O autor do golo que deu o único título de campeão nacional ao Belenenses, Rafael era um extremo possante, que nunca virava a cara à luta.
2016-04-05

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1935

O autor do golo que deu o único título de campeão nacional ao Belenenses, o possante Rafael Correia, tornou-se nessa tarde, em Elvas, figura incontornável na história do clube do da cruz de Cristo. Já não era um novato, no entanto. Por essa altura já levava mais de uma década a atravessar o Tejo, da Trafaria onde nasceu e onde fez vida depois de deixar o futebol para as Salésias, onde somava golos em cima de golos, mesmo partindo quase sempre do lugar de extremo-esquerdo. O sexto jogador com mais internacionalizações ao serviço do Belenenses foi sempre muito mais do que aquele mero desvio de um remate de Quaresma, à boca da baliza, que abriu as festividades da conquista do título.

A estreia, Rafael fê-la poucos dias depois de completar 20 anos. A 14 de Abril de 1935, na falta de Bernardo, o habitual titular, foi chamado ao onze para uma receção ao Benfica. Logo na estreia, fez um golo: levou apenas pouco mais de 20 minutos para introduzir a bola na baliza de Amaro, fazendo o 2-0 que manteria o Belenenses na corrida ao título do primeiro campeonato da Liga, a apenas um ponto do líder, que era o FC Porto e que, ainda por cima, jogava na última jornada com o Sporting. Só que o Benfica virou o jogo: ganhou por 5-3 e acabou logo ali com as esperanças azuis de vir a ganhar a prova. Rafael fez mais três jogos até ao regresso de Bernardo: a derrota em Setúbal, no encerramento da Liga, e as duas vitórias frente ao Barreirense, a superar a primeira eliminatória do Campeonato de Portugal. Não voltou a marcar e já não estava entre os escolhidos quando os azuis defrontaram o Benfica, na eliminação da competição.

Apesar de tudo, quando após o campeonato de Lisboa se jogou a segunda edição da Liga, já era Rafael o titular na frente de ataque da equipa liderada por Cândido de Oliveira. Voltou a marcar na estreia, desta vez a garantir um empate a uma bola no terreno do Boavista. Acabou a Liga com seis golos, entre os quais um bis na receção ao Boavista, e juntou-lhes mais cinco no Campeonato de Portugal, em que o Belenenses atingiu a final. Ele já tinha sido decisivo na meia final, com um golo nos 2-2 e outro nos 2-1 ao Benfica, mas não teve a mesma sorte na primeira decisão em que participou: ainda respondeu com um golo ao 1-0 do sportinguista Faustino, mas depois Pireza bisou no último quarto-de-hora e fixou o resultado final em 3-1 para os leões. Com um total de onze golos em 20 jogos, Rafael já foi, ainda assim, o melhor marcador do Belenenses nas competições nacionais. Viria a perder esse estatuto na temporada seguinte, muito por força da expulsão frente ao Carcavelinhos, a 11 de Abril de 1937, que implicou o seu afastamento até final da competição e ainda no início do Campeonato de Portugal. Como o azar de uns é a sorte de outros, José Luís aproveitou para começar a fazer golos em barda, diminuindo o peso de Rafael na produção atacante da equipa.

