Rabah Madjer é um calcanhar. É o calcanhar na final da Taça dos Campeões Europeus de 1987, o calcanhar que deixou os alemães de joelhos.
2015-12-15

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1982

Rabah Madjer é um calcanhar. É o calcanhar na final da Taça dos Campeões Europeus de 1987, o calcanhar que deixou os alemães de joelhos. Mas Rabah Madjer era muito mais do que isso. Era criatividade, capacidade para encontrar soluções onde os outros viam problemas. Era uma técnica individual muito acima da média, porque fazia tudo bem. Era, até, a irreverência de quem achava que tinha sempre razão e que, em alguns casos, ia para lá do limite. Tudo somado, deu num calcanhar. Porque sem a criatividade, a técnica e a irreverência deste avançado argelino talvez o FC Porto não tivesse ganho aquela final da Taça dos Campeões.

Madjer jogou ao todo cinco épocas no FC Porto. Já chegou com 27 anos, mas deixou marcas. Tal como as Antas o marcaram a ele: não foi tão feliz em nenhum local como o foi ali. Para trás deixava os inícios prometedores no Hussein Dey, em Argel, a luta pelo direito a emigrar e uma passagem atribulada por França, dividida entre os modestos Racing Paris e Tours. Entre as duas etapas vividas no FC Porto andou por Valência e poderia também contar-se a história da saída frustrada para o Bayern Munique, se houvesse confirmação de que foi por ter falhado os exames médicos. Ao todo, nos dragões, ganhou uma Taça dos Campeões, uma Taça Intercontinental, uma Supertaça Europeia, três Ligas portuguesas e duas Taças de Portugal. Currículo suficiente para justificar uma Bola de Ouro africana e as 87 internacionalizações pela Argélia, incluindo a participação em dois campeonatos do Mundo.

Madjer nasceu a 15 de Dezembro de 1958 em Argel. Filho de um florista e de uma doméstica, teve onze irmãos e foi educado dentro dos preceitos da religião islâmica, de que continua a ser seguidor – contou que antes da final da Taça dos Campeões pediu a todos os companheiros de equipa que beijassem a edição do Corão que o pai lhe oferecera e que ficou mesmo comovido por nenhum ter recusado fazê-lo. Rabah começou a jogar futebol no Hussein Dey, a cuja equipa sénior chegou com apenas 16 anos, em 1975. Na segunda época, o clube acabou o campeonato em segundo lugar. Na terceira chegou à final da Taça da Argélia, mas perdeu. E na quarta só sucumbiu na final da Taça das Taças africana. Só em 1979 ganhou o primeiro título, uma Taça da Argélia, em cuja final marcou o golo da vitória do Hussein Dey sobre o Tizi Ouzou (2-1), após uma fuga pela esquerda, já na segunda parte.

Já era, por essa altura, internacional argelino, pois tinha sido chamado a defrontar o Egito, nos Jogos Africanos de 1978. Mas foi em 1980 que a carreira internacional de Rabah Madjer arrancou, primeiro com a presença na Taça de África das Nações, mais uma vez perdida na final, contra a Nigéria, e depois como membro da equipa argelina que chegou aos quartos-de-final dos Jogos Olímpicos de Moscovo. Daí ao Mundial foi um tirinho. A Argélia qualificou-se pela primeira vez e arrancou em Gijón, contra a RFA, campeã europeia. Madjer abriu o ativo, pouco depois do intervalo, numa recarga, Rummenigge ainda empatou, mas Belloumi fez o 2-1 que sentenciou a primeira vitória de uma equipa africana sobre uma europeia na história dos Mundiais. Não chegou para os argelinos passarem à segunda fase porque pelo meio se meteu o jogo da vergonha, o RFA-Áustria com pacto de não-agressão que permitiu o apuramento dos alemães.

Ainda assim, era impossível não reparar em jogadores como Madjer, que também se sentiam atraídos pelo estrangeiro. A federação argelina só permitia que os seus internacionais deixassem o país aos 28 anos (e Madjer só tinha 23), pelo que as coisas se complicaram. Com ameaças de greve à mistura, o destino do avançado acabou por ser o Racing de Paris, que na altura estava na II Divisão francesa mas queria subir. E subiu mesmo, em 1984, com 20 golos de Madjer. Só que 1984/85 correu mal: os parisienses acabaram em último e regressaram à II Divisão. Madjer, esse, foi para o Tours, emprestado, mas em Outubro já estava no Porto. A estreia não podia ter-lhe corrido melhor. No Restelo, com o Belenenses a ganhar ao intervalo por 1-0, Artur Jorge tirou o argelino da direita e colocou-o ao meio, perto de Gomes, com resultados imediatos: três golos em dez minutos, todos com participação direta do argelino. “Estava lesionado num adutor, joguei a uns 70 por cento”, disse Madjer no final do jogo que o FC Porto venceu por 3-2. O que seriam os 100 por cento? Ele encarregou-se de o mostrar nos anos que se seguiram.

Ainda fez 11 golos em 19 jogos nessa época, contribuindo para a vitória portista no campeonato. Na segunda época, já adaptado, marcou menos no campeonato, mas foi uma das inspirações dos dragões na conquista da Taça dos Campeões Europeus: ficaram na história o golo de calcanhar e a assistência para o tento de Juary, a virar a final, contra o Bayern. Depois do jogo, Madjer foi claro: “Devo muito ao FC Porto, mas quero sair de Portugal”, disse, ao ‘L’Équipe’. Mas no início de 1987/88 ainda estava nas Antas. Na época que arrancou com mais um golo de calcanhar, naquele que Madjer identifica como o melhor jogo da sua vida (os 7-1 ao Belenenses), ajudou a decidir a final da Taça Intercontinental no nevão intenso de Tóquio, marcando no prolongamento o golo da vitória sobre o Peñarol, através de um chapéu de muito longa distância. Foi o último jogo que fez pelo FC Porto, antes da saída para o estrangeiro. Cruijff queria levá-lo para o Ajax, o Bayern fez uma proposta, mas quem o levou, em Dezembro de 1987, foi o Valência, que por ele pagou 300 mil contos (milhão e meio de euros).

Apesar de ter feito golos nos primeiros três jogos na Liga espanhola, Madjer não foi feliz por lá e em Setembro de 1988 estava de volta ao Porto. Ainda fez mais duas épocas de bom nível, conduziu a Argélia à vitória na Taça de África de 1990, mas acabou por ser também ele vítima da renovação encetada por Artur Jorge, pelo mesmo Artur Jorge que o levara à conquista da Taça dos Campeões. “Quem teima em jogar como quer e não como eu quero, não joga!”, disse o treinador, como que a justificar os longos períodos de banco – e depois de algum tempo até de bancada – do argelino que os portistas tinham no coração. Madjer ainda jogou no Catar, onde vive atualmente e exerce a profissão de comentador de futebol numa cadeia de televisão, mas saiu do FC Porto como chegou: irreverente, sem fazer concessões. Porque aquele calcanhar, também ninguém lhe disse como fazê-lo. Foi ele que o inventou.