André era um médio trabalhador, que funcionava como instigador de compromissos com a equipa. Mas não era só isso. Era ele quem explicava a mística portista a quem chegava.
2015-12-24

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1979

Quem o viu jogar associa o nome a trabalho, à dureza nascida na vida do mar. Mas quem privou com António André, o primeiro dos caxineiros a brilhar nas equipas do FC Porto que chegaram à glória europeia, sabe que ele era muito mais do que esse deixar da pele em campo. Era o campeão nas anedotas e nas brincadeiras e servia-se desse jeito folgazão para integrar os novos jogadores que chegavam: levava-os a comer em casa e era assim que lhes explicava a mística do clube. O crescimento do FC Porto nos anos 80 tem muito de André e não só do que ele fazia em campo.

António André nasceu numa família humilde que vivia da pesca. E ainda que hoje diga que se sente em paz com o mar, que fala com os peixes para encontrar tranquilidade, desde cedo viu no futebol uma forma de escapar à faina. Aos 10 anos, terminada a quarta classe, passou a ir com o pai para o mar, porque a vida numa casa com mais sete irmãos não era fácil e todos tinham de contribuir. A comparência aos treinos no Rio Ave, por isso, dependia sempre do clima: ao conjunto de quinta-feira, por exemplo, só ia se o mau tempo impedisse a saída dos barcos. Só quando assinou o primeiro contrato, com o Varzim, aos 17 anos, o pai cedeu e resolveu ajudá-lo na vontade de ser jogador de futebol. E André bem precisou de ajuda, pois depois de um título de campeão da II Divisão, em 1976, ainda com idade de júnior, não chegou a acordo para renovar e passou um ano sem jogar. “Ganhava quatro contos, quis ganhar seis, não mos deram e parei”, conta.

Teve então de começar por baixo. Um ano depois estava a jogar no Ribeirão, no distrital de Braga. Jogava a médio de ataque e marcava muitos golos, tendo contribuído de forma decisiva para a subida de divisão. Do Varzim, voltaram a lembrar-se dele. Contrataram-no, mas a tropa não lhe permitiu fixar-se na equipa, levando-o a mais um ano no Ribeirão, desta vez na III Divisão e por empréstimo. Só em 1979, aos 21 anos, chegou à I Divisão. António Teixeira levou-o para o banco nas duas primeiras jornadas e à terceira deu-lhe a estreia, chamando-o ao relvado a 20 minutos do final de um empate a uma bola com o Belenenses, em casa, a 9 de Setembro. A titularidade só chegaria um mês depois, a 21 de Outubro: o Varzim perdera quatro jogos seguidos e Teixeira deu um lugar no onze que escalonou para receber o Sp. Braga a André. O médio respondeu rápido, pois aos 7 minutos já tinha feito o golo inaugural de uma vitória por 3-2. A primeira época no topo viu-o ganhar ao Benfica – aliás nenhum dos três grandes fez sequer um golo para o campeonato na Póvoa – e marcar mais dois golos, ambos ao V. Setúbal. Um deles muito significativo, pois permitiu a vitória nos quartos-de-final da Taça de Portugal. André não jogou a meia-final e o Varzim perdeu por 2-1 com o Benfica.

A segunda época, com José Carlos aos comandos, foi pior para o Varzim, que acabou em 14º lugar e desceu de divisão. André fez mais jogos, foi o segundo melhor marcador da equipa, com quatro golos – incluindo o seu primeiro bis, num 2-0 ao Académico, a 20 de Setembro – mas isso não o impediu de regressar à II Divisão. António Teixeira, porém, devolveu a equipa poveira ao convívio dos grandes e em 1982 já André entrava de novo em campo no campeonato que mais conta. José Torres – que haveria de o levar ao Mundial do México, quatro anos depois – manteve-o como titular inamovível e André respondia com boas exibições. Um dia depois do Natal fez o que terá sido um dos golos mais emocionantes da sua carreira, porque foi marcado no dérbi com o Rio Ave e valeu a vitória por 2-1. E em Fevereiro de 1983 viu o primeiro cartão vermelho da sua carreira, por se benzer após o que considerou uma decisão errada de Miranda Dias, o árbitro. Foram, ao todo, cinco expulsões em 380 jogos de campeonato, quatro delas ao serviço do FC Porto.

A época da explosão, porém, foi a seguinte. Em 1983/84, André fez 14 golos – 10 no campeonato e quatro na Taça de Portugal – ajudando muito o Varzim de Torres a chegar ao oitavo lugar. Na memória ficam sobretudo dois jogos. Um em Vila do Conde, nos oitavos de final da Taça de Portugal, que o Varzim jogou com dez homens desde os 15 minutos, por expulsão de Belmiro. André, que tinha feito o passe para o 0-1, marcado por Valdemar, assistiu à reviravolta dos vila-condenses, mas fez, a dois minutos do fim do prolongamento, o golo que valeu a realização de um segundo jogo. Nesse, porém, o Varzim perdeu por 1-0. Perto do final da época, foram ter com ele após um treino, instando-o a dar um salto ao restaurante Praia Azul, em Vila do Conde. Lá estava gente do FC Porto, que o abordou no sentido de se transferir para as Antas no final da época. José Maria Pedroto, que já tentara levá-lo para o V. Guimarães mas esbarrara no muito dinheiro que o Varzim pedira por ele, era fã das características do jovem médio e, mesmo tendo cedido o comando da equipa portista a António Morais, devido a doença, foi vê-lo a Espinho, num jogo da última jornada. André estava com 39º de febre, mas quando soube quem lá estava para vê-lo quis jogar. O Varzim ganhou por 3-2 e André fez dois golos. No final, o presidente varzinista anunciou-lhe que estava tudo certo e ia ser jogador do FC Porto. Para festejar levou toda a equipa a jantar fora. Já estava ali uma das características que haveriam de torná-lo tão importante no novo clube.

