Guarda-redes elástico, Tibi nasceu entre os bebés do Leixões e fez uma época nas balizas do FC Porto, sobretudo na primeira metade da década de 70. Chegou à seleção, mas teve o azar de sair das Antas nos anos dos títulos nacionais.
2016-04-09

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1969

A frase ficou na memória de uma geração. O “Vai buscar Tibi!” ouvia-se em todas as peladas nas pracetas e nos baldios de Portugal em finais dos anos 70. A culpa era de Gomes Amaro, o brasileiro que relatava os jogos do FC Porto no Quadrante Norte, dos Emissores Reunidos, e de Tibi, o guarda-redes elástico que por aqueles tempos brilhava na baliza portista, depois de se ter destacado no Leixões. E no entanto aquela frase, somada ao “agora não adianta chorar” com que Amaro fechava o relato de todos os golos na baliza portista, não fazia justiça a um homem que sempre foi um foco de atenção por ter sido um excelente guarda-redes, a ponto de ter chegado à seleção nacional. Tibi era um guarda-redes de engate, é verdade, por vezes inconstante, como se prova pela relação difícil que manteve com Pedroto, mas fez muito mais grandes defesas do que os golos que foi sofrendo na sua longa carreira.

Natural de Matosinhos, Tibi cresceu no Leixões, que na altura acarinhava os seus “Bebés” de uma forma exemplar. Era ainda júnior quando António Teixeira o chamou ao plantel sénior, levando-o a deixar a oficina onde era aprendiz de mecânico. Estreou-se a 14 de Dezembro de 1969, com 18 anos e meio, entrando para o lugar de Ferreira, o titular, que se magoara, a 22 minutos do fim de uma partida no Estádio do Mar contra o Boavista. Entrou com 5-1 no placard de um jogo que acabou em 6-2, sofrendo logo ali o primeiro golo, marcado por Germano, num remate de longe. Em Janeiro, teve a segunda experiência: numa visita ao Benfica, Ferreira lesionou-se logo aos 12 minutos, na sequência do primeiro golo dos encarnados. Tibi entrou e sofreu mais dois, ambos de Torres. Titular pela primeira vez a 18 de Janeiro, numa vitória em casa contra o Sp. Braga (2-1), ganhou definitivamente o lugar a partir de inícios de Março. Nas últimas jornadas, sofreu seis golos, mas cinco deles foram na despedida, frente ao Sporting, que se sagrara campeão nacional. Nesse final de época, manteve por três vezes a baliza em branco, uma das quais na vitória frente ao FC Porto (2-0). E juntou-lhes mais quatro redes virgens na caminhada leixonense na Taça de Portugal, interrompida nas meias-finais com uns retumbantes 8-0 encaixados no Estádio da Luz, contra o Benfica.

Tibi estava lançado. Na segunda época, com António Medeiros aos comandos, já foi totalista na época em que o Leixões lutou até final para escapar à descida de divisão. Como o foi também na confusão em que se transformou a sua terceira época, com quatro treinadores e a descida de divisão final. O matosinhense, porém, não acompanharia os colegas na viagem até ao segundo escalão: assinou pelo FC Porto, a troco de 1350 contos, ao que conta porque preferiu ficar perto de casa em vez de rumar a Lisboa, onde o Benfica também lhe acenava com uma proposta. Nas Antas, no entanto, Fernando Riera manteve a hierarquia da época anterior, segurando Rui como titular nas balizas. A cumprir serviço militar, Tibi só jogou pela primeira vez pelo novo clube em finais de Maio de 1973, na vitória caseira contra o Boavista, por 1-0. Não voltou a perder a titularidade nas redes azuis e brancas até finais de 1975: durante dois anos e meio, só falhou dois jogos da Taça de Portugal, contra o Lusitânia dos Açores e o Barreirense, em Abril de 1974. Em Setembro desse mesmo ano, estreou-se nas provas europeias, alinhando nos 4-1 contra o Wolverhampton, da Taça UEFA, na eliminatória que os dragões superaram antes de serem eliminados pelo Napoli. E em Novembro chegou à seleção nacional, lançado por José Maria Pedroto ao intervalo de um jogo com a Suíça, em Berna, que os portugueses perderam por 3-0.

