Artigo 

Crédito: Mário Cruz/Lusa
2018-02-04
Jogar bem e jogar mal

 

Já todos ouvimos estes queixumes, sempre da boca de adeptos cuja equipa não ganha um jogo que era de ganhar. “O adversário chegou aqui e estacionou o autocarro à frente da sua baliza”, lamentam-se, sempre dispostos a encontrar as explicações para um resultado negativo naquilo que os outros fazem. E o pior é quando entram em comparações com aquilo que o mesmo adversário terá feito em jogos com os rivais: “quando foram jogar com o x, abriram-se todos”. Pois bem, esta é uma falsa questão. E a semana que passou encarregou-se de nos mostrar isso mesmo, bem como de desmistificar essa questão do jogar bem e do jogar mal.

O que é, afinal, jogar bem? É o que faz o Rio Ave? É que durante todo o campeonato temos lido e ouvido elogios tantas vezes justificados ao futebol da equipa de Miguel Cardoso. O Rio Ave tem princípios muito sólidos, dos quais nunca abdica: constrói em posse desde trás, não vai na conversa do balão para a frente à espera de ganhar as segundas bolas com base na raça e na agressividade. Isso permite-lhe duas coisas. Em primeiro lugar, lances muito bem desenhados que são um primor para os sentidos. Foram do Rio Ave algumas das mais bonitas jogadas do campeonato, algumas das quais com golo no final. E em segundo lugar a construção de um modelo de jogo – que se treina, sim, mas que se aperfeiçoa sobretudo em competição – que lhe permite ser quase sempre melhor do que os adversários do seu campeonato. É por isso mesmo que os vila-condenses estão na posição em que estão na Liga, bem dentro das contas para um lugar europeu.

E, no entanto, o Rio Ave trouxe duas goleadas dos dois últimos jogos. Levou 4-1 em Portimão a meio da semana e 5-1 na Luz ontem. O que quer isto dizer? Que jogar como joga este Rio Ave, afinal, é jogar mal? Não. Aliás, não quer dizer isso nem o seu contrário: por si só, esta vontade de sair a jogar desde trás também não é jogar bem. O que isto quer dizer é que esta construção de um modelo de jogo é importante na identidade de uma equipa mas não pode ser responsabilizada por haver melhores ou piores resultados. Esses dependem de muitas outras coisas. Da operacionalização desse modelo, da sua compatibilidade com as características dos jogadores de que se dispõe e, last but not least, daquilo que o adversário for capaz de fazer nos jogos.

Os últimos dois jogos do Benfica explicam bem estes três parâmetros. Tal como fez o Rio Ave ontem, também o Belenenses, na segunda-feira, escolheu sair a jogar desde trás, optando por adiantar o seu bloco e dividir a posse de bola com o Benfica. Empatou, esteve até à beira de ganhar, porque sofreu um golo no último lance do desafio, mas no fim do jogo o seu treinador, Silas, veio apontar à equipa alguns erros na gestão da bola e dizer duas coisas: que sabia porque razão esses erros tinham sucedido e que daqui a algum tempo vamos deixar de os ver. Isto é: que o Belenenses ainda não teve o tempo necessário para operacionalizar o novo modelo.

Esse não será, no entanto, o problema do Rio Ave, que já treina e joga assim desde o início da época. Aliás, já foi a jogar assim que o Rio Ave empatou em casa com o Benfica e lhe ganhou na Taça de Portugal, contribuindo para este fim de época tranquilo e repousado dos campeões nacionais. Será então uma questão mais ligada à compatibilidade dos jogadores com este tipo de futebol? Não creio. O Rio Ave tem homens para jogar assim: tem bons pés atrás, tem dois cérebros a funcionar em pleno no meio. Falhou, sim, nas bolas paradas, por exemplo (três dos cinco golos sofridos ontem na Luz nasceram em pontapés de canto). Mas isso não tem nada a ver com o facto de se apostar numa construção segura e enleante, que tem naturais reflexos na forma como a equipa tem de se desorganizar a atacar – quem dá um chutão na frente não tem de desenhar os triângulos que a progressão em passes sucessivos pressupõe e, por isso, estará sempre mais organizado no momento em que perde a bola.

Daqui se percebe que se o Belenenses esteve à beira de ganhar ao Benfica e o Rio Ave saiu da Luz goleado, isso também terá tido a ver com o que o próprio Benfica fez num jogo – e com o que não fez no outro. Com a competência em particular dos jogadores num momento e a sua falta noutro. E isso, repito, não tem nada a ver com o facto de o adversário estacionar o autocarro à entrada da área ou de jogar à procura de ser construtivo.

Não é o que gostam de ouvir os defensores das teorias da conspiração, mas esses também não são capazes de explicar por que razão se contradizem a cada jornada. E por que razão numa semana se queixam de um adversário que joga demasiado fechado para na outra elogiarem uma equipa que soube fechar-se bem para roubar pontos a um rival. Ou por que razão numa semana se queixam de uma equipa que se abriu toda e facilitou a goleada a um rival para na outra lamentarem que apareça uma outra atrevida e capaz de testar bem os seus defesas com sucessivos ataques cheios de intencionalidade. Isso são coisas que o futebol não explica.