Chegado às Antas no Verão de 1984, o médio das caxinas deparou-se com as saídas de Jaime Pacheco e Sousa, que assinaram pelo Sporting. Mesmo assim, fruto de uma lesão na pré-época, não arrancou como titular e falhou, por exemplo, os dois jogos com o Wrexham, que levaram ao afastamento prematuro dos dragões da Taça das Taças. Estreou-se a 21 de Outubro – o mesmo dia em que fora pela primeira vez titular do Varzim na I Divisão – entrando para o lugar de Frasco ao intervalo de um jogo fácil, contra o Farense, e ainda fez um golo, o quinto dos 5-0 com que os dragões se impuseram nessa tarde. A titularidade chegou um mês depois, a 25 de Novembro, numa tarde de dilúvio em que FC Porto e Sporting não saíram do 0-0 num Estádio das Antas completamente lotado. André ainda fez mais dois golos, ao Farense na segunda volta e ao Sp. Braga nos oitavos de final da Taça de Portugal que o FC Porto acabaria por perder na decisão, contra o Benfica, mas o mais importante foi mesmo o seu primeiro título de campeão nacional e a estreia na seleção, pela mão de José Torres, num particular frente à Roménia, a 30 de Janeiro de 1985, que os portugueses perderam por 3-2.

André era já elemento fixo na organização de Artur Jorge, que sabia que podia contar com ele para unir as pontas da equipa. Não espantou, por isso, que na sua segunda época o médio não tenha falhado um só minuto dos jogos do FC Porto em todas as competições. Somou os 2700 minutos do campeonato, que o FC Porto voltou a ganhar, desta vez ao sprint e beneficiando da derrota do Benfica com o Sporting, na Luz, na penúltima jornada, mas também fez por inteiro os quatro jogos da Taça de Portugal, até à eliminação frente ao Benfica, as duas da Supertaça (perdida frente ao mesmo Benfica) e as quatro da Taça dos Campeões, contra o Ajax e o Barcelona. Era uma espécie de estágio para a época de glória que aí vinha. De regresso do Mundial do México, que correu mal, e já com Jaime Pacheco e Sousa de regresso às Antas, André manteve o lugar no meio-campo do FC Porto, sendo preponderante na conquista da Taça dos Campeões Europeus, em cuja caminhada assinou quatro golos (dois ao Rabat Ajax, um ao Vitkovice e um quarto, fundamental, a garantir a vitória em casa (2-1) frente ao Dynamo Kiev, nas meias-finais.

Até final da carreira, André teve tempo para se tornar uma instituição dentro do FC Porto. E foi somando troféus. Em 1987/88 chegaram a Supertaça Europeia (ganha ao Ajax, com duas vitórias por 1-0), a Taça Intercontinental (2-1 ao Penarol, após 120 minutos de nevão em Tóquio), mais um campeonato e mais uma Taça de Portugal (1-0 ao V. Guimarães na primeira vez que pôde jogar uma final). A chegada de Quinito às Antas, em 1988, correu pior do que o esperado e os dragões não ganharam nada nessa época, mas o regresso de Artur Jorge lançou desde logo as bases para mais um campeonato ganho em 1989/90 e para a Supertaça e a Taça de Portugal de 1990/91, a época em que André foi expulso pela segunda vez na carreira, por contestar uma decisão de Jorge Coroado no último minuto de um empate do FC Porto em Famalicão. Aliás, Coroado haveria de lhe dar também o primeiro vermelho direto em 380 jogos de campeonato, numa derrota do FC Porto frente ao Gil Vicente, em Barcelos, em Maio de 1992. Em 1991/92, já com Carlos Alberto Silva a treinar, André voltou a ser campeão (foi o quinto título) e a ganhar a Supertaça, mas em 1992/93, já com 34 anos, começou a perceber que era altura de pensar no que aí vinha: acumulou mais vermelhos (dois) do que golos (só um, o último que fez na Liga, numa vitória por 4-1 em Espinho, a 18 de Outubro de 1992). Ainda somou o sexto título de campeão nacional, a que juntou a Taça de Portugal e a Supertaça de 1994, nova Supertaça e um sétimo título em 1995. A despedida fê-la a 28 de Maio de 1995, na festa de celebração do campeonato. Bobby Robson deu-lhe a titularidade e fê-lo sair à meia-hora, para entrar Kulkov e para que o tribunal das Antas lhe oferecesse a ovação a que tinha direito por onze épocas inesgotáveis.

Depois disso ainda se manteve ligado ao FC Porto, como adjunto de vários treinadores de sucesso (António Oliveira, Fernando Santos, José Mourinho…) ou, mais recentemente, a fazer “scouting”. E a ligação mais forte mantém-na por via do filho, André André, que depois de ter sido júnior do FC Porto, começou a carreira no Varzim e já chegou ao Dragão, em cuja equipa entrou com os mesmos 26 anos do pai. A ver se consegue o mesmo sucesso.