Artigo 

2015-11-22
Cinco razões para Jesus ter mexido com o dérbi de Lisboa

É inquestionável que Jorge Jesus deu a volta ao dérbi de Lisboa. Se nos seis anos que passou no Benfica perdeu apenas um em 17 – dois em 18, vá lá, se contarmos o da Taça de Honra, com muitas segundas escolhas metidas ao barulho e em pré-época –, nos cinco meses de Sporting já leva três vitórias em três. Alguma coisa mudou. E por muito que isso tenha custado a quem antes perdia ou custe a quem perde agora, não foram os árbitros que deixaram de gostar de vermelho para passarem a gostar de verde. Acreditar nisso é como acreditar na Carochinha ou no Pai Natal.

Quando chegou ao Benfica, Jesus disse com todas as letras que ia colocar os encarnados a jogar o dobro. Nada disso é mensurável, mas sendo verdade que a equipa de Quique Flores jogava de facto muito pouco, o crescimento do futebol do Benfica foi uma evidência que se refletiu em títulos nacionais. E as razões foram muito simples e semelhantes às que agora motivaram o crescimento do Sporting nos dérbis de Lisboa. Assim de repente, identifico cinco: a aplicação concreta de uma ideia de jogo a um grupo de jogadores; a empatia do treinador com os seus favoritos; o realismo nas escolhas e nas decisões; uma cultura de exigência que chega a roçar o insuportável e um instinto assassino de bom malandro. Muitas destas razões servem também, pela inversa, para explicar os problemas que Rui Vitória está a sentir no Benfica. Mas isso é outra conversa…

Há um futebol à Jesus. Já havia no Benfica, continua a haver no Sporting. Ele pode sofrer ligeiras mutações de ano para ano, de grupo de jogadores para grupo de jogadores, mas está lá para quem o quiser ver. Baseia-se num ritmo intenso; em diagonais dos alas para o espaço interior; na procura alternada de profundidade nos corredores laterais, ora pelo defesa lateral, ora por um dos avançados; em triangulações na busca constante do espaço vazio e em presença massiva na área na altura de meter a bola naquilo a que Jesus chama “zona de definição”. Era assim que jogava o Benfica de Jesus e é assim que joga o Sporting de Jesus. E o treinador já domina tão bem esta ideia de jogo que vai aperfeiçoando a noção de quem precisa de recrutar para a interpretar. Esta adequação dos jogadores à ideia de jogo do treinador é um trunfo que Rui Vitória não tem no Benfica, por exemplo. Porque quis trazer ideias novas mas esbarrou num grupo que era campeão nacional mas estava formatado e era adequado às antigas: a questão Jonas nasce aí.

A tal escolha de jogadores de acordo com as suas ideias leva Jesus a criar sempre um grupo de favoritos, de jogadores que são os dele. Neste Sporting há os jogadores “de Jesus” e os que lá estão porque têm qualidade mas não encaixam tão bem nas ideias do treinador. Montero é um destes casos e por isso era evidente que nem o desgaste motivado pelas viagens transatlânticas de Ruiz levaria o treinador a manter o colombiano em campo quando quisesse fazer a primeira substituição no dérbi. Porque Ruiz é um jogador “de Jesus”. Este fenómeno, que leva a que os ex-jogadores de equipas orientadas por Jesus o amem ou odeiem, consoante faziam parte ou não dos favoritos do treinador, leva a que este Sporting tenha um onze bastante consolidado e taticamente consciente, mas baixe muito de rendimento quando tem que lhe fazer múltiplas alterações. É por causa desta empatia com os “seus” jogadores, que já não consegue criar em grupos muito alargados, e não devido a qualquer inadequação do seu 4x4x2 às provas da UEFA, que Jesus não tem tido a nível internacional o sucesso que consegue intramuros. Só o lastro ganho junto do grupo com conquistas nacionais lhe permitiu chegar a duas finais da Liga Europa com o Benfica.

Depois, Jesus é extremamente realista nas escolhas que faz. Os adeptos gostam de ver miúdos da formação a jogar, gostam de trufas e caviar a preço de sandes de courato, mas o treinador sabe que isso raramente se encontra e que no final vai ser avaliado pelos troféus ganhos e não pelo total de miúdos que lançou. Por muito que no Benfica agora andem radiantes com a quantidade de jovens promovidos por Rui Vitória ou que a Sporting TV pergunte a Jesus se para ele tem algum significado ter acabado o último dérbi com sete jogadores da formação, o mais certo é ele nem ter pensado nisso por um segundo. Porque o que lhe interessa é ganhar. Com jovens formados em casa ou velhos contratados fora. E é por isso que o Sporting vai mexer no mercado de Janeiro. Porque se Jesus não lançava miúdos no Benfica não era por não gostar deles, mas sim porque gostava mais de ganhar.

Esta noção vem construir também a cultura de exigência de Jesus, que nalguns casos chega a roçar o insuportável. A verdade é que o treinador não está ali para ser amigo dos jogadores ou para ser compreensivo com as falhas deles. Está lá para tirar o melhor de cada um e, à falta de outras mais polidas, a forma que Jesus encontra para o fazer é ser tão exigente que passa dos limites. Ainda não se viu nada disso no Sporting, mas o modo como o treinador recriminou Eliseu por este ter feito o penalti que custou ao Benfica a derrota em Paços de Ferreira, na época passada, por exemplo, chegou a motivar vergonha alheia. Não estando lá dentro, não é difícil de imaginar as conversas no balneário.

E nessas conversas, como no que diz para fora, Jesus far-se-á também valer da sua retórica de bom malandro. A comunicação de Jesus pode parecer básica, mas é só porque muita gente se centra no que chama mais a atenção: as gaffes gramaticais, a incapacidade para pronunciar os nomes estrangeiros ou a bazófia sem limites de quem se julga mesmo o melhor do Mundo. Mas a comunicação de Jesus é muito mais do que isso. É a comunicação de quem cresceu a jogar à bola na rua e não hesita em humilhar se isso lhe permitir ganhar mais vezes. De quem não é um caso exemplar de instrução mas é um compêndio de ratice futebolística. De quem sabe que a bazófia pode voltar em dobro e acertar-lhe na testa se perder (como no desastroso final de época de 2013), mas que ao usá-la está a contribuir para vir a ganhar mais vezes.

No final da época, Jesus pode ou não ser campeão pelo Sporting. Mas, quer seja quer não seja, uma coisa é certa: os seus defeitos e virtudes são conhecidos de quem anda no futebol e serão parte fundamental da explicação dos resultados finais.