Em quase 300 jogos oficiais pelo Benfica, nunca marcou um golo, mas a sua tarefa era evitá-los e isso fazia com classe e segurança. Impôs-se como uma das figuras do Benfica dos anos 50, saindo da equipa aos 30 anos, porque se desentendeu com Guttmann.
2016-03-27

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1951

Jogador de uma regularidade impressionante, que cumpria sempre o que lhe era pedido e que, por isso mesmo, raramente saía da equipa, acabando vários campeonatos como totalista, Artur Santos chegou a capitão do Benfica, mas viu a carreira abruptamente interrompida antes de chegar aos 30 anos porque não aceitou que Bela Guttmann voltasse a desviá-lo do centro para a direita da defesa, onde tinha começado o seu trajeto. Isso nunca pôs em causa a sua dedicação à causa encarnada, que ainda hoje, aos 85 anos, serve como pode e sempre que pode, mas impediu-o de estar no auge europeu de uma equipa que ele ajudou a construir. Ainda assim, os quase 300 jogos que fez com a águia ao peito e os vários títulos conquistados não mentem: estamos perante uma das maiores figuras da história do Benfica.

Natural de Paço de Arcos, Artur Santos só viu despertar a paixão pelo futebol quando a adolescência lhe bateu à porta. Mas tinha jeito para as tarefas de defesa, pelo que se impôs como defesa-esquerdo nos Onze Unidos, um clube que criou com vários amigos e que lhes serviu de entretém até que um desses amigos, Natividade, o convenceu a ir treinar ao Benfica. Foram os dois até ao Campo Grande, apresentaram-se a Cândido Tavares, treinador dos juniores, que de imediato os mandou equipar para os ver em ação. E a verdade é que não só agradaram como entraram de imediato na equipa de aspirantes dos encarnados, que em 1949/50 se sagrou campeã regional da categoria. Artur, que era visto como uma das referências dessa equipa, começou logo ali a ser chamado a alguns jogos das reservas. Em Novembro de 1950, Jacinto, o defesa-direito da equipa sénior que ganhara a Taça Latina, lesionou-se. O treinador, o inglês Ted Smith, começou por chamar Cesário para um jogo em Guimarães, mas a derrota por 3-1 fê-lo inverter o caminho e dar a estreia a Artur a 26 de Novembro de 1950, numa partida em casa com o Boavista que os encarnados venceram por 7-1.

O rapaz agradou e não só manteve o lugar enquanto Jacinto não voltou como depois acabou a época em vez dele, atuando em oito jogos do campeonato e mais quatro da Taça de Portugal, incluindo a final, que o Benfica ganhou por 5-1 à Académica. Aos 20 anos, Artur ganhava o lugar no onze de honra do Benfica. E durante anos não abdicou dele. Em 1951/52 e 1952/53 foi totalista, não só nos campeonatos, que o Benfica acabou em segundo lugar, mas também nas Taças de Portugal, que os encarnados venceram por mais duas vezes, ganhando por 5-4 ao Sporting na final da primeira e por 5-0 ao FC Porto na decisão da segunda. Quer isto dizer que após o momento em que se impôs como titular, em Fevereiro de 1951, Artur não falhou um jogo oficial do Benfica durante três anos: os encarnados só voltaram a fazer um onze sem ele em Janeiro de 1954, numa derrota em casa com o Sporting (0-2). O Benfica vivia, por essa altura, momentos de instabilidade, fruto da suspensão de Félix Antunes, afastado pela direção do clube por se ter negado a jogar contra o V. Setúbal na sequência das multas de que fora alvo por causa de atos de indisciplina cometidos ao serviço da seleção nacional, em Viena. A solução para o problema acabou por ser Artur, adaptado a central por Otto Glória e logo vencedor de uma dobradinha no primeiro ano nas novas funções. A Liga foi ganha de forma dramática, com os mesmos pontos do Belenenses, graças ao golo do sportinguista Martins nos instantes finais do dérbi que os leões jogavam com os azuis; a Taça de Portugal foi conquistada em mais uma final com o Sporting, numa tarde em que Martins também marcou mas o Benfica ganhou por 2-1, com bis de Arsénio.

