Artigo 

2015-12-28
Batalha pelo crescimento

Jorge Jesus voltou a dirigir-se aos adeptos que estavam em Alvalade esta semana e recordou aquilo que tinha dito no ato da apresentação: que o Sporting ia ser candidato ao título. Aliás, renovou a promessa de andar lá, “encostado a eles”, num discurso aos adeptos que foram ver a equipa treinar-se e no qual enumerou aquilo que a equipa já conseguiu em cinco meses de trabalho. Mas Jesus, melhor do que ninguém, sabe que para andar lá “encostado a eles”, a equipa precisa de mais um salto em frente. Foi assim que conseguiu dois dos seus três títulos nacionais, sendo que o outro foi ganho a colar com cuspe os remendos de uma equipa que sentiu demasiado os efeitos do mercado de inverno, no qual perdeu Enzo Pérez. O que pode parecer pouco mas se notou muito porque em anos anteriores a equipa já tinha perdido Javi García, Witsel e Matic.

A época de 2014/15 foi a exceção nos títulos de Jesus. Nela, o Benfica baixou a média de pontos por jogo do Natal para a frente e mesmo assim conseguiu ser campeão, muito graças a um arranque superlativo: tinha 2,64 pontos por jogo até ao Natal e somou 2,40 pontos por jogo entre o Ano Novo e o fim da Liga. Valeu-lhe um início mais tímido que o atual do FC Porto de Julen Lopetegui, com apenas 2,21 pontos por jogo até à noite de Consoada (contra os 2,57 de agora), e uma ponta final não muito afirmativa dos dragões, com 2,55 pontos por jogo, reflexo, por exemplo, da incapacidade para ganhar o clássico na Luz que os devolveria à luta pelo título. Ora desta vez o FC Porto já está na frente e, se mantiver o “modus operandi” da época passada, Lopetegui não tem a rotatividade para o atrapalhar e lhe roubar pontos. Há um ano, por esta altura, o basco tinha o onze consolidado e, mesmo estando agora também na Taça de Portugal e na Liga Europa com responsabilidades que não tinha na Champions, tudo leva a crer que possa pelo menos manter a pedalada até ao final da Liga. Daí que, caso queira mesmo andar lá em cima, “encostado a eles”, Jesus saiba que tem de repetir o que conseguiu nos seus primeiros dois títulos com o Benfica e subir a média pontual a partir de Janeiro. Em 2009/10 cresceu de 2,35 para 2,68 pontos por jogo e em 2013/14 aumentou a produtividade de 2,35 para 2,56 pontos por jogo. O Sporting de Jesus viaja com uma média de 2,50 pontos por jogo, mas para ser campeão pode ter que melhorar.

As duas épocas em que o Benfica de Jesus aumentou a produtividade de Janeiro para a frente tiveram outro ponto em comum, que foi uma vitória sobre o FC Porto em casa, por esta altura do inverno: 1-0 a 20 de Dezembro de 2009 e 2-0 a 12 de Janeiro de 2014. O calendário fez a sua parte e marcou um Sporting-FC Porto para 2 de Janeiro. Resta perceber se a equipa de Jesus faz também a sua ou se, permitindo um bom resultado ao FC Porto, perde a oportunidade de afirmar no campo o que o treinador tem dito aos adeptos. É que se não aproveitar a oportunidade, o Sporting pode vai ter que se ver a contas com o Benfica de Rui Vitória. O Benfica está mais perto do que muitos julgariam possível depois dos 3-0 com que foi despachado pelos leões na Luz, em Outubro, e ainda vem muito a tempo de interferir na guerra do título. Sobretudo se crescer de produção. O histórico de Rui Vitória no V. Guimarães não é de crescimento pós-natalício constante, mas é de crescimento nas épocas em que os inícios defraudaram as expectativas. Como foi o caso com este Benfica, que segue com apenas 2,21 pontos por jogo, a pior produção pré-natalícia na Luz desde 2010/11, a época em que o FC Porto de André Villas-Boas ganhou o campeonato a passear.

Voltando a este Benfica, a questão que se coloca é a de saber se o modo de trabalho de Rui Vitória permite pensar num crescimento na segunda metade da temporada. Ora, os dois melhores arranques de Rui Vitória em Guimarães (2,00 pontos por jogo em 2014/15 e 1,64 pontos por jogo em 2013/14) conduziram a um decréscimo de produtividade após o Ano Novo (1,35 e 0,75 pontos por jogo, respetivamente). Aplica-se aqui que nem uma luva a teoria da desresponsabilização que foi usada acerca do estoiro dado pela equipa vimaranense na época passada, por exemplo, na qual até chegou ao Natal à frente do Sporting de Marco Silva. Chegou aos jogadores a mensagem de que estavam a portar-se demasiado bem (iam a par dos Ferraris e só conduziam um Fiat 600) e isso levou-os a baixar o ritmo daí para a frente. Nas épocas em que o início foi mais tremido, porém, Vitória soube reunir a equipa e aumentar as médias na segunda metade da Liga. Foi assim em 2011/12 (de 1,27 para 1,82 pontos por jogo) e em 2012/13 (de 1,25 para 1,38). Ora é desse acréscimo que o Benfica precisa para voltar a entrar na guerra.

Claro que tanto na história de Jesus como na de Vitória – na de Lopetegui dificilmente isso será tema – há que ter em conta o papel desempenhado pelo mercado de Janeiro. Mas a ideia que fica para já é a de que vamos ter Liga disputada por mais uns meses. A começar já no sábado que vem, com o V. Guimarães-Benfica e o Sporting-FC Porto.