Artigo 

2018-02-25
A arte da desconfiança

Sérgio Conceição voltou a mostrar que está muito bem ligado à realidade quando, após a vitória do FC Porto no Estoril, a meio da semana, desvalorizou os cinco pontos que a sua equipa passou a ter de vantagem sobre os perseguidores e enalteceu a necessidade de desconfiar. Ganhar, no desporto de alta competição, passa sempre por desconfiar, por mais que os adeptos incondicionais olhem sempre para a desconfiança alheia como se de um ataque se tratasse e estejam prontos a soltar os cães a quem desconfia dos seus heróis. O treinador portista, que no decurso deste campeonato criou uma expressão exemplar, que é a “pressão boa”, sempre foi desconfiado – às vezes até demais – e sabe, por isso, que mais do que desconfiar, é preciso fazê-lo na altura certa. Porque depois há alturas em que a confiança é fundamental.

Contam-se muitas histórias acerca de reviravoltas épicas no campeonato, mas quando nos ligamos à realidade verificamos que é raríssimo uma equipa desperdiçar a vantagem que o FC Porto tem já bem dentro da segunda volta. Uma coisa é recuperar cinco ou mais pontos em Novembro, outra é fazê-lo em finais de Fevereiro, inícios de Março. Em mais de 80 anos que o campeonato leva, mostrámo-lo no Bancada, só por quatro vezes um campeão anunciado passou assim a frustrado segundo classificado – e só uma delas foi neste século. Essa, como todas as outras, ter-se-á devido antes de todas as outras a uma razão muito simples: o favorito não desconfiou.Aconteceu em 2012 e foi o FC Porto quem se ficou a rir. Viu o Benfica perder em Guimarães e empatar em Coimbra, o que lhe permitiu anular os tais cinco pontos de diferença num ápice, e foi depois ganhar à Luz, por 3-2, passando em definitivo para a frente. Até final da época ainda alargou bastante essa vantagem.

Tudo porque aí, que já era tarde, o adversário passou a desconfiar. Confiou em demasia primeiro, perdeu os pontos e a vantagem moral, e isso fê-lo entrar no confronto direto – onde mais do que desconfiar importa confiar – com medo de perder. Essa é a pressão má, a pressão à qual se uma equipa cede está perdida. Mas há a pressão boa, que é a que o FC Porto sente neste momento: a pressão de segurar o primeiro lugar e, mais ainda, de manter a almofada de vantagem de que dispõe por estes dias. A altura exata de aplicar esta pressão boa, sabe-o Sérgio Conceição, é hoje, antes da deslocação a Portimão, onde o espera uma equipa capaz de jogar bom futebol, que já lhe dificultou muito a vida no Dragão, para a Taça de Portugal. Só escorregando frente ao Portimonense o FC Porto se arrisca a entrar no decisivo (para os leões) jogo com o Sporting, no final da próxima semana, ao alcance dos rivais na tabela e sem a confiança necessária para tentar fazer prevalecer os seus argumentos. Que, é bom que se diga, foram crescendo ao longo da época.

A forma como Sérgio Conceição geriu a baliza é prova disso mesmo. Quando precisou de passar ao grupo a mensagem de que todos contavam e que não admitia que ninguém se acomodasse nos treinos, encostou Casillas e promoveu José Sá a primeira opção. Mas a verdade é que Sá, que durante a época pode até ter chegado a admitir que estava entre os favoritos a um dos três lugares de guarda-redes no Mundial, não está ainda à altura de Casillas. E um erro num jogo onde esse mesmo erro acabou por ser insignificante – o 0-5 com o Liverpool – foi o pretexto de que o treinador necessitava para fortalecer a candidatura ao título, regressando à fórmula inicial. Por mais importante que seja lançar Sá para o futuro do clube, no qual ele tem todas as condições para figurar, o presente ainda mostra um Casillas mais competente, sobretudo em jogos de exigência máxima. E também aqui Conceição acertou no timing: desconfiou primeiro, quando atacou o acomodamento do espanhol, e confiou depois, quando lhe devolveu as redes. Meteu-lhe em cima a tal “pressão boa”a que ele, de tão habituado, dificilmente deixará de responder à altura.