Chegou a Portugal com 31 anos, mas ainda veio a tempo de deixar marcas. Campeão no Sporting, representou ainda o Farense e o V. Setúbal, onde reencontrou vários ex-colegas de Alvalade e voltou mesmo à seleção.
2016-04-11

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1970

Quando chegou a Lisboa para treinar o Sporting, Malcolm Allison trazia uma carta na manga. Queria contratar Ferenc Mészáros, um guarda-redes húngaro que já tinha visto nas provas europeias e ao serviço da seleção e que reputava de “excecional”. João Rocha, à altura presidente leonino, pagou os sete mil contos que o Vasas de Budapeste pedia pelo guardião de farta cabeleira e bigode, que já tinha 31 anos, e não se arrependeu, pois o novo recruta foi uma das armas fundamentais na dobradinha que os leões conquistaram logo na sua primeira época. Pelo que defendia, sim, mas também pela compreensão que tinha do jogo e que o fazia ser um dos principais lançadores de ataques no futebol rápido e explosivo de Big Mal.

Mészáros já chegou a Lisboa como um consagrado. Era várias vezes internacional pela Hungria, que à data ainda figurava com regularidade nas grandes competições internacionais, tendo mesmo já estado no Mundial de 1978. Tinha também sido campeão húngaro, pelo Vasas, em 1977. Mas nunca como agora fez com que se falasse nele. O jovem Ferenc chegara à I Divisão húngara na baliza do VM Egyetertés, uma das muitas equipas de Budapeste, com apenas 18 anos. Desceu de divisão, mas assinou de imediato pelo Vasas, tendo ganho a primeira competição logo na época de estreia: foi um Mészáros ainda sem bigode que ajudou a sua nova equipa a ganhar a Mitropa Cup, torneio de Verão que mantinha ocupadas várias equipas do centro da Europa, com um 4-1 na final contra o Inter de Bratislava. Isso não lhe permitiu assegurar desde logo a titularidade no Vasas, no entanto, dada a forte concorrência de Tamás Gyula, o guarda-redes titular na final da Taça da Hungria, em 1973, em que o Vasas bateu o Honved por 4-3.

Só depois do Verão de 1973 conseguiu verdadeiramente afirmar-se, levando Rudolf Illovszky a chamá-lo à seleção e a estreá-lo, numa visita à Jugoslávia, em Belgrado, que acabou empatada a uma bola. Foi o início de uma carreira que levou “Bubu” Mészáros a fazer 29 partidas na baliza da Hungria, incluindo presenças nas fases finais do Mundial’78 (aí contando com a rivalidade de Sandor Gujdar, o guardião do Honved, que era o preferido de Lajos Baroti, à data ainda selecionador, antes de chegar a Lisboa para treinar o Benfica) e do Mundial’82 (na qual foi titular indiscutível). A nível de clubes, porém, o Vasas ganhava pouco. Campeão em 1976/77, perdeu a final da Taça da Hungria de 1979/80 para o Diósgyöri (3-1), acabando por se despedir do clube para assinar pelo Sporting, em Junho de 1981, com uma vitória na final da mesma competição, ante o mesmo adversário, desta vez por 1-0, graças a um golo de Iszó. Quando, em Agosto de 1981, a seleção húngara veio a Portugal jogar o Torneio Cidade de Lisboa, com Benfica e Sporting, Mészáros já estava do outro lado, na baliza leonina.

O Sporting até ganhou o torneio, batendo o Benfica por 2-0 e empatando a uma bola com os húngaros, mas a estreia oficial do novo guarda-redes acabou por acontecer apenas umas semanas depois, a 22 de Agosto de 1981, frente ao Belenenses. Djão foi o primeiro a batê-lo, colocando os azuis a ganhar em Alvalade, num jogo muito polémico, que acabou com expulsões de quatro jogadores azuis, a cinco minutos do fim (Padrão, Alhinho, Pinto da Rocha e Cepeda, este no banco), por causa do penalti com que os leões chegaram ao empate (2-2). Mészáros só falhou dois dos 43 jogos oficiais do Sporting nessa época: a vitória por 3-2 no terreno do Amora, a 13 de Dezembro de 1981, na qual jogou Melo, e o 2-1 em casa ao Oliveira do Bairro, para a Taça de Portugal, a 20 de Dezembro. De resto, além de festejar o título de campeão nacional e a Taça de Portugal, ganha na final ao Sp. Braga, por 4-0, fez toda a campanha leonina na Taça UEFA, eliminando o Red Boys, do Luxemburgo, e o Southampton, de Inglaterra, e caindo à terceira eliminatória ante os suíços do Neuchatel. Mészáros manteve a importância na equipa que em 1982/83 entrou em processo de auto-destruição, com o despedimento de Malcolm Allison logo na pré-temporada. Voltou a ser o titular das redes leoninas, participando a tempo inteiro nos dois jogos da Supertaça, ganha ao Sp. Braga com uma derrota no Minho (1-2) e uma vitória em Alvalade (6-1). De resto, esteve na equipa que chegou aos quartos-de-final da Taça dos Campeões (só cedeu as redes a Melo nos 2-2 em Sofia, com o CSKA, por lesão contraída em Portimão, no jogo de campeonato que o impediu também de alinhar na derrota na Póvoa de Varzim, em Outubro). Em toda a temporada só por duas vezes foi suplente por opção do técnico, António Oliveira. Foi no seguimento de uma derrota por 3-0 em Braga, em finais de Março, que Oliveira o sentou no banco, mandando Fidalgo defender na receção ao Sp. Espinho (vitória por 1-0). Seguia-se a visita ao Benfica, o tal jogo em que Oliveira decidiu não estar presente, mas no qual Marinho, que lhe ocupou o lugar, manteve Fidalgo na baliza. O Sporting  perdeu por 3-0, ficou fora da Taça e na partida seguinte, no Bessa, contra o Boavista, regressou o guardião húngaro.

