Era um fenómeno no futebol e no hóquei em patins. Quando o forçaram a escolher, fez a opção menos previsível e pendurou as chuteiras aos 28 anos, com sete títulos de campeão nacional no palmarés. E ainda foi campeão mundial de hóquei pela sexta vez.
2016-04-03

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1944

Muitas vezes se diz: se tivesse concentrado toda a sua energia no futebol, podia ter sido um fenómeno ainda mais imponente do que foi. Os factos, contudo, desmentem esta teoria. Jesus Correia, um dos “Cinco Violinos”, era um ponta-direita velocíssimo, dotado de um poder de remate extraordinário e de uma clarividência quase presciente quando se tratava de escolher o momento e o destino do passe. Ao mesmo tempo, jogava na que se acredita ter sido a melhor seleção nacional de hóquei em patins de todos os tempos, sendo seis vezes campeão da Europa e do Mundo. Mas, enquanto teve forças e o deixaram acumular os relvados com os ringues, Jesus Correia nunca penalizou o futebol. Pelo contrário: trazia para os campos movimentos aprendidos no hóquei, como se jogasse de stick e em vez das botas deslizasse sobre rolamentos. Ou como se tivesse asas, como um dia sugeriu a imprensa irlandesa, a pontuar a sua importância na primeira vitória que a seleção nacional de futebol obteve fora do país.

A velocidade era, de facto, a maior arma de António Jesus Correia. Mas não era tudo o que tinha para oferecer. Não sendo um mago do drible, surpreendia pelas trajetórias que desenhava nas suas arrancadas e nos momentos em que puxava a perna atrás para chutar seco e certeiro, como se de uma stickada se tratasse. O golo preenchia-o, como se percebeu numa tarde de Setembro de 1948, no Metropolitano de Madrid, em que fez os seis tentos de uma vitória do Sporting sobre o Atlético local. Os tempos eram outros, é verdade, mas mesmo jogando quase sempre como extremo-direito, o rapaz de Paço de Arcos fez 130 golos em 157 jogos pelo Sporting no campeonato nacional. Desde que chegou ao clube, em 1943, até o ter deixado, nove anos mais tarde, ganhou sete campeonatos e duas Taças de Portugal. Tudo num quotidiano complicado: levantava-se cedo, treinava futebol antes de se apresentar no emprego, no Grémio de Mercearia e, depois da hora de saída, encaminhava-se para o segundo treino do dia, de hóquei em patins. Quando o forçaram a escolher entre dois amores, optou pelo mais antigo. O hóquei impunha menos pressão e dava-lhe mais tempo para descansar.

Fora pelo hóquei, afinal, que este rapaz nascido a 3 de Abril de 1924, em Paço de Arcos, tinha começado. Não que não lhe agradasse o futebol: gostava do jogo e em particular do Belenenses, cujos jogos ia ver às Salésias, metendo-se no comboio de manhã e voltando a casa à noite. Com 15 anos, tentou a sorte no clube da Cruz de Cristo e Augusto Silva, à data treinador da equipa, ficou com ele debaixo de olho, mandando-o voltar mais tarde, pois não tinha idade para ser inscrito. O “Necas”, como era tratado pelos amigos, assim fez. Só que, um ano depois, o seu ídolo, Mariano Amaro, nem sequer o viu treinar e mandou-o para trás. Foi o futebol para segundo plano, ganhou o hóquei em patins: Jesus Correia jogava futebol a brincar no Paço de Arcos mas deu primazia ao stick. E, em 1942, com 18 anos, fez parte da equipa que conseguiu para o clube o seu primeiro título nacional na modalidade.

Por essa altura já Jesus Correia conhecia Josef Szabó, o húngaro que treinava o futebol do Sporting. Szabó vivia entre Paço de Arcos e Oeiras e interessou-se pelo clube local, acabando por convencer o rapaz a ir treinar ao Sporting. Ora, logo no primeiro treino, fez um golo a Azevedo, pelo que, mais a mais com a concorrência do Estoril, os leões não descansaram enquanto ele não assinou a ficha de inscrição. De “luvas”, pagaram-lhe doze contos, que era o que ele ganhava em ano e meio a trabalhar no Grémio. Em 1943 estreou-se num jogo de reservas, contra o Unidos de Lisboa, defrontou depois o Olhanense e, a 17 Outubro, já estava a alinhar no campeonato de Lisboa, na vitória por 4-2 face ao Fósforos. A 23 de Janeiro de 1944, foi o eleito para substituir Peyroteo, que estava lesionado, na posição de avançado-centro. A partida contava para a Liga, o adversário era o V. Guimarães e Jesus Correia marcou dois golos, contribuindo para o 6-0 final. Logo nesse ano foi campeão nacional pela primeira vez, juntando-se a Albano e Peyroteo, os dois mais antigos do lote que haveria de formar os Cinco Violinos.