A internacionalização entrou na carreira de Artur já como defesa-central, em 1956. Primeiro porque, no seguimento de mais um campeonato como totalista na equipa de Otto Glória, foi chamado pela primeira vez à seleção nacional por Tavares da Silva para um particular com o Brasil, no Estádio Nacional, a 8 de Abril, entrando no decorrer da partida a substituir o sportinguista Passos. Depois porque fez parte da equipa do Benfica que jogou a edição desse ano da Taça Latina. Em Milão, os encarnados começaram por perder (4-2) com o Milan, para depois conseguirem o terceiro lugar na partida com os franceses do Nice, ganha por 2-1 ao segundo prolongamento. Artur manteve a sua influência na equipa que Otto Glória conduziu a novo título nacional em 1956/57, mas aí uma lesão tirou-lhe as últimas partidas da época: magoou-se em finais de Fevereiro e viu Serra ocupar-lhe o posto no centro da defesa, não apenas nas últimas três rondas do campeonato, mas também em toda a campanha que levou os encarnados a conquistar mais uma Taça de Portugal, com vitória na final sobre o Sp. Covilhã (3-1). Artur voltou a jogar em Setembro, mas viveu então a sua época mais irregular, com várias ausências, falhando por exemplo a estreia encarnada na Taça dos Campeões Europeus, em Setembro de 1957, face ao Sevilha, e a final da Taça de Portugal, perdida em Junho de 1958 para o FC Porto (0-1).

Artur haveria de voltar ao seu melhor nível, no entanto. Em 1958/59 voltou a ser totalista na equipa que perdeu o campeonato para o FC Porto por um golo apenas e ganhou a Taça de Portugal, face ao mesmo adversário, com um golo de Cavém logo no primeiro minuto (1-0). Otto Glória, o técnico que mais rendimento tirara deste defesa, porém, já não estava aos comandos: o Benfica anunciara que ia contratar o húngaro Bela Guttmann, Otto Glória assinou pelo Belenenses e já foi o argentino Valdivieso quem dirigiu a equipa na final da Taça de Portugal. Com Gutmann, Artur ainda fez uma excelente época, falhando apenas uma das 36 partidas oficiais que o Benfica fez em 1959/60 e contribuindo decisivamente para mais um título de campeão nacional. O problema foi quando, em Agosto, o Benfica contratou o central Germano ao Atlético. Guttmann dirigiu-se a Artur e pediu-lhe que voltasse a ser defesa-direito, ao que o jogador respondeu que não, porque gostava era de ser central e já jogava como lateral há muitos anos. Resultado: saiu do onze. Artur ainda esteve num jogo da Taça dos Campeões – os 6-2 em casa ao Ujpest, a 6 de Novembro de 1960 –, o que lhe permitiu juntar o nome ao lote de jogadores que ganharam pela primeira vez esta competição pelo Benfica. E juntou mais um título nacional ao palmarés, ainda que jogando em apenas oito das 26 partidas, a última das quais uma derrota com o FC Porto nas Antas, a 30 de Abril de 1961. Uma semana depois, a 7 de Maio, fez parte da equipa que ganhou por 3-1 ao V. Setúbal na primeira mão da meia-final da Taça de Portugal.

Era a última vez que vestia a camisola do Benfica numa partida oficial. Em Outubro, tinha Artur apenas 30 anos, o Benfica organizou-lhe a festa de despedida, num jogo contra os suíços do La Chaux de Fonds, que estavam em Portugal para defrontar o Leixões, abrindo caminho ao treinador que foi Artur Santos, responsável, entre outras coisas, pelo título de campeão nacional da II Divisão ganho pelo U. Tomar em 1974.