Ainda assim, no final da época, Mészáros não renovou contrato. O Sporting apostou no guarda-redes que lhe sucedera na seleção húngara após o Mundial de Espanha, o gigante Béla Katzirz, e o homem dos bigodes seguiu para Faro, assinando pelo Farense de Hristo Mladenov, que acabara de subir de divisão. Em Faro, dividiu a titularidade com Peres, que o treinador búlgaro passou a preferir após a derrota em casa com o Sporting, no fim da primeira volta (1-2), em finais de Janeiro. Só que duas “chapas 7” consecutivas, dois meses depois, mudaram tudo. Primeiro, os 7-2 em casa com o Benfica, com Mészáros no banco, custaram o lugar a Mladenov. Depois, na estreia como técnico principal, Manuel Cajuda manteve a aposta em Peres, mas os 7-1 encaixados nas Antas com o FC Porto levaram-no a chamar de novo o húngaro. O Farense ainda empatou dois e ganhou um dos sete últimos jogos, conseguindo a manutenção à tangente – porque Estoril e Penafiel também perderam na última jornada – mas Mészáros acabou por regressar a casa. Em 1984, assinou pelo Raba Eto Gyor, onde jogou duas temporadas até se deixar seduzir de novo por Portugal e pelo V. Setúbal e por Malcolm Allison.

Mészáros regressou com 36 anos e para jogar na II Divisão. Poderia pensar-se numa reforma dourada, mas o reencontro com o treinador que o trouxera pela primeira vez fê-lo rejuvenescer. O Vitória ganhou a Zona Sul com uma facilidade impressionante – nove pontos de avanço sobre o E. Amadora, numa altura em que a vitória só valia dois pontos – e subiu ao escalão principal, no qual o guarda-redes húngaro reentrou a 23 de Agosto de 1987, com uma vitória por 3-0 sobre a Académica, no Bonfim. À segunda jornada, um sucesso frente ao Benfica, na Luz (1-0) tê-lo-á feito regressar ao tempo em que lutava por títulos, até porque a seu lado estavam Manuel Fernandes e Zezinho, dois ex-colegas no Sporting. E mais tarde haveriam de juntar-se-lhes ainda Jordão e Eurico. Com Neno como suplente (fez seis das 38 jornadas), Mészáros ainda desempenhou um papel importante no oitavo lugar do Vitória (com os mesmos pontos do sexto), jogando mesmo nos 2-1 ao Sporting, a 28 de Novembro de 1987. E na sequência de uma época extraordinária regressou à seleção húngara, chamado por Laszlo Balint para a 29ª e última internacionalização, um empate a duas bolas contra a Dinamarca, em Budapeste, a 10 de Maio de 1988. Na outra baliza, nessa tarde no Nepstadion, estava Peter Schmeichel, o guarda-redes que 12 anos depois viria a ser importante na interrupção do jejum de títulos do Sporting, que já datava desde a época de estreia de Mészáros em Alvalade.

Já com Manuel Fernandes como treinador, Mészáros foi mesmo totalista na quinta posição do V. Setúbal, em 1988/89. Despediu-se do campeonato português a 21 de Maio de 1989, aos 39 anos, com um empate a zero em Aveiro, contra o Beira Mar. Ainda treinou o Vasas Budapeste, esteve na equipa técnica de Carlos Queiroz no Sporting, como treinador de guarda-redes, e ocupou-se mesmo do Lourinhanense, quando a equipa da zona Oeste foi satélite dos leões. Não chegou porém a atingir como treinador a ínfima parte da qualidade que teve como guarda-redes. Na baliza, sim, a sua figura esguia (1,83m por 70kg) permitia-lhe uma agilidade fora do comum, que ele soube aperfeiçoar com um posicionamento quase sempre impecável e uma leitura de jogo que fazia sempre dele o primeiro atacante da sua equipa.