Passou oito das suas 15 épocas de I Divisão no FC Porto, mas foi sobretudo no Varzim e no Boavista que se tornou um goleador de referência na sua geração. Decidiu uma Taça de Portugal e uma Supertaça e ficou a uns óculos de ser internacional.
2016-03-26

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1971

Lembrar Júlio, um avançado valente e goleador que andou pelos campos portugueses nos anos 70 e 80, passa sempre por recordar a história triste de como quase jogou pela seleção. Era um dos destaques do Boavista e do campeonato, Juca convocou-o para um jogo com Israel e a 20 minutos do fim mandou-o aquecer. O atacante fê-lo com a vontade e a galhardia que eram seu apanágio, correu ao longo da linha e, chegado ao fim do percurso, voltou para trás, sem saber que era seguido de perto pelo preparador físico, José Falcão, e pelos seus óculos garrafais. Deu-se a colisão e Júlio fraturou o nariz, já não chegando a entrar em campo. Júlio nunca mais voltou à seleção, mas prefere certamente lembrar os troféus que ganhou com golos seus nas finais, como a Taça de Portugal de 1978/79 ou a Supertaça da época seguinte.

Portuense de gema, Júlio começou a jogar e a marcar golos no Ramaldense. O seu talento chegou aos ouvidos dos responsáveis do FC Porto, que o recrutaram para a equipa de juniores que venceu o campeonato nacional da categoria em 1971, impondo-se ao super-Benfica de Eurico, Alves e Jordão. Ficou no plantel principal e, no final da confusão que foi a época de 1971/72, com quatro treinadores, acabou por ser lançado na equipa principal por aquele que melhor o conhecia, António Feliciano, que era responsável pela formação. Feliciano chamou o miúdo a três das últimas quatro partidas da época, a primeira das quais para substituir Lemos nos últimos minutos de uma derrota com a CUF, no Barreiro (1-0), a 7 de Maio de 1972. E na época seguinte, com Fernando Riera, o jovem Júlio passou a ser opção mais regular: esteve em dez jogos de campeonato, três deles como titular (o primeiro em Janeiro de 1973, contra o V. Setúbal, nas Antas), aos quais juntou dois na Taça de Portugal e a estreia europeia, jogando os últimos 20 minutos na derrota caseira contra o Dynamo Dresden (1-2), a 29 de Novembro de 1972, que começou a desenhar o afastamento dos portistas dessa edição da Taça UEFA.

O primeiro golo sénior é que tardava: apareceu apenas a 24 de Fevereiro de 1974 e até valeu a vitória do FC Porto frente ao Beira Mar, em Aveiro (2-1). Bela Guttman lançou o rapaz a 17 minutos do fim, para o lugar de Marco Aurélio, e pouco depois ele correspondeu a um passe de Cubillas para desempatar a partida. As oportunidades, porém, eram poucas. Em 1974/75, Aimoré Moreira não lhe deu a titularidade uma única vez, tendo Júlio iniciado apenas as duas últimas partidas da Liga, já com Monteiro da Costa aos comandos. Na primeira, a 4 de Maio de 1975, aproveitou mais uma assistência de Cubillas para marcar ao Boavista, em nova vitória por 2-1. E a época que fez em 1975/76 parecia ser a de lançamento. Stankovic colocou-o a jogar nas primeiras sete jornadas, ele até foi marcando golos, mas quando o seu nome saltou mesmo para os títulos dos jornais foi com os três golos que marcou na Taça UEFA (dois ao Avenir Beggen e um ao Hamburger) e, sobretudo, com a proeza na Luz. O Benfica era campeão, fazia a festa na última jornada contra o FC Porto e até saiu na frente do marcador, com golos de Toni e Vítor Batista. Ao intervalo, Monteiro da Costa, que já substituíra o treinador jugoslavo após mais uma época fracassada dos portistas, chamou Ademir, que de pronto reduziu. E a 25 minutos do fim trocou Oliveira por Júlio: a arma secreta empatou o jogo em lance individual e fez depois o 2-3, a passe de Cubillas.

