Artigo 

2016-01-11
CR7 contra o Barça

Cristiano Ronaldo, Messi ou Neymar. Um deles vai ganhar hoje a Bola de Ouro para o melhor futebolista do Mundo de 2015. O Mundo inteiro aposta em Messi, líder do Barcelona que ganhou tudo no ano passado e que assim poderia alargar para 5-3 a sua batalha privada com Ronaldo, que já dura desde Janeiro de 2009. Mas há nesta Bola de Ouro uma série de nuances que podem baralhar as contas, como a política do voto por blocos ou a definição do que deve ser privilegiado num prémio individual. A segunda questão já não é nova e é uma daquelas que não tem nem terá nunca resposta – só serve para entreter. A primeira é a mais interessante, porque depende dos blocos onde a solidariedade funcionar melhor. Ainda assim, nem toda a política do Mundo deve roubar a Messi mais uma consagração.

Olha-se para os três nomeados e descobrem-se três máquinas de fazer golos. Ronaldo, vencedor em 2008, 2013 e 2014, fez no ano de 2015 54 golos em 52 jogos pelo Real Madrid, aos quais somou mais três em cinco jogos pela seleção portuguesa. Messi, que ganhou em 2009, 2010, 2011 e 2012, marcou 48 golos em 53 desafios pelo Barcelona, juntando-lhes mais quatro em oito partidas pela Argentina. E Neymar, que sucede a Xavi (2011), Iniesta (2012), Ribery (2013) e Neuer (2014) como desafiante do ano – todos os anos aparece um a partilhar o plateau com os dois donos da bola –, somou 41 golos em 54 jogos pelo mesmo Barcelona, mais quatro em nove jogos pelo Brasil. Logo à partida, nas estatísticas, a superioridade vai para Ronaldo. Mas os jogadores do Barcelona contrariam essa vantagem com a evidência da sua superioridade coletiva: ganharam Liga espanhola, Taça do Rei, Liga dos Campeões e Mundial de clubes contra um rotundo zero do Real Madrid de Ronaldo.

É aqui que aparecem uns a dizer que este não é um prémio de goleadores – para isso está lá a Bota de Ouro – e outros a responder que também não é um prémio coletivo – que para isso existem as competições de clubes. Essa é, portanto, uma discussão estéril, porque todos têm razão e porque não é isso que está em causa. A Bola de Ouro baseia-se em votações subjetivas de jogadores, treinadores e jornalistas e se tanto os golos como os títulos coletivos ganhos são fatores capazes de influenciar a decisão de quem vota, não é menos verdade que a escolha nunca será científica e baseada em fatores mensuráveis. Há coisas a medir, mas não são essas. As influências, por exemplo. Os mais velhos lembrar-se-ão das transmissões dos festivais da Eurovisão de antigamente, onde a canção portuguesa tinha sempre uns pontinhos assegurados, vindos do júri espanhol, fosse por solidariedade geográfica ou política, quando os dois países ibéricos eram as últimas ditaduras de direita da Europa. No futebol, a coisa funciona um bocado assim também. O problema é que a globalização veio baralhar os blocos.

De um lado, o bloco do Barcelona – Neymar e Messi – contra o bloco do Real Madrid – Cristiano Ronaldo. Depois, o bloco dos sul-americanos – os mesmos Neymar e Messi – contra o bloco europeu – mais uma vez representado por Ronaldo. De seguida, o bloco de idioma castelhano – Messi sozinho – contra o dos luso-falantes – aqui Ronaldo e Neymar, sendo que o português pode ter pelo seu lado os que falam inglês, por ter jogado na Premiership. E, mesmo que não se fale em verbas a circular de cá para lá e de lá para cá, algo tão em voga quando se vota pela atribuição de sedes de campeonatos do Mundo da FIFA, há ainda uma dúvida remanescente: poderão os membros de um mesmo bloco dividir os votos respetivos entre si, facilitando a vitória de quem está sozinho? É que se nas presidenciais portuguesas, por exemplo, a esquerda prefere pulverizar e dividir os votos a ver se consegue forçar uma segunda volta, na Bola de Ouro não há segunda volta. Ganha quem tiver mais um voto. Messi? Creio que sim. Mas espero para ver.

In Diario de Notícias