Nascido numa família com genes de futebolista que já se prolongam por quatro gerações, Rita passou pelo Sporting e até foi campeão no Benfica, mas viveu os melhores momentos no Sp. Covilhã, com quem jogou uma final da Taça de Portugal.
2016-04-02

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1951

É ainda hoje um mito na Covilhã, o mais brilhante guarda-redes que passou pela Serra, mas nem isso, nem a história do golo de baliza a baliza que uma tarde marcou a Acúrcio lhe chegaram para e impor nas duas tentativas que teve para aceder à baliza de um grande. José Rita foi esperança na baliza do Sporting quando a ela tinha acabado de chegar a certeza Carlos Gomes e garante de estabilidade nas redes do Benfica numa altura em que estas estavam entregues a Costa Pereira. Acabou por isso a carreira com menos títulos do que os que justificavam a sua elegância e valentia a sair dos postes.

José Rita nasceu no Algarve, numa família com genes futebolísticos. O pai, Rita, tinha sido defesa-esquerdo do Lusitano, cuja baliza era defendida por um dos tios, Barrocal, e em cuja equipa jogava outro tio, Norberto. O jovem José, que começara a carreira em Setúbal, nas camadas jovens do Vitória, como defesa-central, recuara no terreno numa tarde dos seus 15 anos, até chegar à função de guarda-redes da equipa da fábrica onde trabalhava. Já de lá não saiu. Quando a família regressou ao Algarve, passou a jogar na baliza do Doli, equipa de futebol popular que era grande rival do Celeiro, onde jogavam os primos Amílcar e Domiciano, os famosos irmãos Cavém, que andaram anos a fio pela I Divisão, tornando-se este último uma das maiores figuras da história do Benfica. O Lusitano já não andava, por essa altura, entre os grandes, pelo que aos 18 anos Rita assinou pelo Olhanense, visto pelo pai como único clube da região capaz de dar ao filho futebol de mais alto nível. Abraão era o dono das redes da equipa de Olhão, mas lesionou-se após uma vitória sobre o Benfica, abrindo caminho à estreia do miúdo na primeira categoria. A 10 de Dezembro de 1950, Rita fez o primeiro jogo, tendo como adversário o Sporting, no Estádio do Lumiar. O Olhanense perdeu por 3-0, mas após o regresso do titular num partida frente ao Atlético, o treinador parecia querer desde logo apostar no desafiante, permitindo-lhe defender em casa contra o Sp. Braga (empate a duas bolas) e na visita ao FC Porto.

Os sete golos sofridos na Constituição (pesada derrota por 7-0 contra os dragões) acabaram com a época de Rita na Liga, mas nem foram muito significativos face ao que viria a acontecer a Rita quando, tendo o Olhanense acabado o campeonato em último lugar, o treinador, Pepe Lopez, decidiu dar-lhe a baliza na Taça de Portugal. Pela frente os algarvios voltaram a ter o FC Porto e, após um magro 0-1 em casa, foram aviados com 11-0 na segunda mão. Ainda assim, já foi Rita o titular na equipa que atacou, em 1951/52, a Zona Sul da II Divisão. Foi o suficiente para chamar a atenção dos responsáveis do Sporting, que andavam ainda preocupados com a sucessão de Azevedo, por enquanto assegurada pelo jovem Carlos Gomes. Rita mudou-se para Lisboa, mas de leão ao peito teve sempre poucas chances para mostrar o que valia. Carlos Gomes impôs-se como maior guarda-redes português do seu tempo e, em três anos no Sporting, só por uma vez foi além da baliza das reservas: jogou a 15 de Maio de 1955 numa partida da Taça de Portugal, frente ao Leixões, que os leões ganharam por 4-2. Não esteve na final da competição, que a equipa verde e branca perdeu para o Benfica, um mês depois, e no fim das férias foi cedido definitivamente ao Sp. Covilhã, onde estava o primo Amílcar.

