Artigo 

2015-11-06
O jornalismo e a falta de homens providenciais

Em tempos, fazia-se carreira no jornalismo através da bajulação. Era simples: sempre que alguém vivia uma tarde ou noite desastrosa, começava-se a análise com um ponto prévio do tipo “fulano é um extraordinário jogador, mas…” Não gosto de insultar a inteligência de quem faz o favor de me ler e por isso mesmo nunca fui por esse caminho – se escrevo sobre alguém é porque esse alguém já terá feito algo de notável, merecendo por isso a atenção de todos nós. Mesmo que no dia em apreço possa ter estado pior do que habitualmente. E agora que acho que já nos entendemos acerca das regras de convivência acerca de arbitragem para partilharmos este espaço, podemos seguir em frente e definir bem o que se analisa aqui. Não são pessoas! São situações.

Quem aqui passa com alguma regularidade já sabe que não vai ler explicações de jogo baseadas em erros de arbitragem. Esse é o caminho mais fácil e, sobretudo, nunca será consensual se quisermos alargar a abrangência. Prefiro sempre colocar o foco naquilo que pode ser debatido com um mínimo de elevação. Já vai sendo altura de chegarmos a acordo acerca de outra coisa. É que não acredito em homens providenciais, em gente que faz sempre tudo bem. Nem em asnos completos, daqueles que fazem sempre tudo mal. Entre os que me dizem “a culpa disto é toda tua!” e os que chegam a comparar o tempo que levo a escrever quando ganha um clube com o tempo que demoro quando ganha outro, aquilo que mais vou lendo por aqui ou que me dizem os que me abordam nos estádios é: “você uma vez disse mal de fulano e agora diz bem!”. Como se isso fosse estranho...

Já fiz avaliações positivas a Jorge Jesus, pela forma como mudou o futebol do Benfica ou como preparou os dois jogos com os encarnados esta época e colocou o Sporting na liderança do campeonato. Mas também lhe fiz avaliações negativas, quando geriu mal as substituições em Moscovo ou falhou na motivação dos jogadores que colocou em campo na Liga Europa. Rui Vitória? Já o elogiei quando teve a coragem de apostar em jovens jogadores que se afirmaram, como Nélson Semedo ou Gonçalo Guedes, como o contestei quando essas apostas me parecem pouco criteriosas, como a feita em Clésio. Como antes lhe tinha elogiado o arranque de época que tinha feito em Guimarães, com vários miúdos da equipa B, e criticado a frase alusiva ao Ferrari e ao Fiat 600, que veio tirar exigência à equipa e esteve na génese de uma segunda metade de época menos conseguida. Julen Lopetegui? Já escrevi e disse que construiu uma equipa rotinada, que tem uma ideia de jogo consistente, mas também que a rotatividade que impôs à equipa na época passada atrasou a construção de um onze e que falha na motivação dos seus jogadores para partidas frente a adversários mais modestos da Liga portuguesa. E podia continuar a dar exemplos, porque, repito, não acredito na existência de homens providenciais, daqueles que nunca falham.

É aqui chegados que me dizem outras duas coisas. Que analisar é fácil e tomar decisões é difícil. E que elogio muitas vezes os que ganham e critico os que perdem. Pois bem, eis aquilo em que acredito. Acredito que cada um está para o que está. Que os jornalistas fazem jornalismo, os jogadores jogam, os treinadores treinam e os adeptos batem palmas. E que, por isso mesmo, quem quer ler análises que digam sempre bem ou sempre mal – quer os analisados façam o seu trabalho com competência ou sem ela – deve ficar-se pelas páginas de adeptos ou ver os das suas cores nos programas televisivos. Eu prefiro pensar. É uma mania que tenho.