Quando Vasques e Travaços se lhes juntaram, em 1946, já Jesus Correia era uma figura. Depois do primeiro título nacional, tinha sido campeão de Lisboa em 1944/45 e feito o golo da vitória leonina na final da Taça de Portugal, frente ao Olhanense. Essa que foi a sua primeira temporada em pleno havia de acabá-la com onze golos no campeonato (incluindo dois bis, ao V. Guimarães e à Académica) e mais oito na Taça de Portugal, prova na qual além do golo decisivo da final, fez ainda um hat-trick à Oliveirense e um golo em cada mão das meias-finais, contra o Benfica. Lesionado, depois de um campeonato a meio-gás, não esteve em nenhuma partida na reedição do sucesso leonino na Taça de Portugal de 1945/46, mas as exibições no título regional de 1946/47 e a arrancada fulgurante no Nacional dessa mesma época, valeram-lhe a chamada à seleção.

Jesus Correia começou por entrar a substituir Albano, num empate contra a Suíça, no Estádio Nacional, a 5 de Janeiro de 1947, para três semanas depois ser titular na primeira vitória oficialmente reconhecida de Portugal sobre a Espanha: 4-1, participação ativa no primeiro golo nacional e o elogio do selecionador, Tavares da Silva, que disse à Stadium que o seu extremo direito “deu a sensação de ser uma faca, pela facilidade com que rasgava os espaços”. O primeiro golo internacional, Jesus Correia fê-lo em Maio, em Dublin, abrindo o ativo na primeira vitória que a seleção conseguia fora do país com um remate sem preparação, ao ângulo da baliza de Breen. Foram 2-0 e os elogios da imprensa irlandesa, que no dia seguinte lhe chamava “O homem de asas nos pés”.

O clima era por isso de euforia quando se organizou o Portugal-Inglaterra dos dez a zero. Jesus Correia foi dos ilibados no inquérito que se seguiu ao desastre, por uma simples razão: justificou a falta ao banquete posterior ao jogo com a necessidade de se juntar à seleção nacional de hóquei em patins que, em Lisboa, lutava pelo título mundial. Ao todo, acabou por ser apenas 13 vezes internacional no futebol, fazendo três golos. Nada que se compare ao seu palmarés no hóquei, pelo qual foi seis vezes campeão mundial e europeu (1947, 1948, 1949, 1950, 1952 e 1956). E foi o título de 1952 que abriu o conflito que levaria ao seu abandono. Depois de já ter sido campeão duas vezes em Lisboa, Portugal tentava no Porto reaver o troféu entretanto perdido para a Espanha. Consciente da importância do evento, a Federação Portuguesa de Patinagem pediu em Fevereiro à Direcção Geral dos Desportos que Jesus Correia visse cancelada a licença para jogar futebol. A DGD indeferiu a proposta, mas o caso foi aproveitado pelo Sporting, que em Outubro, confiante de que sairia bafejado pela escolha do jogador, lhe fez um ultimato: ou futebol ou hóquei em patins. Jesus Correia escolheu o hóquei.

Perdia-se aos 28 anos um dos maiores talentos do futebol em Portugal, porque o hóquei lhe dava mais tempo para retemperar forças e porque o Paço de Arcos lhe ofereceu ajuda na construção do prédio onde viveu até morrer, em Novembro de 2003. Para trás, no momento da escolha, ficavam anos de sucesso de botas calçadas. A começar logo pela notável época que fez nesse 1947 da estreia na seleção: 29 golos em 21 jogos de um campeonato que o Sporting ganhou nas calmas, incluindo três hat-tricks e um póquer, nos 8-0 ao Olhanense. Veio depois o bicampeonato, em ano de dobradinha, com Jesus Correia presente na final da Taça de Portugal em que os leões bateram por 3-1 o Belenenses. E o tri, na época da escandalosa eliminação da Taça de Portugal frente ao Tirsense, num jogo em que Cândido de Oliveira deixou algumas das estrelas (incluindo Jesus Correia) de fora, para os repousar de um campeonato passado na liderança da primeira à última jornada e já a pensar na estreia leonina na recém-criada Taça Latina, em Madrid: aí, depois da vitória contra o Torino, nem um golo de Jesus Correia impediu o insucesso na final, jogada contra o Barcelona (1-2).

A perda do campeonato de 1949/50, para o Benfica, deu início a mais quatro títulos nacionais para o Sporting. Jesus Correia foi particularmente importante nos dois primeiros, mas já não entrou na campanha que levou a equipa leonina à final da Taça de Portugal de 1952: estava concentrado com a seleção de hóquei em patins. No terceiro, porém, já Jesus Correia teve pouca participação: o último jogo pelo Sporting fê-lo a 5 de Outubro de 1952, marcando, no primeiro minuto, um golo importante numa vitória sobre o Benfica e inscrevendo assim o seu nome em mais um título nacional que os leões haveriam de conquistar já sem ele em campo. Não foi o seu último golo, porque, depois de ver frustrado um pedido que fez para ser reintegrado no plantel do Sporting, em 1956, Jesus Correia ainda alinhou pela CUF nessa época, marcando na estreia, numa derrota por 3-1 frente ao FC Porto, nas Antas, a 29 de Janeiro de 1956. Só faria mais uma partida, despedindo-se da I Divisão a 5 de Fevereiro de 1956, noutra derrota da CUF: 1-2 contra o Belenenses. Apesar deste ponto final longe do leão, ficou para sempre ligado à história do Sporting, pois em Agosto de 2003, meses antes de falecer, foi dele o pontapé de saída simbólico na inauguração do novo Estádio José Alvalade.