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Crédito: Facebook
2018-02-11
As equipas B e o futebol português

Há uma contradição insanável na argumentação dos que querem reduzir o contingente de equipas B autorizadas a participar na II Liga do futebol nacional ou até, mais radical, acabar com elas. Claro que é sempre possível encontrar formas de melhorar o enquadramento competitivo de todo o edifício do futebol nacional, mas de uma coisa tenho a certeza: a inclusão das equipas B na II Liga foi a melhor medida tomada no futebol em Portugal nos últimos dez anos. Tirá-las de lá pode satisfazer clientelas, mas nunca melhorará as coisas.

Não é preciso ser um génio da estratégia para perceber que a razão fundamental pela qual os clubes querem reduzir a presença de equipas B ali tem a ver com a vontade de ter mais vagas para eles próprios. O que já de si é bizarro mas naturalmente aceitável, mesmo que seja muito contraproducente. Senão vejamos. O que se ganhou com a inclusão das equipas B na II Liga? Ganhou-se enquadramento competitivo imediato para os melhores jogadores saídos do escalão júnior, que assim podiam continuar a jogar, a ver a sua evolução devidamente acompanhada, em vez de andarem de empréstimo em empréstimo até ao momento em que se perdiam para o futebol num qualquer clube de Chipre ou da Bulgária.

Se é de resultados que precisam, aqui vão eles. As equipas B tiveram entrada na II Liga em 2012. A seleção nacional de sub21, que falhara a qualificação para as duas edições anteriores do Europeu da categoria (2011 e 2009) e que não passara da primeira fase das duas que tinha sido disputadas antes dessas (2007 e 2006), ainda falhou a presença em 2013 (por causa de uma derrota na Rússia em Outubro de 2011), mas foi depois finalista vencida em 2015 e não perdeu um jogo competitivo entre Outubro de 2011 e Junho de 2017. Após a ausência na prova de 2009, a seleção nacional de sub20 vai com quatro Mundiais seguidos a superar a fase de grupos, tendo sido eliminada nos últimos dois (2017 e 2015) no desempate por penáltis, nos quartos-de-final. São resultados que vão muito para lá da qualidade de uma geração em particular e que, no limite, pela habituação que estes jogadores foram tendo às vitórias enquanto membros de seleção, pela forma adulta como puderam passar a encarar a competição desde o momento em que deixaram os juniores, estiveram na base do título europeu conquistado pela seleção principal em 2016.

Estamos, portanto, insatisfeitos? Queremos acabar com isto para arranjar mais vagas na II Liga (na competição profissional, portanto) para clubes que não formam jogadores? Já nem vou ao ponto de me atrever a gritar que é um contrasenso dizermos que temos clubes a mais nas provas profissionais, que queremos reduzir os campeonatos para aumentar a competitividade (o que seria um erro, convenhamos), mas depois vamos a correr à procura de meter mais uns quantos. Ou, ainda pior, que temos de reduzir os empréstimos, porque é evidente que, desregulados, eles subvertem a verdade desportiva dos campeonatos, mas depois tiramos aos clubes que produzem jogadores a hipótese de manter os jovens jogadores em atividade. Isso é mais do que um erro. É uma idiotice de quem desistiu de atacar o verdadeiro problema, que – e já me cansei também de escrever sobre isto – passa por uma maior equidade na distribuição das receitas e, não menos importante, pelo controlo do que é feito com esse aumento de receitas que cada um passaria a receber.

Sou mais do que sensível à argumentação dos clubes que se veem estafegados pelo poder dos grandes e acho que é fundamental encontrar ferramentas para limitar esse poder. Esta, no entanto, não é uma delas. Tratem lá mas é de centralizar os direitos televisivos, de distribuir melhor as receitas que o futebol gera, de obrigar os clubes que estão na competição profissional a ter uma equipa B (em vez de acabar com elas ou de as forçar a jogar um campeonato de sub23 em que os jovens jogadores não vão encontrar verdadeiros desafios e um panorama competitivo divergente do que têm nos juniores) e a seguir se verá o que fazer com a II Liga. Se acharem que há despesa a mais e receita a menos a esse nível, em vez das 20 equipas atuais até podem ser 32, divididas em duas zonas. Isso já é igual a litro. Mas não queiram acabar com a galinha dos ovos de ouro do futebol português só para aumentarem as chances de ter uma equipa no futebol profissional.