Na Covilhã, Rita mostrou que era, na verdade, um dos melhores guarda-redes nacionais. Totalista no excelente quinto lugar da equipa em 1955/56, defendeu nos empates contra FC Porto, Benfica e Sporting, bem como na vitória ante o Belenenses (2-0), que por aqueles tempos ainda discutia títulos. Seguiu-se, para Rita, um longo período de inatividade: só voltaria à baliza em Fevereiro de 1957, quando, após a derrota contra o Caldas, o Sp. Covilhã caiu em zona de despromoção. Os serranos ainda ganharam dois dos últimos cinco jogos, mas o Caldas também o fez, pelo que a descida se tornou inevitável. Fernando Cabrita, que já tinha sido colega de Rita no Olhanense e na ponta final dessa época acumulou as funções de jogador e treinador, juntou então os cacos deixados por Joseph Szabó e conduziu uma equipa despromovida à final da Taça de Portugal. Sempre com Rita na baliza, os leões da serra eliminaram sucessivamente o U. Montemor, o Lusitano de Évora (vitória por 7-2 no Santos Pinto depois da derrota por 4-0 no Alentejo), o FC Porto (duplo sucesso, por 2-1 e 1-0) e o V. Setúbal, encontrando na final o campeão nacional, o Benfica. A derrota por 3-1 não permitiu levantar o troféu mas constituiu para muitos daqueles jogadores uma memória inolvidável e permitiu-lhes formar a certeza de que tinham futebol para o campeonato principal. A II Divisão foi, por isso, uma mera passagem, pontuada com o título nacional do escalão, em fase final na qual se superiorizaram ao V. Guimarães.

A 14 de Setembro de 1958, Rita estava por isso de volta à I Divisão, na qual o Sp. Covilhã reentrou com uma vitória por 6-3 frente ao Caldas, prenúncio de um tranquilo oitavo lugar. Na época de regresso, o guardião algarvio só falhou um jogo, vindo depois a ser totalista na nona posição de 1959/60. A 10 de Abril de 1960 foi mesmo um dos principais focos de atenção, pois antes do fim da primeira parte marcou um golo de baliza a baliza a Acúrcio, fechando o resultado numa vitória dos serranos por 3-1 sobre o FC Porto. A regularidade que Rita apresentava na baliza levou-o à seleção B, pela qual jogou em Dezembro de 1960, num empate a zero contra a segunda equipa de França, mas não impediu o lento decréscimo de qualidade da equipa covilhanense. Ao 11º lugar de 1960/61 sucedeu-se o 13º e a descida de divisão em 1961/62. Rita defendeu pela última vez as redes do Sp. Covilhã a 27 de Maio de 1962, num empate a uma bola frente ao Salgueiros, no Vidal Pinheiro, que consumou a descida. Ele, porém, não seguiria para a II Divisão. Quiseram-no no Benfica, que semanas antes tinha ganho a segunda Taça dos Campeões Europeus, com a ideia de forçar alguma concorrência a Costa Pereira, algo que nem Barroca nem Ramalho – este seguiu para a Covilhã, como moeda de troca – podiam fazer.

De volta a um grande, contudo, Rita experimentou mais uma vez longas semanas de inatividade competitiva. Na primeira época, não fez um único jogo no título nacional do Benfica, alinhando apenas duas vezes na Taça de Portugal (dupla vitória contra o Lusitano de Évora, nos 1/16 de final) e na primeira mão da Taça Intercontinental (derrota por 3-2 com o Santos de Pelé, no Maracanã). Uma hora em vez de Costa Pereira, por lesão deste, num empate a duas bolas com o FC Porto nas Antas, a 24 de Novembro de 1963, chegou para poder reclamar em nome próprio o título de campeão nacional ganho pelo Benfica no final da época de 1963/64 e para lhe marcar a despedida do campeonato nacional. Até final da época, só jogou mais duas vezes: derrota por 5-0 no campo completamente gelado de Dortmund, a marcar a eliminação da Taça dos Campeões aos pés do Borussia, e empate a uma bola frente ao Salgueiros, no Porto, na caminhada para a vitória na Taça de Portugal, ganha em Julho na final contra o FC Porto, mas com Costa Pereira entre os postes. Finda a temporada, entre os vários convites que teve (Desportivo de Beja, Cova da Piedade, Atlético…) aceitou o do Casa Pia, onde o pai estivera interno e o avô tinha sido professor. Jogou um ano na terceira Divisão e outro na segunda antes de satisfazer um velho sonho e emigrar para o Brasil, onde fixou residência (já quando estava na berra confessara à revista Ídolos que São Paulo era a sua cidade favorita).

Rita viria a falecer aos 70 anos em Cotia, cidade montanhosa da zona metropolitana de São Paulo que talvez lhe trouxesse à memória a Covilhã. Ainda pôde ver o filho, José, defender a baliza do clube local, mas já não teve conhecimento da aventura do neto, Leandro Barrios, no futebol português: depois de jogar na Portuguesa Santista, no Herediano (Costa Rica) e no Waregem (Bélgica), o extremo passou seis meses no Paços de Ferreira, ainda que sem grande sucesso, antes de regressar à América Latina e de uma segunda aventura europeia, que vive neste momento no Denizplispor, da Turquia.