Foi campeão nacional e ganhou duas Taças de Portugal no Sporting, mas guarda recordações extraordinárias das passagens por Leixões e sobretudo V. Setúbal, onde em três épocas não falhou um único jogo. Wagner é um dos brasileiros mais portugueses que há.
2016-03-29

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1963

Por duas vezes, Wagner Canotilho regressou ao Brasil. Fê-lo em 1967, depois de acabar contrato com o Leixões, para jogar na Portuguesa. E fê-lo em 1978, quando decidiu pôr um ponto final na carreira de futebolista. Das duas vezes regressou a Portugal, incapaz de dizer não ao chamamento da cidade que o adotou: Setúbal. A história da vida deste paulistano de Mooca escreve-se em português de Portugal, pois foi do lado de cá do Atlântico que teve sempre mais sucesso, depois de ter sido resgatado às camadas jovens da Juventus de São Paulo com apenas 18 anos.

Filho do cruzamento de uma família portuguesa com outra italiana, Wagner destacou-se como médio nas camadas jovens da Juventus paulista, equipa que viria também a revelar o seu irmão Chiquinho, como lateral direito. Wagner, contudo, nunca teve tempo de brilhar com a camisola grená do clube que o viu nascer, porque aos 18 anos já estava a viajar para Portugal. Por cá, tinha à sua espera um contrato com o Leixões de Carlos Bauer, o “Monstro do Maracanã”, centro-campista internacional na Copa de 1950, que começara a carreira de treinador precisamente na Juventus e viera treinar pela primeira vez para a Europa. Wagner estreou-se na equipa principal logo à segunda jornada, um empate em casa (1-1) com o FC Porto, a 27 de Outubro de 1963, e não mais saiu do onze até final da temporada, marcando quatro golos na caminhada do Leixões até ao oitavo lugar final na tabela. Wagner jogava então como segundo ponta-de-lança, posição na qual construiu uma parceria interessante com Bené, que jogava como principal avançado e também tinha acabado de chegar do Brasil.

A chegada de Pedroto a Matosinhos, bem como a contratação de Manuel Duarte à Académica, levou ao recuo de Wagner no campo. A segunda época, na qual jogou pela primeira vez uma partida das competições europeias – estreia como titular no empate (1-1) caseiro com o Celtic Glasgow, a 23 de Setembro de 1964 – já a fez com outro tipo de responsabilidades a meio-campo, o que se refletiu na sua produção goleadora: marcou apenas um golo na Liga, na goleada sobre a Académica, já na última jornada (5-1), ao qual somou mais outro na Taça de Portugal, na vitória sobre o V. Guimarães (2-1) que não evitou a eliminação, face aos 1-5 que a equipa de Matosinhos encaixara na primeira mão. Da conturbada época de 1965/66, na qual o Leixões teve três treinadores e só encontrou a estabilidade com a chegada de Manuel de Oliveira aos comandos, Wagner guarda a memória de um hat-trick, a 3 de Outubro, na goleada em casa (8-1) sobre o Lusitano de Évora. Marcou, ao todo, cinco golos, aos quais juntou mais dois na Taça de Portugal, prova na qual os leixonenses só foram eliminados ao segundo prolongamento do quatro desafio contra o Beira Mar.

Com Manuel de Oliveira, Wagner voltou a subir no campo e a jogar muito dentro da área adversária. Isso refletiu-se nos oito golos que marcou em 1966/67, época na qual o Leixões chegou ao sétimo lugar da Liga, com ele como melhor marcador. Foi dele, por exemplo, o golo com que o Leixões ganhou em Alvalade ao Sporting (1-0), que era campeão nacional, a 4 de Dezembro de 1966. Mas a derrota (0-3) contra o V. Setúbal, a 18 de Junho de 1967, a custar a eliminação da Taça de Portugal, mais uma vez nos quartos-de-final, deveria ter sido o seu último jogo em Portugal. Finda a época. Wagner regressou a São Paulo e assinou pela Portuguesa dos Desportos, onde militavam, entre outros, Marinho Peres e Leivinha. Meses depois, porém, estava a regressar a Portugal, alvo do chamamento de Tavares da Silva. E a 8 de Setembro de 1968 já estava na equipa do Vitória que iniciava mais uma época, perdendo em Coimbra com a Académica por 2-1. Foi um mau início para uma excelente temporada, que acabou com os sadinos em quarto lugar do campeonato e a chegar aos quartos-de-final da Taça das Cidades com Feira, eliminando de caminho o Lyon e a Fiorentina. Wagner jogou quase sempre sobre a direita do meio-campo, marcando três golos, todos no campeonato, com destaque para um bis num 3-0 ao Sp. Braga.