Só no campeonato de Lisboa de 1938/39 o atacante da Trafaria voltou a ser titular indiscutível, o que lhe valeu mesmo a chamada à seleção nacional: a 6 de Novembro de 1938, Cândido de Oliveira deu-lhe o lugar de extremo esquerdo na equipa nacional que perdeu (1-0) com a Suíça, em Lausanne. Jogou também a segunda parte da partida de retribuição, perdida por 4-2 nas Salésias, em Fevereiro de 1939, passando depois seis anos sem jogar na seleção principal. Não por falta de destaque no Belenenses: em 1938/39 fez oito golos no campeonato e três na Taça de Portugal, e em 1939/40 subiu de produtividade, com nove golos no campeonato e mais sete na Taça de Portugal, cuja final voltou a jogar e a perder. E na qual fez mais uma vez o golo belenense: o Benfica tinha chegado a 3-0 na primeira parte e o atacante belenense aproveitou um passe de Tellechea para reduzir para os 3-1 finais. Aliás, a sina das derrotas nas finais prolongou-a Rafael para 1940/41, quando voltou com o Belenenses à decisão da Taça de Portugal, desta vez para perder com o Sporting, por 4-1. Não marcou nesta final, mas tinha sido fundamental com um golo na segunda mão das meias-finais com o Benfica, que os azuis ganharam por 2-1, e outro no jogo de desempate (o Benfica vencera a primeira mão por 1-0), ganha pelo Belenenses por 3-2. Esta época, na qual Rafael fez um total de 18 golos (nove no campeonato e outros tantos na Taça de Portugal), tinha ficado marcada pelo incidente com o benfiquista Batista, que se lesionou com gravidade num choque com o extremo belenense, em Outubro de 1940, em partida do campeonato de Lisboa. A crónica do “Sports” acusava Rafael de entrada violenta, tendo mesmo levado o jogador a escrever uma carta ao diretor da revista “Stadium”, na qual apresentava a sua defesa. Seja como for, Rafael só voltou ao onze do Belenenses na terceira jornada do campeonato nacional, precisamente depois da deslocação ao terreno do Benfica.

O próprio Rafael viria a experimentar, em 1942, um longo período de ausência. Ainda esteva na vitória sobre o Sporting, à segunda jornada, a 25 de Janeiro de 1942, mas essa foi a última partida que fez na temporada, falhando por completo a campanha que levou os azuis a ganhar a Taça de Portugal, batendo na final o V. Guimarães. A maturidade permitiu-lhe, porém, regressar mais forte que nunca. Os 21 golos que fez no campeonato de 1942/43 não chegaram para o Belenenses obter mais do que o terceiro lugar que já tinha conseguido nas três temporadas anteriores, mas foram uma grande rampa de lançamento para a equipa que viria a ser campeã nacional e que começou por se impor no campeonato de Lisboa de 1943/44. O percurso ainda teve hesitações, como o sexto lugar na Liga dessa época, mas tornou-se depois pleno de sucessos. Ao terceiro lugar de 1944/45 – com 14 golos de Rafael, que na ponta final da época voltou à seleção, pela mão de Salvador do Carmo – o Belenenses somou nova vitória no campeonato de Lisboa de 1945/46 e arrancou depois para o seu único sucesso no campeonato nacional. Rafael falhou apenas dois jogos em toda a Liga, sendo um deles uma das duas derrotas que os azuis sofreram na competição – com o Olhanense, no Algarve.

Rafael esteve a 5 de Maio na vitória sobre o Benfica, que permitiu ao Belenenses superar os encarnados no primeiro lugar, e uma semana depois no 1-0 contra o FC Porto, que os manteve no topo da tabela. Nessa altura, porém, já guardava os golos para quando eles fossem mesmo importantes e necessários. Na última jornada, a equipa azul deslocava-se a Elvas e tinha de ganhar para impedir que o Benfica, que recebia o V. Guimarães, a superasse na tabela. Ao intervalo dos dois jogos, já os encarnados ganhavam tranquilamente por 2-0, enquanto que o Belenenses perdia por 1-0 com os alentejanos. Na segunda parte, porém, deu-se a reviravolta. Andrade empatou aos 66’ e o próprio Rafael marcou o 2-1, com um desvio a um remate de Quaresma, a 13 minutos do final. Chegava para ser campeão nacional e para soltar os foguetes entre os apoiantes azuis, que no dia seguinte foram em euforia receber o cortejo dos campeões ao barco em que estes fizeram a travessia do Tejo de regresso a casa. Rafael foi um dos mais vitoriados, mas percebeu que os seus dias no auge estavam a chegar ao fim. Ainda fez uma época muito razoável em 1946/47, na qual marcou o seu último golo na I Divisão: foi a 8 de Junho de 1947 e ajudou o Belenenses a derrotar o Estoril por 3-0. Ainda fez uma última partida na época seguinte – um empate a zero, em casa, com o Atlético, a 11 de Abril de 1948 – mas nessa altura já tinha encontrado o sucessor: José Narciso Pereira, o extremo que o próprio Rafael foi buscar de volta ao Trafaria, para onde este tinha saído por ver a entrada no onze muito complicada. Na sua festa de despedida, o próprio Rafael pegou em Narciso pela mão e conduziu-o à sua posição em campo. Estava entregue o testemunho.