Dele se lembram por ter marcado quatro golos num só jogo pelo Sporting ao Benfica, nos célebres 4-2 na Luz, em 1965. Lourenço apresenta uma média goleadora impressionante até deixar os relvados, aos 30 anos, como forma de evitar a guerra no ultramar.
2016-04-08

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1962

Ficou na história do Sporting e do futebol português como o homem do póquer na Luz, símbolo da sua predisposição para as tardes perfeitas, como aquela em que fez seis golos ao Barreirense, ainda com as cores da Académica. Finalizador imaculado, de uma frieza extraordinária, o seu nome foi sinónimo de golo em todos os clubes por onde passou: o Ginásio de Alcobaça dos tempos iniciais, a Académica da afirmação e o Sporting que só não o levou à seleção nacional porque ao mesmo tempo havia Eusébio e Torres e aqueles não eram tempos muito dados a experiências. Essa é ao mesmo tempo a maior mágoa da sua carreira e uma injustiça, pois Lourenço foi o único convocado para o Mundial de 1966 a nunca ter jogado pela equipa de todos nós.

O talento para o golo revelou-o no clube da terra, o Ginásio de Alcobaça, que ajudou na primeira época de sénior na frustrada tentativa de subir à II Divisão. Mesmo assim, aos 19 anos estava em Coimbra, para estudar e jogar na Académica, do escalão principal. Alberto Gomes não lhe deu a titularidade nas primeiras três jornadas, preferindo colocar Miranda ao lado do goleador Gaio, mas a 29 de Outubro de 1961 chamou o jovem de Alcobaça ao onze para a receção ao Belenenses. E ele respondeu à altura, levando apenas 18 minutos a fazer o seu primeiro golo oficial de negro vestido: bateu José Pereira, o “Pássaro Azul” a passe de Crispim, na altura para colocar os estudantes a vencer por 2-0. O jogo acabou com 2-1 para a Académica e Lourenço ficou na equipa até final do campeonato, acabando por marcar oito golos, entre os quais um bis ao Beira Mar e um hat-trick ao Leixões. Fez mais três na Taça de Portugal, pelo que, à chegada, o novo treinador, José Maria Pedroto, olhou para ele como um dos titulares da equipa que queria construir.

A segunda época de Lourenço em Coimbra terá sido a melhor da sua carreira. Foi, pelo menos, aquela em que fez mais golos no campeonato. Foram, ao todo, 23 em 21 jogos, que lhe permitiram liderar a lista de goleadores, ganha no fim pelo benfiquista José Torres, que marcou 26. A equipa de Coimbra acabou a Liga num modesto décimo lugar mas, além dos tais seis golos ao Barreirense – a 7 de Abril de 1963, um dia antes de fazer 21 anos – Lourenço ainda marcou cinco num só jogo ao Farense e, sobretudo, três ao Sporting, em finais de Dezembro de 1962, numa partida ganha pelos estudantes por 4-3. Com mais seis golos na Taça de Portugal, foi ainda assim incapaz de ajudar a Académica a passar da terceira eliminatória, pois não esteve na derrota por 3-1 que implicou a queda aos pés do V. Guimarães. Por essa altura, já Lourenço se tinha estreado na seleção nacional de “promessas”, as antepassadas dos atuais sub-21, numa equipa que ganhou à Grécia por 2-1 no Jamor, em partida amigável, e na qual alinhavam outros futuros “Magriços”, como José Carlos ou Jaime Graça.

Com muito menos jogos em 1963/64, Lourenço ainda marcou oito golos, um deles na última vez que vestiu a camisola da Académica, a 19 de Abril de 1964, numa derrota caseira com o Leixões (2-3). Foi, ainda assim, pelo segundo ano consecutivo, o melhor marcador da equipa na Liga. Depois das férias veio a polémica transferência para o Sporting, que lhe prometeu 300 contos de prémio de assinatura, quatro contos por mês de ordenado e 50 contos por ano, em luvas. Não gostou a Académica, que tentou impugnar a mudança, mas sem sucesso. A demora das negociações fez com que Lourenço só se estreasse pelos leões em Dezembro, num empate a uma bola com o Lusitano em Évora. O primeiro golo demorou a chegar e haveria de o fazer precisamente na baliza da Académica, num jogo em Alvalade, a 3 de Janeiro de 1965, que os estudantes ganharam com alguma surpresa por 4-2. Até final do campeonato, Lourenço ainda marcou ao Benfica (2-2 em Alvalade), bisou frente ao FC Porto (vitória por 3-1 nas Antas) e conseguiu o primeiro póquer de leão ao peito (nos 4-0 ao Torreense), mas o Sporting não foi além do quinto lugar no campeonato, dois pontos atrás da Académica. O avançado de Alcobaça marcou mais dez golos na Taça de Portugal, mas nem o seu bis ao V. Setúbal (empate a duas bolas no Bonfim) impediu a eliminação leonina ao terceiro jogo das meias-finais.