Começava ali o super-Vitória que durante anos andou a par dos grandes na Liga. Em 1969, chegou ao Bonfim José Maria Pedroto, que já conhecia Wagner do Leixões e acabou por transformá-lo, com sucesso, em médio centro com responsabilidades defensivas. E o brasileiro respondeu com uma regularidade impressionante. Desde que chegou a Setúbal, em Setembro de 1968, para a primeira época de verde-e-branco, ainda com Fernando Vaz, até sair para o Sporting, em Junho de 1971, Wagner não falhou um único dos 110 jogos oficiais do Vitória, entre campeonato, Taça de Portugal e competições europeias. Esteve em destaque num terceiro e em dois quartos lugares na Liga, chegou a uma meia-final da Taça de Portugal (em 1971) e a dois quartos-de-final da Taça das Cidades com Feira. E mesmo com outro tipo de responsabilidades defensivas continuava a fazer golos. Na primeira época de Pedroto marcou oito, incluindo um nos 5-0 ao FC Porto, a 9 de Novembro de 1969, dois bis contra o Sp. Braga e o Rapid Bucareste, e um penalti em Anfield Road que ajudou o Vitória a eliminar o Liverpool pela regra dos golos fora. Na segunda fez mais seis, com destaque para um golo ao Anderlecht, em Bruxelas, também decisivo para o apuramento da equipa portuguesa para a ronda seguinte da prova europeia.

Tanta regularidade acabou por levar Wagner a assinar pelo Sporting, onde o treinador era agora Fernando Vaz, que o liderara na primeira época em Setúbal. Acontece que, apesar das raízes portuguesas – o avô de Wagner era de Coimbra – o jogador era brasileiro e por isso contava como estrangeiro, numa altura em que cada equipa só podia ter um não-português em campo. Ora no plantel do Sporting havia Yazalde, o argentino que era sinónimo de golos. Por isso, a primeira época de Wagner de leão ao peito foi tímida, com apenas dez partidas no campeonato e duas na Taça de Portugal, cuja final os leões perderam para o Benfica por 3-2 – com Yazalde e, portanto, sem Wagner. Só na UEFA os dois podiam jogar ao mesmo tempo, o que sucedeu nos quatro jogos que o Sporting fez na Taça das Taças até ser eliminado pelo Glasgow Rangers. Assim que pôde, porém, Wagner pediu a dupla-nacionalidade, que lhe foi naturalmente concedida. E por isso já esteve em campo na conquista da Taça de Portugal de 1972/73, ganha na final ao V. Setúbal, por 3-2, com um bis do sadino Tomé. Nessa altura, já os leões eram dirigidos por Mário Lino, que substituíra o inglês Ronnie Allen e dera a Wagner um papel fundamental a meio-campo que ele até então não tinha. Com Lino, o Sporting voltou a ser campeão nacional em 1973/74, ganhou a Taça de Portugal, batendo na final o Benfica (2-1) e chegou às meias-finais da Taça das Taças. Wagner falhoou apenas três das 43 partidas da época, duas delas no campeonato. E foram mais três do que em 1974/75, época na qual foi totalista na confusão em que se transformou o futebol leonino quando João Rocha contratou Di Stefano como treinador.

Por essa altura, aproveitando as ondas de liberdade que o 25 de Abril propiciara aos jogadores, Wagner pediu para o libertarem, de forma a que pudesse voltar ao Brasil. Rocha nunca lhe disse que não, mas também nunca o deixou sair. Como resultado disso, mesmo tendo sido fundamental na equipa que acabou o campeonato de 1974/75 em terceiro lugar, Wagner não renovou e aproveitou o final do contrato para, em Novembro, regressar ao V. Setúbal, cujo treinador era agora o seu bem conhecido Mário Lino. Entrou na equipa a 23 de Novembro, numa derrota frente ao Atlético na Tapadinha, e não mais saiu dela, chegando às meias-finais da Taça de Portugal, de onde o Vitória foi eliminado pelo Boavista. Em 1976/77, porém, começou a perder importância na equipa, à qual já regressara Fernando Vaz. Marcou o seu último golo como profissional a 17 de Abril de 1977, num remate de longe que garantiu um sucesso por 2-1 frente ao Beira Mar, em Aveiro. Ainda jogou por mais um ano, vestindo pela última vez a camisola do Vitória a 30 de Abril de 1978, já enviado para o campo pelo seu ex-colega Carlos Cardoso, que entretanto ascendera à posição de treinador. O seu último jogo foi um empate no Bonfim com o Sp. Espinho (1-1).

Depois do final da época, com 33 anos, Wagner tentou mais uma vez voltar ao Brasil, onde foi dirigir o Saad, de São Caetano do Sul. Mas não resistiu muito ao apelo lusitano. Familiares e amigos levaram-no a regressar ao país que o adotou e onde ficou até hoje, sendo por algum tempo adjunto de Mário Lino, por exemplo, no Barreirense, e depois de vários treinadores que passaram pelo V. Setúbal. Em Portugal, Wagner ainda treinou O Elvas e o U. Montemor, bem como várias equipas de jovens. Atualmente limita-se a acompanhar a carreira do filho. Que faz parte da estrutura de formação do V. Setúbal, do neto, que joga nas camadas jovens do clube, e da neta, ginasta com presenças em campeonatos da Europa e do Mundo por… Portugal.