As últimas impressões eram as que ficavam de uma época e admitia-se que Júlio fosse um dos jogadores com os quais Pedroto, entretanto chegado às Antas, iria contar no ataque ao título. Não foi assim, no entanto. Em toda a época de 1976/77, Júlio só entrou três vezes em campo. Jogou os últimos 20 minutos contra o Schalke, em Setembro, numa partida na Luz em que os dragões não foram além do 2-2; fez depois um golo nos 45 minutos de campeonato a que teve direito (nos 2-0 ao Académico, nas Antas, em Dezembro) e mais dois em 20 minutos na Taça de Portugal (nos 8-0 ao Alba), prova que o FC Porto acabaria por ganhar, batendo na final do Sp. Braga. Finda a época, Júlio pediu para sair. Viria a dizer mais tarde que o seu feitio era incompatível com o de Pedroto e que por isso mesmo nas duas vezes que o mestre chegou às Antas ele saiu. Na primeira encontrou acolhimento no Varzim de António Teixeira. E a sua carreira de futebolista de alto rendimento, na verdade, começava aqui, aos 24 anos. Na Póvoa, começou a jogar com regularidade e a responder com golos: bisou logo na primeira jornada, num 3-1 ao Boavista, repetindo a graça na terceira, em igual resultado ao Portimonense. Chegou ao fim da época com 12 golos no campeonato, um deles ao FC Porto, nas Antas, ainda que numa partida que os varzinistas perderam por 5-1. E na Taça de Portugal fez mais um.

Foi o suficiente para subir um patamar e assinar pelo Boavista, o clube onde Júlio se tornou num dos goleadores de referência da sua era. Na primeira época fez oito golos no campeonato, incluindo um bis ao Belenenses, mais seis na Taça de Portugal, que os axadrezados ganharam com um golo de Júlio na final contra o Sporting (1-1) e outro na finalíssima (1-0). Na segunda época, manteve o nível: dez golos no campeonato, incluindo dois ao Benfica, na vitória (2-1) na Luz e no empate (1-1) no Bessa, mais dois na Taça de Portugal, três na Taça das Taças (todos aos malteses do Sliema) e dois na Supertaça, que o Boavista ganhou com bis de Júlio nas Antas. Frustrados com a derrota por 2-1 na primeira edição da prova, os adeptos portistas nem permitiram que Artur, capitão do Boavista, fosse à tribuna de honra receber o troféu, que foi depois entregue no Bessa. Como os golos continuavam a aparecer, Júlio, que já tinha sido internacional esperança, B e olímpico, foi então chamado à equipa A que recebia Israel, em Dezembro de 1980. Foi aí que aconteceu o triste incidente da colisão e o corte de relações entre o jogador e o selecionador, que preferiu não o colocar em campo depois de estancada a hemorragia, chamando em sua vez Manuel Fernandes. O incidente, porém, não afetou a produção goleadora de Júlio, que fechou essa temporada com mais 13 golos no campeonato (um ao FC Porto e outro ao Sporting) e dois na Taça UEFA. Entre estes, o famoso golo do meio da rua a Meszaros, numa vitória do Boavista sobre o Vasas em Budapeste (2-0), em meados de Setembro.

Tudo somado valeu a Júlio o regresso ao FC Porto. Mas mesmo sem Pedroto, que tinha saído um ano antes, na sequência do Verão Quente das Antas, Júlio só foi opção regular para o austríaco Herman Stessl na ponta final da época. Fez nessa altura os dois golos com que encerrou o campeonato – um deles na vitória por 2-0 sobre o Sporting, na última ronda – aos quais juntou mais um na Taça de Portugal e a alegria de ter jogado uns minutos nos 4-1 ao Benfica que permitiram ao FC Porto conquistar a Supertaça. Finda mais uma época sem o título nacional, porém, deu-se o regresso de Pedroto e Pinto da Costa. E Júlio voltou a cair em esquecimento. Ainda fez quatro jogos na Liga, marcou dois golos nas primeiras duas eliminatórias da Taça de Portugal, ao Palmelense e ao U. Coimbra, mas a partida contra os conimbricenses, a 8 de Dezembro de 1983, ficou para ele marcada por ter sido a última vez que vestiu a camisola azul e branca. No final da época, saiu para Guimarães, onde Stessl o recebeu de braços abertos. Para lá dos 30 anos, porém, Júlio já não era o goleador que se tinha mostrado no Boavista. Em toda a temporada no Minho só fez o gosto ao pé por três vezes, uma na Taça de Portugal, frente ao Barco, e duas na Liga, num mesmo jogo, com o Portimonense. Sem espaço em Guimarães, foi procurá-lo precisamente em Portimão, na equipa de Manuel José. Mas nem ali, nem depois, em Vidal Pinheiro, com a camisola do Salgueiros, conseguiu ser escolha regular. Fez o último golo no campeonato a 19 de Janeiro de 1986, com um remate do meio da rua, a valer uma vitória do Salgueiros sobre o Marítimo (1-0). Despediu-se meses depois, a 13 de Abril, entrando para o lugar de Casimiro pouco antes do intervalo numa derrota caseira com o Belenenses (0-1).

Aos 33 anos, Júlio não seguiu carreira no futebol, dedicando-se em vez disso ao comércio, no Porto.