Melhores tempos estavam para chegar, com o regresso de Juca ao comando técnico dos leões. Lourenço voltou a arrancar tarde com a conta goleadora – fez o primeiro à quarta jornada, já em Outubro de 1965 – mas acabou por formar com Figueiredo uma dupla infernal, que foi arma de peso para a conquista do seu primeiro título nacional, impedindo o tetra-campeonato do Benfica de Eusébio. Em meados de Outubro, com quatro golos marcados a Melo, na Luz, garantiu a primeira vitória do Sporting no terreno do eterno rival (4-2) e um lugar na história do dérbi de Lisboa. Aos 19 golos no campeonato juntou mais quatro na Taça de Portugal (prova na qual o Sporting voltou a cair nas meias-finais, desta vez contra o Sp. Braga e sem ele em campo) e seis na Taça das Cidades com Feira. Neste aspeto, Lourenço voltou a cumprir a tradição de marcar na estreia: a 6 de Outubro de 1965, fez dois dos seis golos do Sporting ao Bordeaux (vitória por 6-1) no seu primeiro jogo nas provas da UEFA. Começava ali uma história de sucesso, pois Lourenço acabou por se tornar o melhor marcador do Sporting nas competições europeias até ser superado por Manuel Fernandes e Liedson, ambos com mais jogos do que ele.

Chegado o fim da época, o avançado de Alcobaça figurava naturalmente entre os convocados por Manuel da Luz Afonso para a fase final do Mundial de 1966. Jogou em Junho – e marcou um golo – contra a Noruega, pela seleção B, e passou o mês de Julho em Inglaterra com os “Magriços”, não chegando, porém, a alinhar. Nem nesse campeonato do Mundo nem em nenhuma partida futura da seleção principal, apesar das boas épocas que ainda fez pelo Sporting, sobretudo quando por Alvalade passou Fernando Caiado. De regresso do Mundial, em 1966/67, jogou pouco, só se falando dele por causa de um hat-trick ao Varzim, já em Abril. Mas com a chegada de Caiado a Alvalade voltou a ser Lourenço o maior goleador do Sporting. Marcou 19 golos no campeonato de 1967/68 (mais um na Taça de Portugal e dois na Taça das Feiras), em que o Sporting voltou a ser segundo classificado, depois da modesta quarta posição da época em que defendeu o título. E juntou-lhes mais 16 em 1968/69, com hat-tricks ao Sp. Braga e ao Varzim. Os seis golos na Taça de Portugal dessa época foram todos marcados aos guineenses da UDIB, ainda que divididos pelos dois jogos, que se saldaram num total de 17-1 para o Sporting. Os leões viram ainda assim adiado o sonho de Lourenço chegar a uma final da competição, sendo eliminados nas meias-finais, com duas derrotas ante a Académica.

No final da época, chegou a Alvalade Fernando Vaz, o treinador que acabaria por impedir nova tentativa do Benfica chegar ao tetracampeonato. Na época da estreia das substituições regulares, Lourenço já começava muitos jogos no banco, fazia outros a fechar a esquerda, em trocas posicionais com Peres, sendo Nelson o avançado de referência dos leões. Ainda assim acabou por contribuir com seis golos para o título de campeão dos leões. Marcou, por exemplo, nas duas vitórias tangenciais contra o FC Porto: 2-1 em casa, depois de saltar do banco para substituir Pedras, e 1-0 nas Antas, num jogo que começou como titular mas em que deu o lugar a Chico Faria a meio da segunda parte. Somou mais quatro golos na Taça de Portugal, conseguindo por fim jogar uma final: substituiu Nelson antes do intervalo, na derrota por 3-1 contra o Benfica, ficando mais uma vez a pouca distância de poder erguer o troféu. Acabaria por vencer a prova em 1971, mas aí não chegou a alinhar na final, em que os leões ganharam ao mesmo Benfica por 4-1. Contribuiu com sete golos para a equipa lá chegar, no entanto, seis dos quais nos 21-0 aos cabo-verdianos do Mindelense, a 25 de Maio de 1971, que ainda constituem a maior goleada da história da competição. O futebol de Lourenço, feito de frieza e capacidade de finalização, mostrava-se mais eficaz nos jogos em que o Sporting tinha mais volume ofensivo. Eram por isso vulgares as suas proezas nos jogos contra opositores mais débeis, como os quatro golos que, também nessa época, fez aos malteses do Floriana, num jogo que o Sporting ganhou por 5-0.

O problema para Lourenço foi que, em 1971, chegou a Alvalade o argentino Hector Yazalde, provavelmente o maior goleador leonino desde Peyroteo. Na época em que completou 30 anos, tanto Fernando Vaz como Mário Lino, que o substituiu em Fevereiro, já foi jogando menos, quase sempre como suplente utilizado. Ainda fez quatro golos, o último dos quais na que foi o sua último desafio de campeonato: a 28 de Maio de 1972, abriu o ativo numa vitória por 2-0 sobre o U. Tomar, em Alvalade. Já não jogaria a última partida da época, nova final da Taça de Portugal, que os leões voltaram a perder para o Benfica, desta vez por 3-2. Finda a temporada, sendo oficial do exército, quis evitar a incorporação posterior na guerra do Ultramar e aceitou o desafio do diretor da Escola Comercial e Industrial de Cabinda, que era um sportinguista de Coimbra, para fixar residência em Angola, onde foi professor e, mais tarde, chefe de vendas da Varig, a companhia de aviação brasileira, desempenhando ainda funções de treinador do FC Luanda. Depois de voltar a Portugal, na sequência do 25 de Abril, ainda se viu forçado a emigrar, por falta de empregos: foi para o Canadá, de onde regressou na década de 80, tendo ainda assim sido campeão de futebol do Quebec enquanto por lá esteve.