Quase duas décadas de futebol de I Divisão fizeram de Frederico um dos nomes incontornáveis dos estádios nacionais. Campeão no Benfica, seguiu depois João Alves para o Boavista, o V. Guimarães e o E. Amadora.
2016-04-06

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1977

Aguentar quase vinte anos na I Divisão não é fácil. Mas foi isso que fez Frederico, um dos últimos graduados na “universidade do futebol” do Barreiro, que tantos craques deu aos relvados nacionais. Muitos se lembram dele como campeão nacional pelo Benfica, no início da década de 80, ou então como internacional no milagre de Estugarda, em 1985. Mas a história de Frederico Rosa no topo do futebol nacional começou dez anos antes, em Dezembro de 1975, com a camisola da CUF, e só viria a terminar quase dez anos depois, em Junho de 1994, ao serviço do Estrela da Amadora. Foram mais de 350 jogos que o tornam um fenómeno de durabilidade só possível porque ao futebol físico, de marcação, juntou sempre uma leitura de jogo ímpar, que lhe permitia brilhar em antecipação, mesmo quando a velocidade já não era a mesma.

Frederico nasceu em Castro Verde em Fevereiro de 1957, mas só a 6 de Abril foi registado. Eram assim as coisas no Alentejo profundo por aqueles tempos. Começou a jogar nas camadas jovens da CUF, ainda antes do 25 de Abril, porque o Barreiro era o destino preferencial dos alentejanos que procuravam o trabalho que não havia nas suas terras. O jeito para o futebol levou-o à CUF, que por essa altura ainda era a maior potência desportiva da zona. Fez o percurso nas camadas jovens e, dias antes do Natal, Mário João levou-o pela primeira vez para o banco num jogo de I Divisão. A derrota por 3-0 contra o Sporting, no Barreiro, foi agravada pela expulsão de Castro, que o impedia de estar na partida seguinte, uma visita ao Boavista. Ao quarto-de-hora da segunda parte, com 6-0 no marcador, o outro defesa-central titular, Vicente, magoou-se. Não era propriamente a estreia de sonho para aquele rapaz de 18 anos, mas Frederico lá entrou para fazer os possíveis. João Alves, que viria a ser figura tutelar da sua carreira no futuro, ainda fez mais um golo e uma assistência, tendo Trindade fixado os 9-0 finais que marcaram a atualidade naquele dia 28 de Dezembro. Frederico ainda voltou para o banco na partida seguinte, a derrota em casa com o Leixões, logo após o ano novo, entrando a seguir nas primeiras escolhas de Mário João e também de Francisco Abalroado, que o substituiu em Março na vã tentativa de evitar a descida de divisão.

Frederico esteve, com Carlos Manuel, na equipa que em 1976/77 ficou a um ponto do regresso ao primeiro escalão, sendo batida ao sprint pelo Marítimo na corrida à vitória na Zona Sul da II Divisão. Mas em 1978, depois do quinto lugar da CUF, foi alvo da cobiça do Barreirense, que conseguira subir ao escalão principal. Com ele seguiram para o D. Manuel de Melo Carlos Manuel e Araújo. Manuel de Oliveira, o histórico treinador que conduzira a CUF em jornadas europeias de glória, era o treinador e não hesitou em construir a equipa em torno de jogadores com ligação ao rival, como os três citados ou o veterano Arnaldo. Frederico esteve em todos os desafios do Barreirense nesse campeonato, incluindo a vitória por 1-0 sobre o Sporting, no Barreiro (só falhou mesmo a eliminação da Taça de Portugal, aos pés do Gil Vicente), e fez os seus primeiros golos no escalão principal. Ainda por cima golos que valeram pontos. Frederico marcou o primeiro da carreira numa recarga a Carlos Manuel, a 31 de Março de 1979, dando vantagem ao Barreirense num jogo que acabaria empatado (1-1), contra o V. Guimarães, sendo depois dele o golo da última vitória do clube na I Divisão, um 1-0 ao Ac. Viseu, a 3 de Junho, que não chegou para evitar a despromoção.

Apesar de tudo, tanto Frederico como Carlos Manuel seguiram no final da época para o Benfica, com a aprovação de José Augusto, uma das maiores glórias desportivas dos dois clubes, que acabara a temporada como responsável do Barreirense. Na Luz, a concorrência era muito mais feroz. Havia Humberto Coelho, Carlos Alhinho, Laranjeira… Tudo internacionais, à disposição de Mário Wilson. Por isso, ao contrário de Carlos Manuel, que se impôs ao fim de um par de meses, Frederico não conseguiu mais do que umas idas ao banco de suplentes. Jogou apenas duas partidas em toda a época, mas uma delas foi importante e garantiu-lhe um troféu. Estreou-se na Taça de Portugal, a 23 de Dezembro de 1979, numa partida contra o Tadim. Desta vez, porém, esteve do lado certo dos 9-0 com que o jogo acabou. E só voltou a jogar oficialmente a 7 de Junho de 1980, na final da prova: Alberto lesionou-se logo aos 9 minutos e Mário Wilson chamou Frederico entrou para o lugar do lateral, ajudando à vitória sobre o FC Porto, por 1-0. A prova de fogo superada valeu-lhe a subida na consideração do novo treinador, o húngaro Lajos Baroti, que lhe deu a titularidade à segunda ronda do campeonato, quando Humberto Coelho se magoou. Como ao regresso do capitão se sucedeu uma lesão de Laranjeira, o defesa alentejano foi ficando no onze até ele próprio baixar ao estaleiro, com uma lesão contraída em Março de 1981, aos 10’ de um jogo com a Académica em Coimbra. Voltou a tempo de jogar a final da Taça de Portugal, ganha ao FC Porto por 3-1, numa altura em que a época já lhe tinha dado o primeiro título de campeão nacional, a Supertaça – foi titular nos dois jogos com o Sporting – e a estreia nas competições europeias, um 4-0 aos turcos do Altay, em Setembro, na Luz.

