Artigo 

2017-12-31
Estes tempos de hoje são terríveis

Ontem de manhã, no carro, a caminho do mercado, ouvi parte da reposição de uma entrevista radiofónica [de Inês Meneses, na Radar] a Daniel Sampaio, em que o psiquiatra falava dos riscos de diabolização da internet na educação das crianças, da mesma forma como há uns anos se diabolizava a televisão. Não ouvi a entrevista até ao fim, mas como pai tenho opinião formada sobre o assunto. O que importa não é diabolizar, é ocupar. O que importa não é proibir, mas sim preencher. E o mais extraordinário é que isto é válido para a educação dos nossos filhos como é para as suspeitas de corrupção no futebol português: o que importa não é diabolizar o jogo online, não é proibi-lo ou limitá-lo à espécie de oligopólio que o explora, é compreendê-lo e regulá-lo de forma a que todos possam ganhar.

Daniel Sampaio defendia uma coisa muito simples: que se fale com os adolescentes, que se reserve o tempo da família. Porque de nada serve proibir-lhes a internet e as redes sociais se depois os “abandonamos” para estarmos nós próprios… na internet. Também é assim com o jogo online, que nem é diabólico em si nem deixa de o ser para ser beato se for explorado pela Santa Casa da Misericórdia. Perante as suspeitas de viciação de resultados, que já tinham manchado jogos da II Liga e agora há quem estique até ao campeonato principal e até a jogos do topo da tabela, mais vale pensar da mesma forma: de nada serve proibir o jogo, porque ele encontrará sempre uma forma de aparecer à superfície, nem que seja clandestina; o que importa é perceber por que razão ele encontra campo fértil num campeonato que devia ser dos mais invulneráveis à viciação da Europa, por ser um dos mais fortes do continente. Estamos ou não estamos no top 10 dos campeonatos melhor posicionados no ranking?

Porque, sim, as coisas estão ligadas. Quem me lê não sabe provavelmente quanto ganha em média um jogador de futebol de primeira ou, ainda pior, de segunda divisão em Portugal. Ou, mais grave, quando ganha – porque os meses para quem trabalha no futebol, além de serem dez e não 14, como na maioria dos empregados por conta de outrem, têm muitas vezes 60 ou 90 dias e tendem a atrasar-se mais à medida que as provas se aproximam do fim e os objetivos ficam mais distantes. Quem já andou pelos fóruns dedicados ao tema na internet sabe bem de onde apareciam mais resultados viciados há um par de anos. A Letónia era um maná. A segunda divisão da Geórgia um banquete. A Bulgária ou os campeonatos de reservas da Ucrânia um festim. E de repente aparece a II Liga portuguesa. E depois, pasme-se, até a primeira, que todos queríamos julgar acima de qualquer suspeita de um cancro que, acreditávamos, só atacava no terceiro mundo.

A razão é muito simples e tem a ver com duas coisas. Primeiro, é evidente, desonestidade de quem compra e de quem se vende. Mas isso é da natureza humana: em todas as profissões haverá quem se venda desde que haja quem queira comprar. Jogadores, árbitros, médicos, jornalistas, caixas de banco ou de supermercado… São, felizmente, uma anomalia no sistema, porque a maioria de nós não está à venda. É, por isso, a segunda razão que importa entender: desadequação da receita real face à receita potencial. Um campeonato que gera um nível de interesse – e portanto de receita potencial – elevado, mas paga muito abaixo disso torna-se mais vulnerável à corrupção. No caso de Portugal, que é isso que me importa agora, é evidente que se reduz a permeabilidade à corrupção se se passar a premiar melhor a honestidade. Porque ninguém gosta de ganhar a perder se puder ganhar a ganhar.

Tal como com os miúdos e a internet, a questão não passa por diabolizar ou proibir o jogo. Passa, isso sim, por enquadrá-lo e por permitir que as receitas que ele gera sirvam a todos e não apenas a uns quantos. Passa por uma série de medidas inteligentes não só na criação de receita – uma das fontes de receita dos clubes ingleses são as casas de apostas, por exemplo – como na sua posterior distribuição. Passa por uma reflexão que o poder político ainda não soube ou não quis fazer acerca da carga fiscal perfeitamente idiota que está a impor ao jogo online em Portugal, permitindo a criação de um “cartel” de casas autorizadas que, para serem viáveis, têm de mexer no bolso dos apostadores com odds surreais – e menos imposto sobre maior investimento seria bem melhor para todos, como já se provou por toda a Europa onde não são conhecidos casos de resultados combinados. Obrigaria os que estão praticamente sós no meio a enfrentar maior concorrência, mas seria melhor para os apostadores, para os clubes e para a administração fiscal. Por que não se faz, então?

A alternativa é continuarmos a diabolizar a internet e a incentivar que os miúdos fiquem isolados no quarto, sem acesso ao mundo exterior e sem falarmos com eles – porque estamos no Facebook ou no Instagram ou no Twitter. E quando alguns deles acabarem por seguir maus caminhos, poderemos aparecer com um moralismo bacoco e dizer: “Estes tempos de hoje são terríveis”. A questão é que nós é que falhámos rotundamente na nossa missão de educadores ou reguladores.