Artigo 

2015-10-09
Reflexões em torno dos 23 para o Europeu 2016

Com a qualificação para a fase final do Europeu assegurada na penúltima jornada, Fernando Santos começa já no domingo, em Belgrado, a preparação para a prova francesa. Aliás, só assim se entendem as dispensas de Ricardo Carvalho, Tiago e Ronaldo e as chamadas ao grupo de dois potenciais estreantes, como são Ricardo Pereira e Rui Fonte. A altura é, já, de olhar para quem poderá fazer a viagem e, embora os oito meses de competição que vão seguir-se nos clubes tenham uma palavra muito forte a dizer, é evidente que há gente com mais de meio bilhete tirado numa equipa onde, apesar de não parecer, a renovação até tem vindo a ser feita de forma gradual. Manda a história recente, porém, que ela seja acelerada. E isso dificilmente se fará antes da aventura nos relvados franceses.

Olhemos para as lições que nos ensina o passado recente. Desde 2000, desde o Europeu em que Portugal inaugurou uma série de oito presenças consecutivas em fases finais, há duas regras às quais só a equipa escolhida por António Oliveira, em 2002, escapou. E com tristes resultados, diga-se, pois caiu na primeira fase. A primeira é que, havendo mudança de selecionador, mudam pelo menos 12 convocados de uma fase final para a seguinte. A segunda a de que a uma fase final com convocatória mais conservadora (com menos alterações, como foi a de 2014, em que só foram alterados sete nomes) segue-se sempre outra em que muda pelo menos meio plantel. Portugal encarou três dessas oito fases finais (2006, 2008 e 2014) com o mesmo responsável da anterior e em dois desses casos viu-se alguma continuidade: Luiz Felipe Scolari mudou apenas seis nomes de 2004 para 2006 e até foi às meias-finais e Paulo Bento alterou sete de 2012 para 2014, onde foi eliminado na fase inaugural. Zero conclusões, portanto.

Mas o próprio Scolari, que se manteve de 2006 para 2008, já sentiu a necessidade de mudar doze nomes na sua terceira fase final. E, com a tal exceção de 2002, sempre que houve mudança de selecionador, como sucederá agora, com a troca de Paulo Bento por Fernando Santos, nunca a equipa teve menos do que essas doze alterações. Foram as feitas por Scolari de 2002 para 2004 e depois por Paulo Bento de 2010 para 2012. E teriam também sido as operadas por Carlos Queiroz de 2008 para 2010 não tivesse a lesão de Nani forçado a sua troca por Ruben Amorim, elevando assim o total de alterações do professor para 13. Em 2002, Oliveira mudou apenas oito nomes relativamente aos que tinham estado no Euro’2000 e Portugal baqueou na primeira fase. Aliás, se repararmos, as três convocatórias com menos alterações (2002, 2006 e 2014) seguiram-se às três competições nas quais Portugal atingiu as meias-finais. Algo que não acontece desta vez.

Como de 2014 para 2016 houve mudança de selecionador e ainda por cima a convocatória de 2014 foi conservadora e nesse ano a prestação nacional foi fraca, mandam a lógica e a tradição que se façam pelo menos umas doze mudanças no lote de convocados que esteve no último Mundial. A questão é que o grupo que Fernando Santos tem vindo a utilizar não as prenuncia. Nos seis jogos de qualificação que o engenheiro dirigiu, ganhando-os todos, foram utilizados 25 jogadores: o guarda-redes Rui Patrício; os laterais Vieirinha, Cédric e Bosingwa à direita e Fábio Coentrão, Eliseu e Raphael Guerreiro à esquerda; os centrais Ricardo Carvalho, Pepe, Bruno Alves e José Fonte; os médios João Moutinho, Tiago, Danilo, William Carvalho, João Mário, Adrien Silva e Veloso; e os avançados Ronaldo, Nani, Danny, Quaresma, Éder, Bernardo Silva e Postiga. É verdade que 13 destes 25 não estiveram na fase final do Mundial do Brasil, mas nem é verosímil que o grupo ande só em torno deles (há só um guarda-redes e depois há três laterais de cada lado) nem algumas das alterações feitas equivaleriam a um rejuvenescimento, pois passaram pelo regresso de alguns veteranos anteriormente proscritos por Paulo Bento, como Ricardo Carvalho, Tiago ou Bosingwa. Ainda assim, o melhor é ver-se a coisa caso a caso.

Na baliza, Rui Patrício é aposta segura, pois foi titular em todos os jogos “a doer” com Santos (6 vezes titular/0 vezes suplente utilizado), devendo os dois lugares restantes sobrar para Anthony Lopes (0/0) e quem estiver melhor entre Beto (0/0) e Eduardo (0/0). Ventura (0/0) e Marafona (0/0), que também passaram pelo banco no período de Fernando Santos, deverão ter de esperar pela sua vez.

Assumindo que o engenheiro levará quatro laterais à fase final, pois nenhum deles está à vontade para jogar nos dois corredores, libertando assim uma vaga, haveria que riscar dois do lote de utilizados na qualificação. Assim sendo, as coisas ficam difíceis para Bosingwa (2/0) e Raphael Guerreiro (1/0), podendo a escolha cair em Vieirinha (2/0) e Cédric (2/1) para a direita e em Coentrão (3/0) e Eliseu (4/0) na esquerda. Ivo Pinto (0/0), Tiago Pinto (0/0) e Tiago Gomes (0/0), que também chegaram a ser chamados, devem ser cartas fora do baralho, mas o mesmo já não poderá dizer-se de Nelson Semedo (0/0) e Antunes (0/0), aos quais uma boa época pode assegurar uma vaga.