O Benfica não teve pedalada para o Sporting de Malcolm Allison, em 1981/82, época que só deu a Frederico a primeira expulsão com a camisola do Benfica – num 3-1 ao Mangualde, na Taça de Portugal. E quando chegou Eriksson, foi Frederico a cair na hierarquia, passando a funcionar como suplente de Humberto e Bastos Lopes. Voltou a ser campeão nacional, mas só alinhou em sete jogos (e só três como titular), tendo como ponto alto da temporada a presença na primeira mão da final da Taça UEFA, em Bruxelas, contra o Anderlecht (derrota por 1-0), em vez de Bastos Lopes. E não jogou um minuto na Taça de Portugal, ganha na final frente ao FC Porto, já no início da época seguinte, numa altura em que Frederico já tinha seguido o seu caminho e assinado pelo Boavista. Com ele seguia, mais uma vez, João Alves, que nunca se deu particularmente bem com Eriksson e estava de novo ligado a um momento importante na carreira do defesa alentejano.

No Bessa, Frederico impôs-se naturalmente como titular na equipa que Henrique Calisto levou ao sétimo lugar, falhando oito jogos mas na sequência de uma lesão contraída na Póvoa de Varzim, em Dezembro. Duas vezes expulso, uma delas na derrota contra o Sporting em Alvalade, marcou três golos no campeonato. Haveria de lhe correr melhor a segunda época de xadrez, na qual João Alves assumiu o comando da equipa em Março e levou o Boavista à quarta posição. Frederico fez dois golos no campeonato, mais dois na Taça de Portugal, no imbróglio em que se transformaram os quartos-de-final com o Varzim. O sorteio deu jogo na Póvoa, mas os varzinistas tinham o estádio interditado e jogou-se no Bessa, com vitória axadrezada por 2-0 e um golo de Frederico. O Varzim recorreu, o Conselho de Justiça deu-lhe razão e mandou repetir o jogo, agora na Póvoa. Frederico voltou a fazer um golo, dramático, no último minuto, estabelecendo o empate a dois e levando a partida para o prolongamento, mas nessa altura Manuelzinho fez o 3-2 que eliminou a equipa de João Alves.

A regularidade que foi tendo no Boavista permitiu que Frederico chegasse à seleção nacional, numa época de 1985/86 na qual esteve em todas as partidas dos axaxdrezados. José Torres chamou-o pela primeira vez na derrota por 1-0 com a Checoslováquia, a 25 de Setembro de 1985, em Praga. Era uma espécie de despedida nacional ao Mundial de 1986, que só o milagre de Estugarda impediu: com Frederico ao lado de José António e Venâncio como tripla de defesas-centrais, Portugal foi capaz de ganhar por 1-0 à RFA em Estugarda e tirou à Suécia uma vaga no Mundial. Frederico esteve, naturalmente, entre os escolhidos de José Torres para a fase final, no México, alinhando a tempo inteiro nas três partidas de que foi feita a triste participação nacional, com o escândalo de Saltillo e a eliminação logo na primeira fase. Mesmo declarando-se indisponível para a seleção na sequência do Mundial, como todos os outros jogadores de Saltillo, regressou em Novembro de 1987 e ainda completou 18 internacionalizações, com cinco golos (incluindo um bis a Angola, em Março de 1989), até se despedir em Novembro de 1989, num empate caseiro (0-0) contra a mesma Checoslováquia que lhe assinalara a estreia.

Por essa altura já Frederico somava época sobre época de influência no Boavista, passando incólume às mudanças de treinador. Chegou a capitão de equipa em 1986 e manteve a regularidade na conturbada temporada de 1988/89, na qual nem a troca de treinador – do brasileiro Pepe para Raul Águas impediu o terceiro lugar final. Só deixou o Bessa em 1991, já com 34 anos, depois de oito temporadas em que foi quase sempre titular: a exceção foi a segunda metade de 1989/90, em que cedeu o lugar a Garrido e Valério. E saiu para Guimarães, onde João Alves assumira a posição de treinador e ainda lhe via a hipótese de ser útil ao projeto, provocando mesmo um conflito entre os dois clubes, pois o Boavista queria renovar contrato e pediu depois compensação financeira pela transferência do veterano central. No Minho, Frederico fez um excelente campeonato, pontuado com aquele que haveria de ser o seu último golo na prova: a 3 de Novembro de 1991, marcou na vitória por 3-1 sobre o Farense. Saiu no final da época, mais uma vez para seguir João Alves, desta vez para a Reboleira, onde os dois participaram no título de campeão da II Divisão de Honra e na subida de escalão do Estrela da Amadora. Aos 36 anos, Frederico entrava, mais uma vez sob o comando de Alves, o tal que lhe dera cabo da estreia, para a última época no escalão principal. Ainda fez 25 jogos no nono lugar do tricolor, despedindo-se da Liga a 2 de Junho de 1994, entrando a 10 minutos do fim para o lugar de Paulinho numa vitória por 3-1 sobre o Salgueiros.

Até final da carreira, Frederico ainda jogou uma época no Leixões, na II Divisão B, mudando-se depois para o Algarve, onde trabalhou em academias de futebol de formação e de golfe, outra das suas paixões.