Júnior do Belenenses e titular a meio-campo nos últimos jogos do Atlético na I Divisão, Nelo decidiu bem antes dos 30 anos que mais valia apostar na carreira de treinador. O futuro deu-lhe razão.
2016-03-30

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1976

O percurso de Nelo Vingada no futebol português quase deixa entender que a parte em que foi jogador lhe terá servido como mero prefácio ou aquecimento para o que verdadeiramente lhe interessava, que era treinar. Médio goleador nos juniores do Belenenses, este alentejano foi fazendo carreira pela II Divisão enquanto estudava. Chegou ao escalão principal, mas a descida do Atlético, que representava, fê-lo pensar duas vezes e definir claramente as prioridades: mais lhe valia investir desde cedo numa carreira onde pudesse ter nível de top do que insistir em andar a esfolar-se nos pelados da segunda divisão.

Natural de Serpa, Eduardo Vingada, ou Nelo como ficou conhecido enquanto jogador, chegou às camadas jovens do Belenenses, onde foi subindo a par de Pietra, que depois jogou no Benfica e na seleção nacional, e Teles, um avançado que também se estreou cedo na equipa principal dos azuis mas depois fez carreira, sobretudo, nos escalões secundários. Nelo era um médio de boa técnica, goleador, mas nem isso lhe valeu grande sucesso em Belém quando, em inícios de 1971, Mourinho Félix e o jornalista Homero Serpa tomaram conta da equipa principal dos azuis e começaram a chamá-lo aos treinos dos mais crescidos. Mesmo em 1971/72, quando já era sénior de pleno direito, Nelo não fez mais do que alguns jogos na Taça de Honra, alinhando sobretudo pelas reservas, pelo que a matrícula no INEF, para continuar os estudos na área da educação física e do futebol o levou a repensar o que queria fazer. Transferiu-se então para o Sintrense, onde lhe era mais fácil acumular o futebol jogado com o futebol estudado, passando quatro épocas na II Divisão, onde a equipa de Sintra assegurou sempre a manutenção.

Aos 24 anos, Nelo chegou finalmente à I Divisão, recrutado pelo Atlético. O uruguaio Jose Caraballo estreou-o a 3 de Outubro de 1976, fazendo-o entrar para o lugar de Baltazar a 10 minutos do final de uma vitória por 1-0 frente ao Montijo, na Tapadinha. Foi acumulando presenças como suplente utilizado até à demissão do treinador uruguaio, na sequência da goleada encaixada em casa contra o V. Setúbal (2-5), a 2 de Janeiro de 1977, que fazia os alcantarenses cair para a última posição da tabela. Enquanto não contratava treinador, o clube decidiu confiar a equipa a uma comissão de jogadores formada por Franque, Mário Wilson, Norton de Matos e pelo próprio Nelo, que fizeram o onze para a visita ao Boavista. E nela Nelo Vingada foi pela primeira vez titular, ainda que a equipa não tenha deixado o Bessa com um bom resultado: perdeu por 6-2, avolumando os problemas que nem a chegada de Artur Santos, o novo treinador, resolveu.

O Atlético acabou mesmo por ser último classificado no campeonato, tendo Nelo sido titular nas últimas dez rondas, a começar num empate (1-1) frente ao FC Porto, na Tapadinha, em inícios de Março. Ainda marcou dois golos, mas em dois jogos que os alcantarenses perderam: 1-4 com o Boavista em casa, a 15 de Maio de 1977, e 1-2 com o Belenenses no Restelo, a 22 de Maio. Uma semana depois, a 29 de Maio, tanto o Atlético como Nelo Vingada faziam o último jogo (até à data) na I Divisão, uma derrota por 2-0 frente ao Benfica, que já era virtual campeão. Nelo ainda ficou na equipa do Atlético que, em 1977/78, batalhou sem sucesso pela promoção na Zona Sul da II Divisão, mas em 1978, com 26 anos, aceitou o desafio para ser treinador-jogador do Sintrense, que tinha já descido ao terceiro escalão. Ainda fez mais uma época no Atlético, não sendo capaz de ajudar a evitar a queda dos alcantarenses na III Divisão, em 1980, mas a sua vida estava prestes a mudar de vez. Já dava aulas de educação física, pelo que Peres Bandeira, que o conhecia dos tempos do Belenenses, o convidou para adjunto na equipa técnica que ia começar a temporada de 1980/81. Aceitou, iniciando ali um percurso que só teve uma ligeira ameaça de recuo em 1984, quando o mesmo Peres Bandeira abraçou o projeto do Vilafranquense, o levou com ele e, face a uma onda de lesões invulgar, Nelo ainda fez uma perninha na III Divisão.

Por essa altura já se ocupara a solo da equipa do Belenenses em duas ocasiões da conturbada época de 1981/82 (um jogo entre a saída de Artur Jorge e a entrada de Pedro Gomes e mais dois entre a saída deste e a chegada de Rodrigues Dias) e trabalhara com Mário Wilson na Académica e no Estoril. A entrada nos quadros da Federação Portuguesa de Futebol e as responsabilidades que teve no projeto Skills, de desenvolvimento e deteção de jovens talentos, fizeram mais pela carreira deste treinador do que teriam feito anos de futebol jogado nos escalões secundários. A passagem de José Augusto, que era selecionador nacional de juniores, para o Farense, em 1987, e a consequente promoção de Carlos Queiroz ao lugar na FPF – e de Nelo Vingada a seu adjunto – foram a rampa de lançamento de uma carreira que o levou a ter mais de 200 jogos como treinador de I Divisão em Portugal, boa parte deles no Marítimo, onde atualmente trabalha, e lhe garantiu títulos de campeão nacional, por exemplo, no Egito ou na Coreia do Sul.