Outra tentação habitual para os selecionadores que sabem que só podem levar 23 jogadores a uma fase final é a de cortar um central, levando apenas três e aproveitando a possibilidade de fazerem baixar um dos médios defensivos em caso de improvável necessidade. Fernando Santos, porém, pode ver-se impedido de o fazer, dada a veterania dos seus centrais. Poderia ser um risco encarar uma fase final só com Ricardo Carvalho (6/0), Pepe (3/0) e Bruno Alves (3/0), além de que José Fonte, suplente utilizado em três partidas (0/3) fez o suficiente nesta fase de qualificação para justificar a chamada. Carriço (0/0), Paulo Oliveira (0/0), Luís Neto (0/0) e André Pinto (0/0) foram os outros defesas-centrais chamados por Fernando Santos, o que lhes deixa uma réstia de esperança de virem a estar em França.

Com onze vagas ocupadas (três guarda-redes, quatro laterais e quatro centrais), sobram apenas doze para o meio-campo e o ataque. Quando assim é, o normal é que elas sejam dividias ao meio. Ora nos médios não se adivinha que Santos venha a prescindir de Moutinho (5/0) e Tiago (5/0), sempre titulares a não ser na Albânia, quando de tal se viram impedidos, o primeiro por lesão e o segundo por suspensão. Para as quatro vagas restantes partem na “pole position” William Carvalho (1/3) e Danilo (2/0), os dois elementos mais defensivos. Muito em aberto estão as duas vagas restantes (que até pode ser só uma, se Santos entender que pode utilizar Coentrão a meio-campo). Entre os que jogaram a qualificação há Veloso (1/0 e um golo importante, a dar a vitória na Albânia), João Mário (0/1) e Adrien (0/1), mas a época está a correr particularmente bem a André André (0/0), não se podendo ainda desprezar as hipóteses André Gomes (0/0), André Almeida (0/0) ou Pizzi (0/0), todos eles episodicamente chamados durante o período de Fernando Santos.

Assumindo que sobram seis vagas para o ataque, parece evidente que cinco jogadores têm bilhete reservado. São eles Ronaldo (6/0), Nani (6/0), Danny (5/1), Quaresma (0/5) e até Bernardo Silva (2/0). Sobra um lugar, que em condições ideais seria para o tal ponta-de-lança que fosse capaz de fazer tudo aquilo que Ronaldo não faz (fixar os centrais, arranjar espaço para o CR7, pressionar a saída de bola do adversário…). Não se encontrando esse jogador, sobram o também utilizado Éder (0/3). Mais difícil está a hipotética convocatória de Postiga (1/0) ou até Hugo Almeida (0/0), mas uma vez que esta vaga dependerá muito daquilo que os jogadores farão durante esta época, há que tomar atenção a todos os outros que o engenheiro chegou a chamar: Varela (0/0), Cavaleiro (0/0), Ukra (0/0), Rafa (0/0), Lucas João (0/0), Rui Fonte (0/0) ou Ricardo Pereira (0/0). E quem sabe se não é aqui que aparece a tradicional surpresa de última hora, proporcionada pela fase final da época desportiva. Em 2014 foi Rafa. Desta vez pode ser qualquer um, com Rúben Neves a assumir a dianteira entre os candidatos. 

PONTO DA SITAÇÃO FACE À CONVOCATÓRIA (só elementos chamados por Fernando Santos)

 

Guarda-redes (3)

Rui Patrício – 100%

Anthony Lopes – 50%

Beto – 20%

Eduardo – 20%

Ventura – 5%

Marafona – 5%

 

Lateral direito (2)

Vieirinha – 90%

Cédric – 60%

Nelson Semedo – 30%

Bosingwa – 15%

Ivo Pinto – 5%

 

Lateral esquerdo (2)

Coentrão – 100%

Eliseu – 60%

Raphael Guerreiro – 20%

Antunes – 10%

Tiago Gomes – 5%

Tiago Pinto – 5%

 

Defesa central (4)

Ricardo Carvalho – 100%

Pepe – 100%

Bruno Alves – 90%

José Fonte – 65%

Paulo Oliveira – 15%

Carriço – 15%

Neto – 10%

André Pinto – 5%

 

Médios (6)

João Moutinho – 100%

Tiago – 100%

William Carvalho – 90%

Danilo – 80%

João Mário – 60%

André André – 60%

Veloso – 50%

Adrien Silva - 25%

André Almeida – 15%

André Gomes – 15%

Pizzi – 5%

 

Avançados (6)

Ronaldo – 100%

Nani – 100%

Danny – 80%

Quaresma – 80%

Bernardo Silva – 70%

Éder – 50%

Rafa – 25%

Varela – 20%

Cavaleiro – 15%

Rui Fonte – 15%

Ricardo – 15%

Lucas João – 10%

Hugo Almeida – 10%

Ukra – 5%

Postiga – 5%