O nome de Bilro confunde-se com a história recente da U. Leiria, da qual foi capitão durante uma década e afastado de forma ignóbil, abrindo caminho à decadência do clube e à sua entrada no futebol de praia.
2016-04-01

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1991

Alentejano de Borba, Bilro fez a formação futebolística num Sporting que não chegou a representar oficialmente como sénior, devendo a carreira nos relvados e os quase 250 jogos na I Divisão a mais de uma década em Leiria. Ali, debaixo do castelo, tornou-se figura incontornável da União, jogando mesmo com a camisola branca numa final da Taça de Portugal e numa Supertaça, em 2003. Aos leões, só haveria de voltar depois de pendurar as chuteiras, quando se dedicou ao futebol de praia, variante que acabou por valer-lhe, já na qualidade de treinador nacional, o título de campeão do Mundo e amedalha de comendador da Ordem do Mérito, atribuída pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.

Bilro nasceu no Alentejo profundo, mas foi no Seixal que os olheiros do Sporting o descobriram. Era um defesa central com excelente trato de bola, algo que é fundamental para as equipas de juniores dos grandes, mas que à medida que os miúdos vão crescendo vai sendo substituído enquanto prioridade por um físico mais imponente. E como Bilro nunca passou do 1,80m, acabou cedido assim que chegou a sénior. Passou um ano no Seixal, na última época em que a II Divisão Nacional se jogou em três zonas, seguiu depois para o Atlético, com vários outros jogadores da formação leonina, e fez uma época como patrão da defesa do Olhanense, não conseguindo, ainda assim, ajudar a evitar a descida da II Divisão de Honra para a II Divisão B. Em 1992, aos 21 anos, teve finalmente a sua oportunidade de integrar o plantel do Sporting. Ou julgava ele que ia tê-la, uma vez que não chegou a fazer um único jogo oficial em toda a época no grupo orientado por Bobby Robson. O caminho era claro: precisava de se desligar dos leões para jogar. E foi o que fez, assumindo logo ali uma escolha que o marcou para a vida.

Em 1993, Luís Bilro chegou ao plantel da U. Leiria que ia jogar a II Divisão de Honra. A temporada teve mudança de treinador logo à quarta jornada, com a saída de Luís Campos e a entrada de Manuel Cajuda, mas acabou com a subida de divisão. E com Bilro a cotar-se como uma das figuras da equipa, falhando apenas um jogo em toda a época, por acumulação de amarelos. Dada a sua influência na equipa, a estreia na I Divisão, Bilro fê-la logo como capitão de equipa: a 21 de Agosto de 1994 alinhou como um dos três defesas-centrais apresentados por Vítor Manuel no Magalhães Pessoa na primeira jornada do campeonato, uma derrota em casa (1-2) frente ao U. Madeira. A época, apesar de tudo, veio a ser particularmente positiva, com um belíssimo sexto lugar para o qual Bilro contribuiu com uma segunda volta extremamente regular. Ao sexto lugar sucedeu um sétimo, pelo que a conturbada época de 1996/97 acabou por constituir surpresa de monta. Já com Bilro a jogar como lateral direito, a U. Leiria despediu Vítor Manuel à sétima jornada, quando o penúltimo lugar se explicava com um calendário complicado. A verdade é que nem Eurico Gomes nem, depois, Quinito, tiraram a equipa daquela posição incómoda, da qual resultou a descida de divisão.

Para atacar a II Liga, a União de Leiria contratou o maior especialista nacional em subidas: Vítor Oliveira. E não se arrependeu, já que a equipa se sagrou mesmo campeã nacional do escalão, chegando à meia-final da Taça de Portugal, na qual ainda assim forçou o FC Porto a prolongamento (2-3, em Leiria). De regresso ao escalão maior, os leirienses passaram a contar com um Bilro que também fazia golos: estreou-se a marcar na Amadora, a 9 de Maio de 1999, num jogo em que, a 5 minutos do fim, colocou a U. Leiria em vantagem, mas no qual ainda teve tempo para ver um segundo cartão amarelo, ser expulso, e assistir de fora das quatro linhas ao golo do empate, marcado por Jorge Andrade. O sexto lugar conquistado nessa época e o décimo da seguinte, já com Manuel José em vez de Mário Reis aos comandos, foram prelúdios para a fase dourada da União na Liga. Em 2000/01, com quatro golos de Bilro – entre eles um bis ao Campomaiorense e um canto direto a Schmeichel, num 2-0 ao Sporting que ostentava o escudo de campeão nacional – a União de Leiria acabou a Liga na quinta posição. Na época seguinte, enquanto por lá esteve José Mourinho, andou entre os grandes, terminando a época numa sétima posição que voltou a melhorar em 2002/03, quando Manuel Cajuda conduziu o clube a novo quinto lugar e à final da Taça de Portugal. Bilro, que nem fez golos nesse campeonato, deixou a sua marca na prova a eliminar, marcando ao Louletano nos 1/16 de final (vitória por 4-1), à Académica nos quartos-de-final (3-1) e ao Paços de Ferreira no último minuto da meia-final (1-0), assegurando com um cruzamento mal direcionado a presença na final do Jamor e nas competições europeias da época seguinte. “Foi um momento de glória que Deus me deu”, afirmou após a partida o capitão leiriense, reconhecendo o caráter fortuito do golo.

A derrota na final, com o FC Porto de Mourinho (0-1), não deu direito a erguer a Taça, mas sim às presenças na Supertaça, perdida para o FC Porto pelo mesmo resultado, e nas provas europeias da época seguinte, pois os dragões foram também campeões nacionais. Bilro fez a estreia europeia a 18 de Agosto de 2003, capitaneando a equipa leiriense numa derrota por 2-1 em Coleraine, na Irlanda do Norte, contra a equipa local. Os leirienses ainda passaram essa eliminatória, caindo depois aos pés do Molde, da Noruega. Esta era já, porém, a última época de Bilro na I Divisão. O defesa alentejano fez a 30 de Novembro de 2003 o seu último golo no campeonato, uma réplica em quase tudo ao famoso golo da meia-final da Taça de Portugal, com a diferença que desta vez, além de também ter sido marcado ao Paços de Ferreira num remate de longe de ter valido uma vitória por 1-0, foi bem propositado. A 11 de Janeiro de 2004, num empate da U. Leiria em casa com o Benfica (3-3), Bilro despedia-se da I Divisão. Ainda jogou na eliminação da Taça de Portugal, contra o Nacional, no dia 14 (derrota por 2-1), mas dias depois foi suspenso pela administração da SAD da U. Leiria, por alegadamente ter insultado publicamente João Bartolomeu, à data o todo-poderoso líder do clube. O capitão sempre negou os factos, mas a verdade é que já não voltou a vestir a camisola do clube que defendeu durante quase toda a vida.

A carreira de Bilro no futebol de relva acabou em 2004/05, época cuja segunda metade fez nos Açores, a jogar pelo Lusitânia, na II Divisão B. Foi no futebol de praia, porém, que mais destaque alcançou, vindo a envergar a camisola do Sporting e da seleção nacional, que conduziu como treinador ao título mundial de 2015. Na relva, fez as pazes com a U. Leiria, cuja equipa chegou também a dirigir, nos escalões amadores para os quais foi relegada devido às ações dos dirigentes que o tinham afastado.