 se ficou por uns mais normais 13 golos. No ativo, incluiu o seu primeiro póquer, marcado numa vitória por 7-1 sobre o Leixões, a 21 de Janeiro de 1962. E, mesmo tendo o Benfica perdido o tricampeonato – foi terceiro, a sete pontos do Sporting – a equipa voltou a impor-se na Taça dos Campeões (5-3 na final ao Real Madrid, com golos de José Augusto ao Nurnberg e ao Tottenham, nos quartos e nas meias-finais) e ganhou a Taça de Portugal. Titular na final, a 1 de Julho de 1962, José Augusto teve nesses 3-0 ao V. Setúbal a oportunidade de somar o troféu nacional que ainda lhe faltava. Já tinha nessa altura dez jogos pela seleção nacional, na qual começava a ser um nome incontornável. Mas só na ponta final da época seguinte, a 21 de Abril de 1963, marcaria a seu primeiro golo com as quinas ao peito. E o mínimo que pode dizer-se é que soube escolher a ocasião, pois esse golo valeu a Portugal uma saborosa vitória por 1-0 sobre o Brasil de Pelé, Zagalo e Djalma Santos, à data bicampeão do Mundo. Já com Fernando Riera aos comandos – e sem Guttmann, que abandonara o Benfica e deixara a sua maldição –, José Augusto fez parte da equipa que ganhou o campeonato e chegou a mais uma final da Taça dos Campeões, fazendo mesmo um dos golos que permitiram ultrapassar o Feyenoord, nas meias-finais, com um 3-1 na Luz. Na final de Wembley, contudo, o Milan foi mais forte e ganhou por 2-1, impedindo o “tri” dos encarnados.

A competição nacional, por estes tempos, era de menos para aquele super-Benfica. Tricampeão em Portugal em 1963, 1964 e 1965, o Benfica chegou ainda às finais da Taça de Portugal nestas duas últimas épocas. Em 1963/64, José Augusto fez dois dos seis golos com que os encarnados bateram o FC Porto na final (6-2), levantando pela segunda vez o troféu e obtendo um total de 12 tentos na prova. Em 1964/65, com apenas dois golos na caminhada até à final, as coisas correram-lhe pior: jogou, mas o Benfica perdeu a revalidação do troféu para o V. Setúbal, encaixando uma inesperada derrota por 3-1. Na Europa, depois da desilusão que foram os 0-5 na neve de Dortmund, a custar o afastamento da Taça dos Campeões de 1963/64, José Augusto teve a consolação de ser chamado duas vezes para uma seleção da Europa, uma em Copenhaga, a assinalar os 75 anos da Federação Dinamarquesa, e outra em Belgrado, numa partida de solidariedade para com as vítimas de um terramoto que assolara Skopje. No plano competitivo, os encarnados voltaram a chegar à final da Taça dos Campeões em 1965. José Augusto fez cinco golos na campanha (bis aos suíços do La Chaux de Fonds) e esteve em todos os jogos, incluindo a final de San Siro, na qual a equipa portuguesa foi batida pelo Inter, por 1-0, com o famoso frango de Costa Pereira, que depois se disse lesionado, levando Germano para a baliza e regressando a Portugal numa cadeira de rodas.

Ao mesmo tempo, era totalista na seleção nacional que conseguira a primeira qualificação para a fase final de um Mundial. Em Inglaterra, depois de uma época fracassada no plano nacional – o regresso de Guttmann não valeu ao Benfica mais que um segundo lugar, a um ponto do Sporting, e as eliminações nos quartos-de-final da Taça de Portugal e da Taça dos Campeões, por Sp. Braga e Manchester United -, José Augusto apresentou-se em grande forma. Tinha feito dez golos no campeonato e quatro na Taça dos Campeões, mas no Mundial entrou logo com um bis à Hungria (3-1 para Portugal). Ainda marcou um golo na história reviravolta contra a Coreia do Norte (de 0-3 para 5-3, com póquer de Eusébio), deixando os relvados ingleses com excelente imagem e uma medalha de terceiro classificado. José Augusto ainda faria mais dez jogos pela seleção depois do Mundial, incluindo a campanha (fracassada) de qualificação para o Europeu de 1968 e o arranque do apuramento para o Mundial de 1970. Despediu-se a 11 de Dezembro de 1968, com um golo, na derrota portuguesa frente à Grécia, em Atenas (2-4).

