Artigo 

2016-01-26
Guardiola e o segredo que é ter inimigos

Nunca fui louco pelo tiki-taka, sobretudo na versão apresentada pela seleção espanhola, que a do Barcelona tinha esse upgrade fenomenal que era Messi e as suas acelerações, sempre com a bola colada aos pés. Mas uma coisa é uma preferência estética, uma opção de entretenimento – e fui sempre mais adepto de um futebol esticado do que adornado – e outra é uma avaliação acerca da eficácia que ele permite. Nesse aspeto, não tenho dúvidas: Guardiola está no top dos treinadores mundiais e mostra que não quer de lá sair pela facilidade com que se coloca em causa a cada momento. O segredo, o catalão voltou a explicá-lo hoje em Munique: “Preciso de novas críticas e de novos inimigos. São eles que nos fazem melhorar”. Isso faz toda a diferença, sobretudo para aqueles treinadores que procuram sempre silenciar os inimigos.

Desde que vejo futebol, houve quatro grandes revoluções, nascidas do contributo de quatro visionários. A “zona pressing”, que terá nascido em Liedholm, mas cujo expoente máximo foi o Milan de Sacchi; o jogo de posse a dois toques com largura permanente para que evoluiu o Barcelona de Johan Cruijff, partindo do futebol total da “Laranja Mecânica” que ele comandava em campo; o jogo mais direto e muito feito do aprimorar das transições (ofensivas e defensivas) que caracterizava as equipas de José Mourinho após a chegada ao Chelsea; e o tiki-taka do Barcelona, desenvolvido por Guardiola a partir do modelo de Cruijff mas adaptado aos novos tempos. Com o tempo, depois de ter perdido a Liga dos Campeões para o Inter de Mourinho, em 2010, Guardiola subiu ao topo da hierarquia e, para lá permanecer, foi sempre à procura de novos desafios.

Sem ele, o Barcelona mudou: Luis Enrique fez um bocado a ponte entre o futebol trabalhado da equipa de Guardiola e o jogo de transições de Mourinho, com três avançados capazes de esticar a equipa e um meio-campo de vistas mais largas. Mas Guardiola também evoluiu no Bayern, tirou gente de trás para meter na frente, manteve os princípios básicos de jogo triangulado e continuou a ganhar. Mais: continuou a ganhar com facilidade. É por isso que segue para Inglaterra. Porque se há coisa que distingue Guardiola é a sua inteligência superior, a inquietação que o impede de se sentir cómodo onde quer que seja. Há-de chegar o dia em que Guardiola não ganhará, mas uma coisa é certa: não será por acomodamento.