Serginho, um dos maiores avançados brasileiros nos anos 70 e 80, fez cinco jogos no Marítimo. Mostrou o pé canhão e zero de mobilidade ou capacidade de trabalho. E voltou a casa com as histórias habituais, entre elas uma agressão ao próprio treinador.
2015-12-23

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1977

A memória que muitos portugueses têm de Serginho é provavelmente muito injusta. É a de um avançado inábil que jogava na maravilhosa seleção brasileira de 1982. E é injusta porque se há coisa que Serginho não era, era desajeitado – ainda que jogar na mesma equipa de Sócrates, Zico, Júnior, Cerezo, Éder ou Falcão possa fazer qualquer craque parecer um perna de pau. Muita coisa se disse de Serginho, mas o que ele foi como futebolista, mostrou-o fielmente na curta passagem pelo Marítimo, em 1987: era um predestinado para o futebol mas ao mesmo tempo um jogador conflituoso e pouco amigo de trabalhar. No Marítimo, ajudou com golos à permanência da equipa na I Divisão, mas acabou por se ir embora rapidamente e por deixar a curta passagem pela Madeira assinalada por uma agressão ao treinador, Manuel de Oliveira, porque este achava que tinha de jogar quem treinava.

A verdade é que, nessa época, todos os pontos conseguidos pelo Marítimo de Março até ao fim da Liga foram somados com Serginho em campo. E muitos devido aos seus golos. Os jornais acusavam-no de não se mexer, os treinadores adversários de ser um provocador, mas ele respondia como sabia e ia metendo a bola nas balizas adversárias. Ao todo, fez quatro golos em cinco jogos, contribuindo com duas vitórias, dois empates e uma derrota – a única que conheceu em Portugal foi com o Sporting, em Alvalade – para o 12º lugar final do Marítimo. Para a história desse campeonato ficam os seus livres de 40 metros, prova de uma potência muscular e de uma técnica de remate sem igual, mas também o jeito preguiçoso de encarar a profissão e quase lhe valeu o regresso a casa após a estreia. Uma estreia em que até fez um golo à Académica, numa vitória por 3-1, a 22 de Março de 1987.

Serginho tinha chegado ao Funchal no início do mês, completamente fora de forma, levando os adeptos do Marítimo a um entusiasmo sem precedentes. Fez dois golos num amigável ao U. Madeira, jogo no qual ainda acertou com um livre quase de meio-campo num dos postes. Uma semana depois, Manuel de Oliveira achou que o craque estava pronto para a estreia oficial e deu-lhe a camisola 10. Marcou o terceiro golo do Marítimo à Académica, mas foi alvo de críticas arrasadoras dos jornais e do treinador adversário, Vítor Manuel. “Isto foi um Carnaval. Serginho devia ter mais respeito pelos colegas de profissão”, disse o treinador dos estudantes. A verdade é que Manuel de Oliveira não o convocou para o jogo seguinte, contra o Portimonense. Houve depois relatos de que Serginho teria agredido o técnico ao saber que este tencionava deixá-lo de fora. Oficialmente, Manuel de Oliveira só aludiu, numa entrevista radiofónica, a problemas de adaptação e a uma doença da mulher do jogador, que recomendariam o seu regresso imediato ao Brasil. “É um bom jogador, podia fazer mais uma ou duas épocas aqui se quisesse trabalhar um pouco mais, o que não se tem verificado. Assim sendo o melhor é voltar ao Brasil”, disse o treinador maritimista. Só que o Marítimo perdeu. E, no regresso do presidente do clube do estrangeiro, foi decidido que Serginho ficava.

Na jornada seguinte fez dois golos nos 3-2 ao Belenenses. Ficou em branco nos 6-1 com que o Marítimo foi despachado pelo Sporting, mas voltou a marcar no empate a uma bola frente ao Sp. Braga. Até final da época só jogou mais uma vez, no empate frente ao Varzim, que assegurou a permanência do Marítimo, a uma jornada do final. Terminado o campeonato, seguiu viagem de volta ao Brasil, sem notícias nos jornais. Viria a dizer mais tarde que adorou estar na Madeira e jogar no Marítimo, mas os adeptos portugueses gostariam de ter visto mais de um dos melhores goleadores que o futebol brasileiro conheceu nas décadas de 70 e 80. Garoto pobre, do Bairro da Casa Verde, na zona Norte de São Paulo, Sérgio Bernardino, filho de um ferroviário e de uma doméstica, ficou conhecido como Serginho Chulapa porque calçava chuteira 45. Dispensado da Portuguesa enquanto adolescente, chegou a ser entregador de leite antes de ir treinar à experiência no São Paulo. Por lá ficou durante onze anos, notabilizando-se pelos muitos golos que marcava (foram 242 com a camisola do clube) e pelos incidentes disciplinares que protagonizava. Falhou o Mundial de 1978, para o qual esteve pré-convocado, por causa de uma agressão ao fiscal-de-linha Vandevaldo Rangel, que lhe anulara um golo. O resultado foi uma suspensão de 14 meses. Mas há muito mais na carreira de um avançado que não fugia de uma briga e que mais tarde veio a dizer que podia ter feito muito mais golos se não tivesse sido expulso “umas 30 vezes”.

Serghinho deixou o São Paulo em 1982, na sequência do Mundial de Espanha, o tal em que foi titular do escrete por lesão de Careca, e ia assinar pelo Flamengo quando apareceu o Santos, que era o seu clube do coração – e onde veio recentemente a ser treinador. Mudou-se para o clube que celebrizou Pelé, onde acabou por perder a final do Brasileirão de 1983, marcando, no entanto, o golo decisivo no título paulista de 1984. Até final da carreira ainda jogou em Portugal, no Egito e na Turquia, mas sempre com uma atitude que os europeus tinham dificuldades em entender. Do Malatyaspor, por exemplo, saiu porque era suplente. “Dá pra entender? Eu na reserva de um turco?”. Era assim Serginho, um dos maiores goleadores da história do futebol brasileiro que os adeptos do Marítimo puderam apreciar em cinco jogos.