O maior goleador da história do Lusitano de Évora na I Divisão, José Pedro só é suplantado em total de presenças pelo guarda-redes Vital. Franzino e tenaz, foi a garantia da manutenção até não poder mais. E quando ele não podia, mais ninguém pôde.
2016-04-10

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1954

Tempos houve em que o Alentejo tinha espaço no primeiro escalão do futebol nacional e o Lusitano de Évora era uma das equipas a ter sempre em conta pelos grandes, que sofriam à passagem pelo Campo Estrela. Nesses tempos, boa parte da equipa era composta por alentejanos, que tinham um caráter próprio, daqueles lutadores, habituados às dificuldades. José Pedro, um franzino extremo esquerdo natural de Mora, ali bem perto de Évora, era um desses jogadores e por isso mesmo se tornou o maior goleador de toda a história do Lusitano na I Divisão e o segundo homem que mais vezes envergou a camisola verde e branca naquele escalão, superado apenas pelo guarda-redes Vital.

Chegado ao Lusitano aos 20 anos, depois de se revelar no Luso Morense, da sua terra natal, José Pedro não teve entrada direta na primeira equipa liderada pelo argentino Anselmo Pisa, aquele que mais tarde veio a ser treinador interino do Sporting. Teve de esperar até 11 de Janeiro de 1953 para jogar, lançado por Pisa numa partida da qual, além da estreia, saiu sem gratas recordações, pois o Lusitano foi batido em Coimbra pela Académica por claros 4-0. O miúdo, porém, não desagradou e ficou entre os titulares para o jogo seguinte, a vitória caseira frente ao Atlético, por 1-0. E ao terceiro jogo, a 25 de Janeiro, fez o primeiro golo, ainda por cima decisivo: a 13 minutos do fim aproveitou um passe de Athos para carimbar novo sucesso por 1-0, desta vez frente ao Estoril. O extremo franzino e veloz estava lançado. Ainda saiu da equipa em Fevereiro, mas aí nem o possante Patalino foi capaz de inspirar os alentejanos, que nesses três jogos não fizeram um único golo. José Pedro ainda marcaria mais uma vez num campeonato que o Lusitano acabou em sétimo lugar e outra na Taça de Portugal, num empate a duas bolas que o Lusitano arrancou em Alvalade frente ao Sporting. O suficiente para, fruto da desistência leonina antes da segunda mão (iam jogar a Taça Latina), a equipa alentejana chegar às meias-finais, onde caiu, eliminada pelo FC Porto.

A troca de treinador no final da época, com a chegada de Domingos Garcia, não favoreceu particularmente José Pedro, que começou o campeonato fora do onze. Por pouco tempo, porém. À sétima jornada ocupou o lugar que até aí vinha sendo de Soeiro e respondeu com golos à confiança nele depositada. Foram, ao todo, oito num campeonato que o Lusitano acabou na décima posição, entre eles mais um ao Sporting, num empate a três golos, em Évora. Fez outro na Taça de Portugal, ao V. Setúbal, mas nem assim evitou a eliminação dos alentejanos logo à primeira barreira. Começava ali uma história de persistência e tenacidade, tão próprias deste jogador. Se os homens de ataque eram mais propensos a lesões e a baixas de forma ou a saídas da equipa titular, em busca de soluções para os problemas das equipas, José Pedro mostrava uma regularidade invulgar ara a posição que ocupava. Depois de ficar fora do onze a 25 de Abril de 1954, só voltou a falhar uma partida do Lusitano em Setembro de 1956, mais de dois anos depois, na abertura do campeonato, numa altura em que já era internacional.