Os resultados coletivos é que não foram bons: o FC Porto de Bela Guttmann manteve em 1973/74 o quarto lugar da época anterior. E se em 1974/75 a equipa de Aimoré Moreira e Monteiro da Costa chegou à segunda posição, o cenário não melhorou em 1975/76, quando os dragões voltaram a ser quartos, mesmo com a troca de Tibi por Rui a partir de meio da época. Só com o regresso de José Maria Pedroto às Antas as coisas se comporiam. O problema para Tibi era que o “mestre” optou por pedir a contratação de um guarda-redes da sua confiança: Joaquim Torres, com quem trabalhara no V. Setúbal. A época valeu a Tibi o seu primeiro título, a Taça de Portugal, ganha na final contra o Sp. Braga, mas com Torres entre os postes – o matosinhense fez, ainda assim, dois jogos na prova, alinhando nas goleadas ao Alba (8-0) e ao Aliados de Lordelo (9-0). Além dessas duas partidas mais ou menos irrelevantes, alinhou em cinco jogos no terceiro lugar portista na Liga e, percebendo que não ia ser primeira escolha, arranjou maneira de sair para o Varzim, onde foi recebido de braços abertos por António Teixeira, o treinador que o lançara no Leixões. Era a altura de Tibi voltar a viver a realidade dos primeiros tempos, de jogos com muito trabalho e batalhas para evitar a descida de divisão. A primeira época correu-lhe bem: o Varzim chegou à meia-final da Taça de Portugal, onde foi batido pelo Sporting, e salvou-se da descida, graças também a algumas excelentes exibições do seu guarda-redes, com as que assinou nos empates a zero com o Benfica, na Póvoa, e com o Sporting, em Alvalade. A segunda, porém, acabou mal, com a descida de divisão do Famalicão, consumada na última jornada, com uma derrota por 2-0 contra o Belenenses no Restelo. Tibi, no entanto, outra vez totalista, voltou a não acompanhar os colegas na descida, pois regressou ao FC Porto.

Nos dois anos que passou fora das Antas, Tibi viu o FC Porto ser duas vezes campeão. De regresso, não teve sorte. Não só os dragões não ganharam nada em 1979/80, como o matosinhense não fez um minuto em campo, acumulando jogos como suplente de Fonseca. Só voltou a jogar quando, na sequência do Verão Quente de 1980, Pedroto saiu. Hermann Stessl começou por manter a aposta em Fonseca, mas depois de um empate caseiro com o Penafiel – de Oliveira – promoveu a troca nas balizas, chamando Tibi a 10 de Dezembro, para uma vitória por 2-0 contra o Académico de Viseu. A partir dessa tarde, Tibi alinhou uma série de jogos sem sofrer golos: entre campeonato e Taça de Portugal, foram 872 minutos sem sofrer golos até ser batido por Júlio, numa vitória sobre o Boavista, a 14 de Fevereiro de 1981. A ponta final de época, que conduziu o FC Porto ao segundo lugar e à final da Taça de Portugal, perdida contra o Benfica, por 3-1, levou de novo Tibi à seleção: obteve a segunda e última internacionalização a 20 de Junho de 1981, numa vitória por 2-0 frente à Espanha no Estádio das Antas. Só que nem isso lhe valeu de muito quando começou a nova época e Stessl voltou a optar por Fonseca.

Após um ano sem jogar um minuto (em nenhuma competição), Tibi voltou a deixar o clube, desta vez de forma definitiva. Assinou pelo Leixões, onde fez uma época na Zona Norte da II Divisão, e seguiu depois para o Recreio de Águeda, que acabara de subir ao escalão principal, e onde dividiu a baliza com Luz. Ainda fez 21 jogos no campeonato (e mais três na Taça de Portugal), despedindo-se a 13 de Maio de 1984, com uma derrota por 5-1 contra o Rio Ave, em Vila do Conde, que consumava a descida da equipa à II Divisão. Desta vez, já com 33 anos, Tibi também desceu. Ainda jogou uma época no Mangualde e duas no Sp. Espinho, antes de baixar ainda mais no espetro futebolístico nacional, ao defender as redes do Maia, da terceira divisão, e do Vila Nova de Foz Côa, no regional da Guarda. O futebol acabou, mas Tibi manteve a popularidade em Matosinhos, onde é dono de um café e todos o conhecem como o “Tibi da Bola”.