Por essa altura, já era de novo bicampeão nacional, estando a caminho do “tri”, que conquistaria pela segunda vez em 1969. A sua produção goleadora, porém, estava a decair. Ainda fez nove golos em 1966/67 (incluindo um hat-trick, nuns 7-0 ao V. Guimarães, em Fevereiro), aos quais somou mais um na Taça de Portugal e outro na Taça das Cidades com Feira. Em 1967/68 já não foi além dos quatro golos na Liga, aos quais somou cinco na Taça de Portugal (incluindo um bis ao Barreirense, nos quartos-de-final) e um ao St. Etiènne na caminhada até à sua quinta final da Taça dos Campeões. Jogou-a, na plenitude dos 120 minutos que foram necessários para separar Benfica e Manchester United, mas saiu de Wembley vergado à derrota por 4-1 que significava o fim da primeira geração do Benfica Europeu. Só quinze anos depois os encarnados voltariam a uma final europeia, não tendo ganho nenhuma das cinco que jogaram entretanto. O campeonato de 1968/69 foi o último que José Augusto fez como titular do Benfica. Nessa época, além de ser campeão pela oitava (e última) vez, ainda participou na final da Taça de Portugal, entrando para o lugar de Toni para jogar os últimos dez minutos e o prolongamento de uma dramática vitória por 2-1 sobre a Académica. Antes, a 12 de Fevereiro de 1969, fez o último golo europeu, na neve de Amesterdão, numa vitória por 3-1 sobre o Ajax que os holandeses acabaram por anular com um super-Cruijff na Luz. O último golo no campeonato marcou-o em Tomar, na vitória do Benfica sobre o União local (4-0), a 27 de Abril de 1969.

Ainda foi cinco vezes utilizado no campeonato e duas na Taça dos Campeões de 1969/70. Usou pela última vez a camisola do Benfica a 23 de Novembro de 1969, substituindo Diamantino ao intervalo de uma derrota em Setúbal, por 1-0, contra o Vitória. Em Fevereiro de 1970, após duas derrotas seguidas, com CUF (0-1), para o campeonato, e o V. Setúbal (2-3), na primeira mão dos 1/16 de final da Taça de Portugal, a direção decidiu prescindir dos serviços de Otto Glória e do seu adjunto, Fernando Cabrita, entregando o comando da equipa a José Augusto. A oito jornadas do fim, o Benfica seguia em terceiro, a oito pontos do líder, que era o Sporting. José Augusto empatou os dois primeiros jogos (1-1 com o Boavista no Bessa e com o Sporting no Estádio Nacional) e ganhou os outros seis, acabando a Liga em segundo lugar, sempre a oito pontos do campeão, que foi a equipa leonina. Na Taça de Portugal fez melhor, chegando à final e ganhando-a, contra o Sporting, por 3-1. Estava lançado como treinador aquele que tinha sido um notável extremo-direito. Ainda ficou no Benfica, como adjunto de Jimmy Hagan, até ser escolhido como o mais jovem selecionador nacional de sempre: dirigiu a equipa pela primeira vez em Março de 1972, com 34 anos, numa vitória por 4-0 sobre Chipre com que arrancava a qualificação para o Mundial de 1974. Além da seleção nacional de seniores, que comandou até à final da MiniCopa de 1972, no Brasil, e à qual regressou em 1983, como membro da comissão técnica que a dirigiu no Europeu de 1984, José Augusto foi ainda selecionador de juniores em meados da década de 80 (tendo Carlos Queiroz como adjunto). A nível de clubes, treinou o V. Setúbal, o Barreirense, o Farense, o Portimonense, o Amora, o Penafiel, o Alverca ou o Logroñés, de Espanha, encerrando a carreira em 2007, como selecionador nacional de futebol feminino.