Aprendeu a marcar golos a norte, no Varzim, mas foi na CUF que se tornou um dos mais fortes atacantes nacionais. Ainda mostrou valor como treinador e é hoje presidente do V. Setúbal.
2016-04-04

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1962

Quando chegou do Norte para integrar o plantel da CUF, em 1964, traria seguramente muitos sonhos. Uns preenchidos de golos, pois destacara-se como avançado na equipa do Varzim que tão bem se portara depois da subida de divisão. Outros virados para a atividade profissional, que já tinha começado, como bate-chapas, mas com ambição de crescer. Talvez não sonhasse ainda que viria a ser treinador, com impacto, e muito menos presidente de um histórico como o V. Setúbal. Fernando, era assim que lhe chamavam, antes de o aumento de responsabilidades acrescentar o Oliveira à sua imagem pública, tinha mais para dar ao futebol do que ele próprio imaginava na inocência dos seus 20 anos.

Os golos no Vilanovense, bem perto de Oliveira do  Douro, onde nasceu, levaram-no ao Varzim, com cuja camisola se sagrou campeão nacional da II Divisão, em 1962, tinha ele 21 anos. Os “Lobos do Mar” impuseram-se ao Sp. Covilhã na Zona Norte e ao Seixal na final nacional, por 4-2. Fosse como fosse, a estreia na I Divisão estava assegurada: Fernando teve-a a 20 de Outubro de 1963, lançado por Artur Quaresma na derrota por 2-0 com a Académica, em Coimbra. E ao segundo jogo vieram os primeiros golos: assistiu Noé, a ex-glória do FC Porto que era seu companheiro de ataque, para o primeiro, e marcou ele mesmo mais dois nos 4-1 ao Barreirense que desde logo deixaram a ideia de que o Varzim estava a preparar uma época tranquila. E que colocaram o Barreiro no seu futuro. Mal ele sabia… Ao todo, Fernando fez 11 golos no campeonato, entre os quais dois bis e o tento do empate frente ao Sporting (1-1), na Póvoa. E juntou-lhe mais quatro na Taça de Portugal, três dos quais no duplo confronto com a CUF que ditou a eliminação dos poveiros.

No Barreiro, já andavam com ele debaixo de olho. A ponto de esse bis na baliza de José Maria, a 10 de Maio de 1964, ter sido o último jogo de Fernando pelo Varzim. Depois das férias apareceu de verde, pronto a liderar o ataque da equipa da CUF comandada por Manuel de Oliveira. Era o tempo da super-CUF. E Fernando mostrou-se logo à altura do desafio, sendo o melhor marcador na caminhada da equipa até ao terceiro lugar final na tabela. Destaque nos seus 17 golos para um hat-trick ao Torreense, para os bis a Sp. Braga e Académica, bem como para golos fundamentais na vitória sobre o Varzim (2-1) e no empate contra o Benfica, na Luz (1-1). Aliás, Fernando também marcou ao Benfica na Taça de Portugal, contribuindo para a vitória (2-1) que os encarnados depois reverteram com um 3-0 em casa. Ao todo, 24 golos fizeram dele uma das figuras da temporada e uma das cabeças de cartaz na estreia europeia que 1965/66 haveria de trazer.

Fernando faria, mesmo, o primeiro golo da histórica vitória sobre o Milan (2-0), no Barreiro, a 1 de Dezembro de 1965. No panorama nacional, produziu menos, sendo ainda assim o melhor marcador de uma CUF que se quedou pela nona posição da tabela: fez oito golos no campeonato – e um deles valeu o empate em casa com o FC Porto – e mais três na Taça de Portugal, incluindo um ao Sporting, que mesmo assim não impediu a eliminação. Ainda foi o principal goleador da equipa em 1966/67 – doze golos na Liga, um deles a valer à equipa de João Faia a vitória sobre o Sporting em Alvalade, por 1-0, e mais três na Taça de Portugal – mas cedeu essa posição a Capitão-Mor em 1967/68, o ano em que a CUF voltou à Taça das Cidades com Feira. E aí, apesar de nova eliminação à primeira, foi outra vez Fernando quem deu esperança à equipa do Barreiro: após uma derrota por 1-0 em Novi Sad, na ex-Jugoslávia, empatou a eliminatória logo aos 13’ da segunda partida, no Lavradio, mas apenas para ver a Vojvodina ganhar também o segundo jogo, por 3-1. Dessa época sobra-lhe ainda a história do golo ao Benfica, no jogo em que Joaquim Meirim saiu do hospital para liderar a CUF numa vitória por 2-0.

Só em 1968, quando a CUF voltou a ter alguma constância no comando técnico é que os bons resultados voltaram a surgir. Costa Pereira conduziu a equipa a um sétimo lugar, em 1968/69, tendo Fernando, que entretanto substituíra Vieira Dias como capitão de equipa, voltado a marcar ao Sporting (vitória por 1-0 no Barreiro, para o campeonato) e ao Benfica (no empate a duas bolas que ditou o afastamento dos cufistas nas meias-finais da Taça de Portugal). A meio da época seguinte, o ex-guarda-redes cedeu a posição a Carlos Silva, o que levou à passagem do nortenho para o meio-campo: a eclosão de Manuel Fernandes também terá sido uma ajuda… A 31 de Janeiro de 1971, Fernando fez o seu último golo no campeonato, acorrendo a um passe de Arnaldo para abrir o ativo numa vitória sobre a Académica (2-1). Até final da época, que a CUF acabou na oitava posição, ainda marcou um golo na Taça de Portugal, numa derrota por 5-1 frente ao FC Porto que redundou na eliminação da equipa do Barreiro. E fechou a loja.

A chegada de Fernando Caiado, em 1971, levou-o a assumir outras responsabilidades organizativas no onze. E apesar de ter feito a sua época mais preenchida – falhou apenas três jogos em todo o campeonato, que a CUF terminou num brilhante quarto lugar, por causa de uma lesão contraída na primeira jornada, contra o Tirsense – não marcou um único golo. Ainda esteve em nova campanha europeia, com a eliminação do Racing White, da Bélgica, e a queda ante o Kaiserslautern, da Alemanha, mas a partir do início de Novembro de 1972 saiu do onze, para nele dar lugar a Vítor Pereira. Despediu-se do campeonato a 31 de Dezembro de 1972, numa derrota por 1-0 frente ao Belenenses, no Restelo. Aquela seria, também, a última vez que vestia a camisola da CUF em partidas oficiais. No fim da época passou a adjunto de Caiado e, quando, em 1974, este saiu para o Sp. Espinho, assumiu ele mesmo o comando da equipa. Como treinador, liderou a CUF a um meritório oitavo lugar na difícil primeira época após o 25 de Abril, quando o clube entrou em processo de auto-destruição, acabando por assistir de longe à descida de divisão da qual nunca mais os cufistas recuperaram: foi em 1976, quando Fernando Oliveira já era adjunto de Jimmy Hagan no Sporting.

Parecia lançado para uma carreira de treinador de topo, mas tal não viria a acontecer, em grande parte porque a partir de dada altura colocou a vida de empresário à frente dos futebóis: já tinha responsabilidades na construção civil e no ramo do comércio automóvel, que não lhe davam para andar de casa às costas atrás de uma bola. Entrou no V. Setúbal, o maior clube de uma região que o adotou e que ele também passou a ver como sua quando, fruto da atividade como concessionário da Renault na cidade, foi convidado por Rui Salas e Tavares da Silva a assumir responsabilidades no clube. Tanto o fez que chegou a presidente, cargo que ainda hoje ocupa.