Artigo 

2018-01-21
Coentrão e o ADN do Sporting

A forma como Fábio Coentrão descarregou a sua frustração no banco de suplentes do Estádio do Bonfim, depois de perceber que o Sporting ia ali deitar à rua dois pontos, com um golo sofrido em tempo de compensação, mostra acima de tudo uma coisa: o lateral vila-condense está habituado a ganhar e não a perder pontos desta forma. Pode até ser “feito de Sporting”, como disse no momento em que assinou pelo que sempre foi o seu clube do coração, mas não é daquela parte do ADN do Sporting que cresceu exponencialmente com a conquista de apenas dois títulos nacionais nos últimos 35 anos: a parte fatalista e muitas vezes até sobranceira que já esteve à mostra, por exemplo, há dois anos.

Jorge Jesus já disse uma série de vezes que não compreende como perdeu esse campeonato de há dois anos, tendo feito 86 pontos. A resposta mordaz é sempre a mesma: porque o Benfica fez 88. Mas essa é a resposta para “memes” de Facebook. A razão mais profunda fala-nos de outras coisas, como a sobranceria, a falta daquilo a que, em tempos, Bobby Robson chamou “killing instinct” [instinto assassino]. Porque é disso que se fazem os campeões. Há dois anos, na jornada anterior à do desafio decisivo contra o Benfica, o Sporting foi a Guimarães com quatro pontos de avanço, teve ocasiões para ganhar, mas perdoou: empatou a zero. Ainda assim, jogou o dérbi, em casa, com um ponto de avanço. E voltou a perdoar, perdendo por 1-0. Tal como perdoou na sexta-feira em Setúbal, quando o adiamento da segunda parte do Estoril-FC Porto, mais a mais com os dragões em desvantagem, o deixou na frente da classificação. Era facilidade a mais.

Tal como disse Sérgio Conceição depois do FC Porto-CD Tondela, há pressão que é boa: a pressão de ganhar para ficar à frente. Difícil é jogar sem ela, sem essa pressão. Há dois anos, depois de se te deixado ultrapassar pelo Benfica, em relação ao qual chegou a ter uma vantagem bastante confortável, o Sporting não voltou a perdoar. Ao contrário do que sucedera antes, já tinha pressão. Simplesmente, o Benfica também respondeu à pressão, ganhando os seus jogos e conduzindo o campeonato a uma longa corrida entre duas equipas que o acabaram com uma pontuação irreal: 88-86. Nessa altura, os jogadores do Benfica – que, continuo a achar, jogava menos do que o Sporting, nessa Liga – mostraram uma coisa: espírito de campeões. E como se tem esse espírito de campeão, esse instinto assassino? Ganhando, habituando-se sempre a ganhar.

Parece a história do ovo e da galinha: não se ganha sem espírito de campeão e não se adquire espírito de campeão sem ganhar. Mas não é preciso sequer pensar muito para se perceber que nem os jogadores que compõem o atual plantel do Sporting nem o futebol do clube têm um passado recente de muitas vitórias. As exceções serão Coentrão e, até certo ponto, Mathieu. Os outros, mesmo que a política desportiva do clube tenha mudado com Bruno de Carvalho, podem mesmo ter desenvolvido um determinado nível de resignação próprio daqueles para quem não ganhar é o mais normal e, por isso, aceitável. Rui Patrício é um guarda-redes de classe Mundial, já é o segundo jogador que mais vezes representou o Sporting – e em breve será o primeiro – mas não sabe o que é ser campeão nacional. Como não o soube Figo, como o não souberam Ronaldo ou Nani.

Como se muda isto? Com todos os defeitos que tem, sobretudo na comunicação obsessiva e muitas vezes incorreta acerca dos adversários, Bruno de Carvalho tem feito por isso. Passou a recusar a saída dos jogadores antes de atingirem um determinado nível de serviços prestados. Está a reforçar a equipa de uma forma massiva, apetrechando-a de soluções que, em termos futebolísticos, lhe adivinham melhorias. Se é uma aposta consciente ou uma fuga para a frente, capaz de levar o clube a grandes dificuldades, o futuro o dirá – e este texto nem é acerca disso. Mas tomara o Sporting que mais jogadores tivessem sentido os índices de revolta de Coentrão depois do empate em Setúbal, ainda que sem partir nada. E tomaram os sportinguistas que ser “feito de Sporting” fosse aquilo e não as promessas ene vezes repetidas de “levantar a cabeça” e esperar com resignação por dias melhores.