Cândido Tavares fez de José Pedro figura da equipa de 1954/55, época na qual o extremo esquerdo marcou golos a Sporting, Benfica e FC Porto (aos dragões fê-lo mesmo no campeonato e na Taça de Portugal) e na qual se estreou na seleção B, fazendo logo à primeira dois golos numa vitória por 3-1 contra o Luxemburgo. Mês e meio depois, a 22 de Maio de 1955, chegou à seleção A, lançado por Tavares da Silva na histórica primeira vitória sobre a Inglaterra (3-1 nas Antas), sendo substituído a meio do jogo pelo sportinguista João Martins. José Pedro só haveria de jogar mais uma vez na equipa mais representativa do país, a substituir o belenense Dimas em novo sucesso por 3-1, desta vez contra a Turquia, no Estádio Nacional. Por essa altura continuava a ser elemento chave – e totalista, também – na equipa do Lusitano que Severiano Correia conduziu ao oitavo lugar da Liga portuguesa, prova na qual voltou a fazer golos decisivos, com um que garantiu aos alentejanos um empate a uma bola com o Benfica, na Luz. Só em 1956/57 José Pedro andou arredado das primeiras escolhas de Otto Bumbel, o técnico brasileiro que o Lusitano foi buscar às Honduras, que mais tarde haveria de dirigir o FC Porto e que em Évora optou mais vezes por Batalha para a posição de extremo-esquerdo. Ainda assim, o veloz morense ainda marcou num empate frente ao Sporting (1-1) em Alvalade. Convencido, Bumbel já fez de José Pedro uma das armas no sexto lugar final do Lusitano em 1957/58, tendo ele contribuído com um golo de penalti para os redondos 4-0 com que os alentejanos ganharam em casa ao Benfica, à oitava jornada. Não foi a última grande época de José Pedro, que ainda somou dez golos na Liga de 1958/59 (mais quatro na campanha que levou os alentejanos até às meias-finais da Taça de Portugal), mas começavam ali as dificuldades para o Lusitano andar na metade superior da tabela classificativa. Dificuldades essas que anos mais tarde redundaram na despromoção da qual o clube nunca mais recuperou.

Com o treinador espanhol Lorenzo Ausina, o Lusitano ainda fez um nono e um décimo lugar. Na segunda destas épocas, José Pedro foi mais poupado nos golos no campeonato – só marcou dois – mas abriu os portões na Taça de Portugal, com dois póqueres nas partidas da primeira eliminatória, duas goleadas contra o Arroios. A propensão do extremo para os golos viria a dar mais jeito em Maio de 1962: já depois de ter feito os 30 anos, bisou na vitória por 4-1 sobre o V. Guimarães que garantiu à equipa liderada por Umberto Buccheli o direito a jogar a Liguilha através da qual viria a evitar a descida à II Divisão, castigando Sp. Braga e Beira Mar. O Lusitano ainda fez um sétimo lugar em 1962/63, com Josef Fabián à frente da equipa e José Pedro a marcar nos dois jogos com o Benfica (ambos perdidos, no entanto), mas a ponta final da carreira do extremo foi sempre a lutar contra a despromoção. Em Abril de 1964, numa época na qual voltou a brilhar na Taça de Portugal, com nove golos em seis jogos, marcou na penúltima jornada o tento solitário que valeu a vitória por 1-0 contra o Barreirense e a manutenção, em detrimento do Seixal, que teve de batalhar mais umas semanas na Liguilha. Ao 11º lugar de 1964 seguiu-se um 12º em 1965 e a descida de divisão em 1966. José Pedro ainda marcou na última das suas 303 partidas na I Divisão com a camisola do Lusitano, uma derrota por 3-1 com o Vitória em Guimarães, a 1 de Maio de 1966, mas isso já de nada serviu, pois a queda no segundo escalão já era por essa altura uma certeza matemática, tal era a distância para o Leixões, antepenúltimo.

Aos 34 anos, o maior goleador da história do Lusitano na I Divisão fazia também o último golo que o clube registou na prova, pois nunca mais voltou ao convívio dos grandes. José Pedro já não voltaria depois das férias. Acabava ali uma ligação à qual não faltaram momentos de alegria mas que bem merecia ter tido um título para amostra, não tivesse ele colocado sempre o Lusitano à frente de tudo. A dedicação que teve pelo clube é bem visível neste facto: entre Setembro de 1960 e Novembro de 1965 só não esteve em dois jogos de I Divisão, as derrotas com a CUF (Fevereiro de 1962) e o V. Guimarães (Fevereiro de 1965). Se o Lusitano ainda prolongou a permanência entre os grandes durante esse período, foi muito ao extremo de Mora que o deveu. José Pedro jogou ainda no Juventude de Évora e no Atlético de Reguengos, vindo a falecer um dia antes de completar 84 anos.