Artigo 

2017-12-24
O momento decisivo do Benfica

Há meia dúzia de coisas acerca do momento do Benfica sobre as quais vale a pena refletir. Uma tem a ver com a forma como os benfiquistas que querem mudança reagem à situação atual, ao facto de a equipa de futebol estar já fora de todas as competições à exceção do campeonato. Outra diz respeito à avaliação dessa circunstância: isso é bom ou mau para a carreira do Benfica na Liga? Uma terceira prende-se, a nível estratégico, com os efeitos de um eventual mau ano naquilo que é e que pode vir a ser o clube nos tempos mais próximos. Outra ainda relaciona o clima geral do futebol nacional, dos emails ao “blitzkrieg” comunicacional, com o afastamento do Benfica das várias competições.

Começo por uma constatação óbvia: o Benfica está a jogar menos do que na época passada. Tal como me pareceu que na época passada já jogou menos do que há duas épocas, mesmo tendo ganho a Liga com mais margem – por desistência alheia. Há aqui uma tendência, que uns relacionam com o envelhecimento de alguns jogadores, outros com o fracasso da substituição das estrelas vendidas para o estrangeiro e outros ainda, saudosos de Jorge Jesus, com a perda gradual de rotinas criadas pelo antigo treinador. Acho, francamente, que todos esses fatores influíram um pouco. Uns mais do que os outros, naturalmente. E que os efeitos da troca de treinador, que ajudaram a explicar o campeonato ganho em 2015/16, chegam até à guerra comunicacional em que se trava a atual Liga.

Acredito que no que diz respeito a trabalho de campo, a treino de futebol, Jorge Jesus é o melhor treinador da Liga portuguesa. Da mesma forma que acredito que além dos três campeonatos ganhos no Benfica graças a essa virtude – e aos plantéis fantásticos que conseguiu reunir – podia bem ter somado pelo menos mais dois, que perdeu naquele que é o seu ponto mais fraco: a gestão de grupos e de expectativas. Falo do campeonato de 2012/13, ainda no Benfica, e do de 2015/16, já no Sporting, nos quais as suas equipas jogavam o melhor futebol. Para o caso em apreço, porém, em vez de pensarmos por que razão Jesus perdeu esses campeonatos, vale mais pensar nas razões que levaram Vítor Pereira (FC Porto) e Rui Vitória (Benfica) a ganhá-los. Acima de todas, uma: a união do grupo face a ataques externos.

Aos benfiquistas que neste momento estão a perguntar por que razão isso não está agora a unir ainda mais o plantel do clube, a resposta é simples: porque neste momento não é o plantel que está a ser atacado. Vitória ainda terá tentado chamar a ofensa ao balneário, motivar alguma revolta, algum sentido de amor-próprio e orgulho, mas a diferença é que neste momento os tiros – ou ricochetes – não se dirigem aos jogadores nem ao seu líder. Dirigem-se aos diretores. A Paulo Gonçalves, João Gabriel, Domingos Soares Oliveira... Aos comunicadores. A Pedro Guerra, Rui Gomes da Silva... E ao estratega do plano comunicacional, Carlos Janela. Em suma, quem está debaixo de fogo é toda a guarda que serve de proteção ao presidente Luís Filipe Vieira. E com essa gente os jogadores não perdem um minuto de preocupação. Até se uniriam para defender o treinador de ataques externos, como o que foi feito por Jesus depois dos 3-0 na Luz, há dois anos – “podia pô-lo assim pequenino” – mas a diferença é que, desta vez, até os ataques ao treinador vêm mais de dentro do que de fora. Há mais descontentamento com Rui Vitória no seio dos benfiquistas do que gozo por parte dos rivais.

Claro que se quisermos ser frios na análise, Rui Vitória não é hoje um treinador diferente do que era quando os benfiquistas, esses mesmos benfiquistas que agora o contestam, andavam com ele ao colo. Tinha as mesmas virtudes e os mesmos defeitos. Sendo que um desses defeitos pode ser confundido com uma virtude e dá pelo nome de “solidariedade institucional”. Porque se alguém no Benfica estava convencido de que se pode substituir sempre, em anos seguidos, os melhores de cada setor por miúdos da equipa B, que no Seixal se dá um pontapé numa pedra e sai um potencial Bola de Ouro, esse alguém não é seguramente Rui Vitória, que é quem mais conhece o que tem em mãos.

Não estou convencido de que esta época tenha de acabar mal para o Benfica. Uma vitória no dia 3 de Janeiro sobre o Sporting relançaria a candidatura do Benfica ao penta e de Rui Vitória a um tricampeonato que ninguém consegue em nome pessoal em Portugal desde Jimmy Hagan, no início da década de 70. Como a época do Benfica se joga em grande parte nessa noite e nas deslocações a Moreira de Cónegos e a Braga, logo a seguir, não me parece que o afastamento das outras provas possa vir a ajudar seja no que for – ou que a presença de FC Porto e Sporting nas três taças os prejudique nesta questão particular.

Uma coisa é certa. Corra como correr, ainda acho que se enganam os que veem no insucesso a chave da mudança, os benfiquistas que até tolerarão um ano sem ganhar nada se esse ano servir para mudar as coisas. É que me parece cada vez mais difícil que a culpa, neste caso, morra solteira. Ou que ninguém se lembre de comparar Ederson com Svilar (hoje, não é daqui a três anos, quando Mourinho trouxer a tal “mala grande” cheia de dinheiro para o levar), Nélson Semedo com Douglas, Lindelof com Lisandro e Mitroglou com Seferovic ou Gabigol. E é também por isso que continuo convencido de que, para não perder face, é muito mais fácil a Luís Filipe Vieira prescindir de Rui Vitória a ganhar do que na eventualidade de chegar ao fim do ano de mãos a abanar.