Nas décadas de 30 e 40, os estudantes com mais jeito para a bola entravam e saíam da equipa da Académica conforme faziam as suas licenciaturas. Foi o caso de Lomba, que chegou do Minho, jogou e seguiu a sua vida.
2018-02-24

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1941

A Académica da década de 40 tinha uma rotina: ganhava o regional de Coimbra, apurava-se para o campeonato da I Divisão, onde andava entre o meio e o fundo da tabela, até voltar na época seguinte. O vigor estudantil chegava até certo ponto, a preocupação com os exames levava os jovens jogadores a colocar o futebol em segundo plano e impediam mais altos voos. A equipa da Briosa estava, porém, cheia de talentosos jovens jogadores. Exemplo disso foi Lomba, que defendeu o negro da Académica entre 1939 e o início de 1947, deixando o futebol de elite um dia antes de fazer 27 anos.

O início e o fim tiveram vários pontos em comum. Primeiro, o adversário, que em ambos os casos foi o Benfica. Depois, o resultado, que das duas vezes foi uma derrota por 4-1. Lomba chegou do Minho e jogou pela primeira vez no campeonato a 6 de Fevereiro de 1940, entrando como extremo-esquerdo no onze montado por Albano Paulo para a segunda jornada do campeonato, nas Amoreiras. No último jogo, a 23 de Fevereiro de 1947, na véspera do seu 27º aniversário, foi ao mesmo tempo interior esquerdo e capitão de equipa na visita aos encarnados, já jogada no Campo Grande. Pelo meio ficaram mais 87 presenças no campeonato nacional, mas apenas dois golos, precisamente porque raramente Lomba foi chamado a desempenhar funções tão à frente no terreno.

Depois da primeira presença, Lomba saiu da equipa. Nesse campeonato, que a Briosa acabou em sexto lugar, voltou apenas para mais duas partidas, ambas como médio-esquerdo, já em Maio. E na eliminatória da Taça de Portugal, com que se concluía a temporada portuguesa, até foi defesa esquerdo nos dois jogos com o Boavista (5-1 e 0-5). Este final de época poderia fazer parecer que Lomba estava a entrar na equipa, mas a chegada de Lipo Hertzcka – credenciado treinador, que veio para Portugal fugido da guerra civil de Espanha – atrasou um pouco esse processo. Em Janeiro de 1941, porém, impôs-se em definitivo: já jogou as últimas onze jornadas, quase sempre como defesa esquerdo, no quinto lugar que a Académica obteve no campeonato de 1940/41, marcando presença, por exemplo, nos empates caseiros com Benfica e FC Porto. E esteve também na campanha que levou a equipa até aos quartos-de-final da Taça de Portugal, de onde saiu com duas derrotas ante o Belenenses.

O primeiro golo de Lomba no campeonato chegou a 25 de Janeiro de 1942, a fechar uma goleada de 6-2 ante o Leça FC, no Campo de Santa Cruz. Nesse campeonato de 1941/42, fez parte do onze-base de Alberto Gomes em mais um quinto lugar, falhando apenas duas partidas e marcando presença nas vitórias caseiras sobre Benfica (3-1) e FC Porto (1-0). Lomba tinha-se tornado incontornável e Severiano Correia, o treinador contratado para a época de 1942/43 adotou uma máxima segundo a qual a equipa era quase ele e mais dez: não perdeu um minuto no sexto lugar da Académica nessa época, estatuto que partilhou apenas com dois colegas, o extremo-direito Micael e o avançado-centro e capitão Alberto Gomes. Marcou presença, por exemplo, nas históricas vitórias frente ao Sporting (4-2, no Lumiar) e ao FC Porto (5-2, em Santa Cruz).

A vida dos jogadores da Académica, porém, era muito mais do que o futebol – o que levou a que a partir de determinada altura se levantasse até a questão de se permitir a entrada na equipa de não-estudantes. Em 1943/44, Lomba só esteve disponível a partir do início da segunda volta. A Académica acabaria esse campeonato num mais modesto nono lugar e Lomba faria o seu segundo (e último) golo na I Divisão, num 9-4 ao Salgueiros, a 20 de Fevereiro de 1944. As coisas correram melhor na Taça de Portugal, com a chegada às meias-finais, tendo Lomba sido médio-esquerdo no empate com o Benfica (1-1) em Viseu, insuficiente para reverter a derrota por 6-1 encaixada na primeira mão, sem ele em campo. Apesar de ter apenas 24 anos, o moçambicano já não voltaria a ter a presença permanente na equipa dos seus primeiros anos: jogaria a meio-gás no nono lugar de 1944/45 e no décimo de 1945/46 e despedir-se-ia em 1946/47, no tal jogo com o Benfica.