Artigo 

Crédito: Hugo Delgado/EPA
2018-01-14
As vantagens do Benfica

A vitória em Braga, no jogo mais dominador que ali fez em anos, mostrou o Benfica que se esperava: um Benfica articulado e capaz de surgir à tona nos momentos importantes. Tem sido sempre assim nos últimos anos: inícios de campeonato não raras vezes débeis, mas finais de grande seriedade competitiva, a conduzirem a conquistas. E isso, por mais que tentem trazer essa questão para dentro do balneário, não tem a ver com nenhuma espécie de reação do grupo ao tema dos e-mails. Tem a ver com aquilo que estes jogadores têm dentro: qualidade e espírito de vencedores, que foram alimentando nos últimos anos.

O que se viu em Braga foi um Benfica ao mesmo tempo confiante – o que é notável, dado o número de derrotas que já somou está época – e a começar a mostrar evidências de se sentir mais à vontade neste 4x3x3 que Rui Vitória adotou como antídoto para a crise de início de época. Foi um Benfica capaz de gerir os ritmos de jogo a seu bel-prazer, de impor um ritmo lento quando entrava em organização ofensiva, porque não era esse o momento de jogo que lhe interessava, mas também de fazer pressão na saída de bola do adversário, de cortar a ligação entre os centrais e os médios, levando a recuperações e a transições para ataques rápidos ou contra-ataques capazes de aproveitar os espaços deixados por um adversário que tentava sair a jogar.

Esta foi a parte tática: definição correta da altura do bloco quando sem bola, boa articulação da movimentações dos extremos para dentro com a entrada dos dois médios interiores para fora ou até com a subida dos laterais quando em posse, a mostrar que o 4x3x3 está aprendido e que até o problema da utilização de Jonas sozinho na frente parece em vias de resolução. Depois houve uma parte técnica que tem a ver com a qualidade na definição dos jogadores do Benfica. Quando há um Jonas, um Salvio, um Cervi, um Krovinovic ou um Pizzi a definir, tudo fica mais fácil. E por fim há uma parte mental, a mais imprevisível e difícil de controlar, mas onde toda a gente gosta de influir, porque é aquela que faz ganhar e perder campeonatos entre equipas de valor aproximado.

As últimas conferências de imprensa de Rui Vitória focaram varias vezes aquilo que o treinador chamou um “ataque ao Benfica”. Não se iludam: não são queixinhas. É a tentativa de trazer para dentro do balneário a união e a revolta que se viram em anos anteriores e que foi providencial, por exemplo, na conquista do campeonato de 2015/16. Há, contudo, uma grande diferença. É que em 2015/16 os jogadores reagiram sobretudo a uma tentativa de os apoucar, de insinuar que tudo o que tinham conquistado anteriormente tinha a ver com os méritos de quem os conduzia: Jorge Jesus. Desta vez, é verdade que também há quem afirme que tudo o que o Benfica ganhou nos últimos anos se deveu a fatores externos – neste caso os árbitros, condicionados por uma “teia de poder”.

Há, contudo, uma grande diferença: os jogadores gostam de futebol, sabem de futebol, falam de futebol. Respeitam os treinadores, suportam os dirigentes. Tudo o que tenha a ver com o trabalho destes últimos passa-lhes completamente ao lado. Muito me espantaria que um grupo de jogadores se unisse em torno de acusações feitas a quem não dá um chuto numa bola, a quem não partilha com eles o espaço íntimo de um balneário. Para eles, os gabinetes são como Las Vegas: o que acontece lá, fica lá. Não foi nem será por aí, portanto. O Benfica está na luta pelo título – e a passagem por Braga voltou a ser decisiva para isso – porque tem equipa com qualidade para tal. E, em relação a FC Porto e Sporting tem neste momento uma desvantagem que, caso os adversários mantenham a cadência, será decisiva – os pontos – mas duas vantagens: um calendário mais desafogado, com apenas 16 jogos até final da época, e uma mentalidade coletiva vencedora, alimentada pelos títulos que estes jogadores têm ganho nos últimos anos.