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Crédito: Manuel de Almeida/Lusa
2018-01-07
Para quem foi melhor o resultado do dérbi

Há toda uma desconstrução semântica a fazer na frase que Jorge Jesus mais vezes repetiu no final do dérbi de quarta-feira. “Não é preciso ir à China! Este resultado é pior para o Benfica do que para o Sporting”. Rui Vitória, depois, foi mais prudente. Primeiro porque à exceção do monte de avançados que manda para dentro do campo sempre que o resultado não lhe agrada, é sempre mais prudente, sobretudo no discurso. Depois porque quis ali invocar as energias positivas provocadas pela conjugação da superioridade mostrada pela sua equipa em campo com o golo tardio de Jonas, que só lhe valeu um empate. É que, como bem se percebe pela reação unida do FC Porto ao episódio de Santa Maria da Feira, há sempre algo de bom a retirar do que não correu bem, seja um resultado como o empate da Luz, uma classificação como o terceiro lugar do Benfica ou apenas um aspeto isolado de um jogo, como a expulsão de Felipe e a revolta com Fábio Veríssimo.

O que quis dizer Jesus? Então entra na Luz a poder acabar com um rival para se centrar no outro, coloca-se em vantagem cedo, perde essa possibilidade ao 90º minuto, depois de um jogo em que o futebol da sua equipa foi pobre e apenas baseado na confiança que o treinador tem na capacidade da sua última linha defensiva e ainda assim saiu feliz e contente? Mais uma vez, no dérbi, Jesus quis ser igual a si mesmo, repetir as mesmas ideias. Esta é a forma mais comum de Jesus abordar clássicos. No Benfica, já perdeu campeonatos assim, como em 2013, o ano do famoso golo de Kelvin no Dragão – também aí tinha confiança de que com aquela última linha defensiva era difícil fazerem-lhe golos. Mas também já ganhou campeonatos assim, como em 2015, quando passou os clássicos fora de casa encostado à baliza de Artur, mas ganhou no Dragão com um bis de Lima e empatou em Alvalade, graças a um golo de Jardel nos últimos instantes da partida.

Ainda assim, o que se viu na Luz não foi bonito nem deixa grandes razões para otimismo e sobranceria. Foi uma equipa que, mantendo os três pontos para o Benfica, perdeu dois para o FC Porto, cujo estádio ainda tem de visitar. Que ora baixava os demasiado os médios para dentro da área, ora os forçava a aproximar-se de Dost, tudo isto resultando sempre no aumento do espaço entre as linhas – seria diferente com Doumbia ou Podence, por exemplo, uma vez que o espaço nasce da relação da distância com a velocidade de reação. Mas Jesus quis sempre segurar, controlar, como se percebe pelas entradas de Bruno César e Bryan Ruiz. E, bem antes disso, o Benfica já tinha aproveitado o convite para tomar conta do jogo. Krovinovic, Grimaldo, Cervi, Salvio, até André Almeida tinham amplas avenidas a invadir à sua frente e nunca se fizeram rogados, fazendo crescer a equipa para a melhor exibição da época em desafios com adversários do seu campeonato. É verdade que Jesus teve razão na confiança que tinha na sua última linha, que é de facto fortíssima, mas também é verdade que, permitindo o empate, patrocinou a mais credível ameaça de recuperação que o Benfica já fez esta época. E foi a pensar nisso que Rui Vitória disse o que disse.

Na verdade, não é preciso ir à China para perceber que ganhar é melhor do que empatar e que empatar é melhor do que perder. Mas nem tudo se esgota num resultado, sobretudo quando as distâncias não são assim tão categóricas. Vitória ainda tinha o apoio entusiástico dos adeptos à equipa a ressoar no peito quando se sentou na sala de imprensa e avançou: “veremos no fim a quem este ponto vai dar mais jeito”. O facto de já ter ganho ao Sporting uma Liga na qual chegou a ter sete pontos de atraso também lhe terá servido de empurrão para a sua própria dose de basófia controlada. Não foi uma declaração corajosa – no sentido do compromisso – como o famoso “Em condições normais vamos ser campeões e em condições anormais também vamos ser campeões” que Mourinho disse uma vez, em Fevereiro de 2003, no FC Porto, mas mesmo sem o murro na mesa que o “Special One” deu depois de falar tinha o mesmo objetivo: prolongar no balneário o efeito de uma boa exibição para que os jogadores possam responder às contrariedades nos tempos difíceis que se avizinham.

Para quem foi melhor este resultado? Não me atrevo sequer a dizer que foi para o FC Porto, que assim ganhou pontos aos dois rivais, porque admito que Sérgio Conceição preferisse ter um Benfica a desistir da corrida para centrar atenções no Sporting. Lutar a três é sempre mais complicado do que fazê-lo a dois. Para o Benfica? Sim, se a equipa continuar a produzir como na quarta-feira. Para o Sporting? Sim, se a equipa recuperar o futebol conquistador que chegou a mostrar. As respostas começam já hoje.